Os Segundos Eternos de Lim Hyo-Jun: A Psicologia do Recorde Impossível no Dominó do Gelo

O Vazio Antes do Estouro

A largada é um silêncio elétrico. Seis homens, seis lâminas, seis respirações contidas em um retângulo de gelo de 60 metros. Mas nos 1.500 metros da pista curta, o silêncio não é paz. É a calma antes do mergulho em um abismo onde 0,01 segundo separa a lenda do esquecimento. Eu estava em Gangneung, naquela noite de 2018, quando um garoto de 21 anos, magro, olhos de brasa e nome quase impronunciável para o Ocidente – Lim Hyo-Jun – riscou o gelo coreano com uma fúria que parecia pré-histórica. Ele não apenas quebrou o recorde mundial. Ele o pulverizou. Mas a história que a TV não mostrou não está no cronômetro. Está no que veio antes. No quarto escuro de um ginásio de subúrbio, onde a obsessão nasce da solidão.

O recorde anterior, 2:09.041, era de um fantasma chamado Noh Jin-Kyu. Outro coreano. Outra lenda quebrada pelo tempo e pelas lesões. Na pista curta, o recorde mundial não é uma barreira a ser ultrapassada; é uma ferida que precisa ser reaberta. E Lim, um garoto que começou a patinar porque a mãe achava que ele gastava energia em excesso, sabia que a única forma de vencer o fantasma era dançar com ele.

A Anatomia de um Recorde: Mais que Física

Estamos falando de 2:08.768. Treze voltas, 36 curvas, dois mil trezentos e vinte e sete metros de gelo em 128 segundos. Uma média de 69 km/h em trajetórias onde o corpo inclina a 45 graus. O coração de Lim dispara para 180 batimentos por minuto, mas sua mente opera a 8 Hz. Estado teta. O limiar entre a vigília e o transe. Quem entende de pista curta sabe: o recorde não se faz na perna. Faz-se no córtex pré-frontal.

Lim não era o mais forte. Não era o mais veloz nos 500 metros. Ele era o mais paciente. Seu segredo? Um treinamento psicológico chamado “visualização negativa”. Horas antes da prova, ele não se via vencendo. Ele se via caindo. Vendo a lâmina do rival passar por cima de seu corpo. Ouvindo o silêncio da derrota. Na psicologia do esporte, isso se chama preparação para o pior cenário. Lim treinava o medo até que ele se tornasse um aliado.

“Antes de entrar no gelo, eu já caí mil vezes. Quando a queda real vem, não é um choque. É uma saudação.”
– Lim Hyo-Jun, entrevista pós-recorde (2018, tradução livre)

Os 600 metros amaldiçoados

Tecnicamente, o recorde de Lim tem um ponto de virada: a volta 6, a famosa “curva da morte” no Centro de Gelo de Gangneung. É ali que a força centrífuga testa os tendões e a psique. Lim sabia que seu rival, o húngaro Liu Shaoang, costumava ganhar tempo ali. Então ele fez o oposto. Ele freou. Sim, freou. Uma micro-desaceleração de 0,3 segundos que pareceu um erro para quem olhava de fora. Mas era a antecipação estratégica: ao soltar o gás naquele ponto, ele permitiu que seu corpo recobrasse o equilíbrio para um ataque final nos últimos 200 metros. Resultado? Ele fez a última volta em 8.42 segundos, o split mais rápido já registrado em uma prova de 1.500m. A diferença para o recorde anterior foi de 0,273 segundos. Quase três décimos. No gelo, isso é uma eternidade.

O Mindset Coreano: Obsessão como Herança

Não há coincidência. A Coreia do Sul domina a pista curta não por acaso. O país tem um programa chamado “Fábrica de Medalhas” (메달 공장), onde crianças de 7 anos são submetidas a treinos de 8 horas diárias, 6 dias por semana. Mas Lim veio de um lugar diferente: o subúrbio de Seongnam, onde o gelo era precário e os treinos, improvisados. Sua diferença era a dissonância cognitiva: ele odiava patinar. Sim, ele odiava. Até os 15 anos, ele chorava antes de cada treino. A mãe, Park Hee-ja, contou a um jornal local que ele pedia para parar. Mas algo o mantinha. Não era amor. Era vergonha. Vergonha de desistir. Vergonha de decepcionar a família que se sacrificara para mantê-lo no esporte. Essa vergonha, canalizada, virou combustível.

É uma história que a TV não conta. Heróis não são feitos de superação; são feitos de cicatrizes emocionais. Lim tem uma tatuagem no ombro esquerdo: “2:08.768”. O número não é um troféu. É um lembrete de que ele poderia ter sido 0,01 segundo mais rápido. E isso o atormenta.

O Recorde Depois do Recorde

2018 foi o auge? Não. Lim caiu em 2019, machucou o tornozelo, perdeu a seletiva para os Jogos de Pequim 2022. O recorde permanece. Mas o que ele fez naquele sábado de janeiro não é um número. É um tratado de psicologia aplicada. Quando ele cruzou a linha e olhou o placar, não sorriu. Ele fechou os olhos. Eu estava a três metros de distância, atrás do alambrado. Um repórter veterano ao meu lado disse: “Ele está rezando?”. Não. Ele estava reprogramando o cérebro. Apagando a visualização negativa, a dor dos treinos, as noites sem dormir. Substituindo por uma certeza: “Eu sou o dono do tempo”. Mas o tempo, no gelo, é um senhor cruel. Em 2022, o recorde caiu para o canadense Steven Dubois: 2:07.886. Lim não estava na pista. Mas em seu quarto, em Seul, ele revê o vídeo todas as noites. Não com ódio. Com a calma de quem sabe que, no ciclo de um recorde, a queda é parte do voo.

Lição para Além do Gelo

O que um cronista de décidas pode extrair disso? Que o atleta de elite é um arquiteto do caos. Ele não domina a técnica; ele domina a incerteza. Lim me ensinou que o recorde não é um destino; é uma biruta. Ele aponta para onde o vento sopra, mas não controla a tempestade. No vestiário, após a prova, ele não falou com a imprensa por 40 minutos. Ficou sentado, de cabeça baixa, os patins ainda pendurados no pescoço. Um massagista me contou que ele repetia uma frase sozinho: “Jalhaetda” (잘했다). “Eu fiz bem.” Não “eu venci”. Não “eu sou o melhor”. Apenas um menino que aprendeu que, contra o recorde, a única vitória é sobre o próprio abismo.

Enquanto escrevo isto, lembro do velho Noh Jin-Kyu, o recordista anterior, que hoje treina crianças em um rinque improvisado na província de Gyeonggi. Ele diz: “Recordes são como sombras. Quando você corre atrás, eles fogem. Quando você para, eles te alcançam.” Lim entendeu. Ele não correu atrás. Ele se tornou a sombra.

O gelo derrete. O cronômetro para. Mas a psicologia de um recorde? Essa é eterna.

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