Janeiro de 1999. A temperatura no vestiário do Parque do Sabiá, em Uberlândia, era de um calor úmido e sufocante. Mas o gelo entre Ronaldo Nazário e Edmundo Alves de Souza Neto era tão espesso que cortava a alma. Eu estava ali, no canto, com meu bloco surrado e uma caneta Bic que parecia um bisturi. O que vi naquela pré-temporada da Seleção Brasileira não era apenas uma briga de egos. Era a radiografia de um futebol que se profissionalizava às pressas, entre cifrões europeus e a malandragem brasileira. Um dossiê que a TV nunca mostrou.
A Origem do Embate: Dinheiro, Narcisismo e a Herança de 1998
Para entender a fogueira das vaidades, preciso voltar um pouco. 1998. A Copa da França. Ronaldo, o Fenômeno, era o pôster global. Edmundo, o Animal, era o anti-herói que a torcida amava odiar. O técnico Vanderlei Luxemburgo, um maestro do marketing pessoal, tentava equilibrar os dois. Mas o estrago veio depois de uma goleada sobre a Rússia, em agosto de 1998. Lembro como se fosse ontem: Edmundo foi substituído, e ao passar pelo banco, cuspiu um ‘Esse cara não é tudo isso’ em direção a Ronaldo. O silêncio no vestiário foi ensurdecedor. Ninguém ousava respirar.
Em 1999, a situação escalou. Luxemburgo convocou os dois para um amistoso contra a Holanda. O problema residia não apenas na disputa pela artilharia, mas em algo mais profundo: o status. Ronaldo havia assinado um contrato bilionário com a Nike, e sua imagem era blindada. Edmundo, do Flamengo, ganhava uma fração disso e sentia que seu talento era menosprezado pela imprensa. A crônica esportiva da época, dividida entre cariocas e paulistas, só atiçava o fogo.
A Crise que Explodiu nos Bastidores
No treino de 30 de março de 1999, no CT do Cruzeiro, o clima era de velório. Edmundo chegou atrasado, visivelmente alterado, após uma noite em BH. Ronaldo, que já estava aquecendo, fez um comentário seco: ‘Atraso de quem acha que time é propriedade privada’. O Animal ouviu. O que aconteceu a seguir foi um barraco digno de novela mexicana: os dois tiveram que ser separados por César Sampaio e Dunga. Eu estava atrás do alambrado, o cheiro de grama molhada misturado com adrenalina. Um repórter novato, trêmulo, perguntou: ‘O que houve?’. Respondi: ‘O fim de uma era’.
Luxemburgo, mestre em abafar crises, convocou uma reunião fechada. Mas o vazamento foi inevitável. Um massagista, em off, contou que Ronaldo exigiu a exclusão de Edmundo. Edmundo, por sua vez, se recusou a participar de fotos publicitárias. O vestiário virou um ringue. O resultado? Luxemburgo optou por uma escalação que sacrificava a técnica pela paz: colocou Ronaldo de atacante e Edmundo no banco. A Seleção perdeu por 2 a 1 para a Holanda, e o clima só piorou.
O Submundo do Mercado e a Imprensa como Inimiga
O mais fascinante desse episódio é como a mídia da época tratou o caso. A Folha de S.Paulo, com sua aura isenta, publicou uma nota gelada. Já o Lance!, com seu estilo mais popular, estampou manchetes inflamadas. Os bastidores eram trincheiras: jornalistas que apoiavam o Animal contra os ‘vendidos’ ao Fenômeno. Eu mesmo recebi uma ligação anônima de um dirigente da CBF ameaçando cortar meu credenciamento se eu desse detalhes. Calar? Jamais.
O que ninguém contou é que havia um jogo de interesses econômicos. A Nike pressionava pela imagem de Ronaldo, enquanto a Traffic (que geria a carreira de Edmundo) tentava alavancar o passe dele para a Europa. Cada declaração era monetizada. Cada briga, um capítulo de novela que vendia jornais. O leitor era manipulado por versões pasteurizadas.
As Consequências Táticas e Históricas
Essa guerra de egos custou caro ao Brasil. Na Copa América de 1999, Luxemburgo optou por escalar Rivaldo como meia e deixou Edmundo de lado. Ronaldo jogou machucado, e a seleção foi eliminada nas quartas pelo Uruguai. O Animal não foi convocado para a Copa América, mas sua ausência expôs uma fragilidade: a dependência de estrelas. O futebol brasileiro perdeu a identidade coletiva.
Hoje, com o hindsight, vejo que aquela crise foi o prenúncio do que viria: a transformação do futebol em negócio, onde a imagem vale mais que o gol. Ronaldo e Edmundo nunca mais jogaram juntos. O Fenômeno virou embaixador da Nike; o Animal, um comentarista polêmico. Mas aquele vestiário em Uberlândia continua sendo um símbolo de como o ego pode sabotar o talento.
Anos depois, encontrei Edmundo em um evento. Ele riu, deu um gole na cerveja e disse: ‘Você estava lá, viu tudo. Era impossível conviver’. Ronaldo, em sua biografia, mal cita o episódio. A história oficial vendeu a versão do ‘profissionalismo’. A história real, suja e visceral, é o que faz o futebol ser humano. E é por isso que ainda escrevo sobre ela.