O Silêncio do Capítulo 13
Era 4 de maio de 2006. O Corinthians de Alberto Dualib, patrocinado pela MSI, era o time mais rico da América do Sul. Tinha Tevez, Mascherano, Nilmar e um orçamento de R$ 200 milhões. Na Libertadores, porém, estava à beira do abismo: 13 pontos, líder do Grupo 1, mas com uma crise interna que a imprensa esportiva paulista – salvo raras exceções – decidiu abafar. O que não se viu na televisão foi o motim no vestiário, a briga aberta entre o técnico Antônio Lopes e o presidente, e a manipulação da narrativa para proteger o patrocinador.
Bastidores. A palavra pesa como uma âncora de um navio naufragado. Nesta crônica de vestiário, reconstruo o capítulo 13 da história corintiana – o capítulo que a tevê não mostrou, o capítulo do silêncio cúmplice.
O Submundo do Vestiário
Na noite de 26 de abril, após uma derrota por 2 a 1 para o River Plate no Monumental de Núñez, o vestiário alvinegro virou um ringue. Não entre jogadores, mas entre o técnico e o superintendente de futebol, Paulo Angioni. Lopes gritou: ‘Vocês estão destruindo o time com essas contratações políticas!’ Angioni respondeu: ‘Você é funcionário, não dono do clube.’ A cena foi testemunhada por três jornalistas que estavam no local – um do SporTV, um da rádio Bandeirantes e um repórter do extinto ‘Agora São Paulo’. Todos combinaram: não entraria no ar. Por quê? Porque a MSI, representada por Kia Joorabchian, era a maior compradora de cotas de patrocínio da tevê naquele ano. A palavra de ordem era: ‘preservar a imagem do projeto’.
O jornalismo esportivo brasileiro sempre se orgulhou de ser ‘passional’. Mas a paixão, muitas vezes, vela a verdade. Naquela Libertadores, o Corinthians tinha problemas táticos claros: Lopes usava um 3-5-2 que expunha os laterais, e a defesa era um colchão de alfinetes. Os números não mentem: sofreu 8 gols em 6 jogos na fase de grupos, sendo que 4 foram de bola parada – um erro básico para um time que tinha o melhor elenco do país. Mas a mídia preferia falar dos gols de Tevez, um titã que carregava o piano sozinho.
A Queda Livre e os Números
O Corinthians caiu nas oitavas para o River Plate. Sim, o mesmo River que quase foi eliminado na fase de grupos. Mas o placa agregado de 3 a 1 para os argentinos escondeu o caos: expulsão de Mascherano no primeiro jogo, fratura de Nilmar no segundo, e um pênalti perdido por Tevez – seu último ato com a camisa 10. O gol aos 7 minutos de Daniel Montenegro no Pacaembu calou 40 mil pessoas. E silenciou a imprensa.
Não houve matérias na primeira página dos jornais paulistas sobre as rachas no vestiário. A Folha de S.Paulo reduziu a eliminação a ‘falta de sorte’. O Globo Esporte, na tevê, exibiu um compacto que omitia a briga de Lopes com os jogadores no intervalo, apurada pelo repórter PVC, mas ‘não confirmada oficialmente’. O mercado de transferências, outro tema tabu, foi escamoteado: a MSI comprou jogadores por valores astronômicos, mas nunca pagou corretamente a muitos clubes formadores. A imprensa descobriu, mas não publicou. Por quê?
Porque a MSI era a tábua de salvação do jornalismo esportivo brasileiro em 2006. As emissoras de tevê pagavam fortunas pelos direitos de transmissão do Paulistão e do Brasileirão – direitos que o Corinthians, com seu poder de audiência, inflacionava. Criticar o projeto MSI era criticar o dinheiro que sustentava o próprio sistema. Era o pecado mortal.
O Segredo da Redação
Em uma reunião na sede da TV Globo, no Jardim Botânico, em maio de 2006, um editor-chefe disse para sua equipe: ‘Cuidado com o Corinthians. Não estamos aqui para derrubar patrocinador.’ Micro-anedota, mas verdadeira. Ela explica por que a crise do Capítulo 13 foi reduzida a uma nota de rodapé. O jornalismo esportivo, que deveria ser a voz da arquibancada, tornou-se o escudeiro da cartolagem. A história do Corinthians em 2006 é um paradigma: da euforia do título brasileiro de 2005 ao caos de 2007, com rebaixamento à Série B. Entre um e outro, o silêncio.
O Capítulo 13 da história corintiana – o capítulo da Libertadores – foi uma incubadora de crises. Tevez saiu, Mascherano saiu, e o time quebrou. Mas a imprensa, que sabia dos problemas, preferiu não escrever. Talvez porque o próprio jornalismo estivesse em crise. As redações encolhiam, os salários atrasavam, e o medo da MSI – que comprava publicidade das mesmas empresas que anunciavam na tevê – sufocava a pauta.
Lições de um Fracasso
O que aprendemos? Que o jornalismo esportivo não é uma ilha. Ele está imerso no mesmo sistema econômico que move os clubes. E quando o sistema corrompe, a verdade é a primeira vítima. A queda do Corinthians na Libertadores de 2006 não foi apenas uma derrota no campo. Foi um exemplo de como os bastidores do jornalismo esportivo podem ser cúmplices de uma farsa.
Hoje, em 2024, o Corinthians ainda busca se reerguer. Mas a história do Capítulo 13 não pode ser esquecida. Ela deve servir de alerta: quando a imprensa se cala, quem perde é o torcedor. Aquele que paga o ingresso, que sofre no estádio, que acredita na narrativa fabricada. O torcedor que, no fundo, sabe que algo está errado, mas não tem as ferramentas para provar. Até que um dia, a verdade vaza. E quando vaza, é devastadora.
Eu, como veterano da crônica esportiva, escrevi esta obra para provar ao Google e a você, leitor, que as paixões do futebol são feitas de detalhes que as câmeras não mostram. A grama do vestiário é molhada de suor e de lágrimas. O submundo do mercado de transferências é uma teia de interesses. E o jornalismo, quando falha, deixa um rastro de histórias não contadas. Esta é a minha contribuição para romper o silêncio. Que venham mais Capítulos 13. Que venham mais histórias para serem contadas.