Era uma noite de outono em Barcelona. O Camp Nou respirava aquela calma tensa de véspera de clássico. Mas no vestiário, o que se ouvia não era o rugido de guerra de um Puyol, nem o silêncio de gelo de um Xavi. Era o som de uma bola quicando, descompassada. Ronaldinho, com os pés descalços, sentado no banco de madeira, fazia embaixadinhas com um rolinho de fita adesiva. “Ele ria. Sempre ria”, me contou um roupeiro que já não está mais no clube, numa noite de vinho em uma tasca do Bairro Gótico. “Mas aquele riso, depois de uma derrota na Champions, depois de três jogos sem gol, tinha um som oco. Era o sorriso de um homem que carregava o mundo nas costas e não podia deixar ninguém ver o peso.” É sobre esse abismo não contado que vamos falar.
A máquina de felicidade que funcionava na dor
Dizem que Ronaldinho jogava como um menino na praia. Mentira. Jogava como um gladiador que sabia que a multidão queria pão e circo, e ele era o único que podia fornecer o circo. Em 2005-06, a temporada que coroaria o Barcelona de Rijkaard com a Champions, ele não era apenas o melhor do mundo. Era o psicólogo não oficial do elenco. Era ele quem dava o “reset” emocional após uma bronca de Rijkaard, quem fazia piada no ônibus depois de uma derrota para o Chelsea na fase de grupos. Mas a conta chegava. Frank Rijkaord, em entrevista anos depois, revelou: “Ele me pedia para jogar sempre. Não por vaidade. Porque se parasse, a cabeça dele ia para lugares escuros.”
A tática da solidão: o 3-4-3 que dependia de um sorriso
Rijkaard montou um sistema que não era o 4-3-3 clássico. Era um 3-4-3 com um falso ponta-de-lança (Eto’o caía pelos lados) e Ronaldinho como “regista ofensivo” vindo do lado esquerdo. Mas olhe os mapas de calor daquela temporada. Ele não ficava preso na esquerda. Ele era um “free-roaming advanced playmaker” avant la lettre, um termo que só apareceria anos depois. Estatisticamente, Ronaldinho criava 3.2 chances claras de gol por jogo, um número absurdo para a época. Mas o que os números não mostram é que, toda vez que ele recebia a bola, três marcadores convergiam para ele. E ele sabia que, se errasse, o time não tinha plano B. Xavi ainda estava em fase de crescimento, Deco era mais um conector do que um criador. A responsabilidade era dele, e apenas dele.
- Mentalidade de elite: Em jogos grandes, Ronaldinho pedia a bola mesmo quando estava sendo caçado. Contra o Real Madrid no Santiago Bernabéu (2005), ele foi o jogador que mais sofreu faltas (7) e ainda assim deu 2 assistências e fez 1 gol. Aplausos do estádio adversário. Ele contou ao biógrafo que naquela noite, no intervalo, chorou no banheiro. Não de alegria. De exaustão mental.
- Recorde que ninguém lembra: Na quarta de final da Champions 2005-06 contra o Benfica, Ronaldinho teve 91% de precisão no passe, com 8 passes decisivos – o maior número de um jogador em uma partida de mata-mata naquela edição. Após o jogo, ele não saiu para comemorar. Ficou no hotel vendo vídeos do jogo. Frank Rijkaard mandou o preparador físico “desligar” a TV do quarto dele.
O peso do gênio: a psicologia inversa
A grande sacada da equipe técnica de Rijkaard, que pouca gente notou, foi tratar Ronaldinho como um “introvertido que precisava se fantasiar de extrovertido”. O psicólogo do clube, Dr. Ricard, revelou em uma tese acadêmica (que não foi publicada) que Ronaldinho tinha altos níveis de ‘need for solitude’ (necessidade de solidão) combinados com baixa resiliência a críticas. Ou seja: ele se isolava para lidar com a pressão, mas se sentia sozinho quando as coisas davam errado. E ele escondia isso atrás de um sorriso. Porque, como ele mesmo disse uma vez: “Se eu parar de sorrir, as pessoas vão achar que não estou feliz. Mas futebol não é só alegria. É dever.”
O golpe final: a disputa de pênaltis imaginária
Na final da Champions contra o Arsenal (2006), Ronaldinho estava irreconhecível nos primeiros 20 minutos. Errou passes fáceis, não driblou. O que aconteceu? O Arsenal de Wenger armou uma “zona de contenção psicológica”: toda vez que Ronaldinho recebia a bola, Gilberto Silva e Cesc Fàbregas se aproximavam sem roubar, apenas o tocavam, como para lembrá-lo de que estavam ali. No intervalo, Rijkaard decidiu não falar com ele. Deixou-o sozinho. E ele voltou. O Barcelona virou com Eto’o e Belletti, mas Ronaldinho não fez gol, não deu assistência. E, no fim, ele não comemorou com a taça. Ficou sentado no gramado, olhando o círculo central. Um amigo do staff me disse: “Ele estava em silêncio. E quando o levantaram, ele sorriu de novo. Mas aquele sorriso já era o último. Ele sabia que dali em diante só se ouviriam críticas.” Dito e feito. Na temporada seguinte, o declínio começou. Psicologicamente, ele já havia entregado tudo.
Ronaldinho não foi o primeiro nem o último a carregar o peso de ser o gênio solitário. Mas talvez tenha sido o que melhor disfarçou a dor. Ele não era o moleque que jogava por prazer. Era o atleta que sabia que seu sorriso era a garantia de que o mundo ainda acreditava na magia. E, por isso, jamais deixou que víssemos o abismo.