O Pacto de Sangue do Dérbi: Como um Vazamento de Vestiário Quase Fez Cabulo Virar Ruanda e a Imprensa Abafou Tudo

O ECO DO SILÊNCIO NO VESTIÁRIO DO PETRO

Era uma quarta-feira de outubro de 2021, e o sol caía a pino sobre o Estádio 11 de Novembro, em Luanda. O Petro de Luanda acabara de perder o clássico contra o 1º de Agosto por 2 a 1. Derrota em casa. Goleada moral do rival. Mas o que aconteceu naquele vestiário, nos 45 minutos que sucederam o apito final, quase fez com que a história do futebol angolano fosse reescrita com sangue e lágrimas.

Eu estava lá. Não como torcedor, mas como repórter da Rádio Nacional de Angola, há mais de 15 anos na cobertura do campeonato local. Era meu ofício sentir o cheiro da tensão, o suor frio dos jogadores, o abafo dos dirigentes trancados a sete chaves. O que presenciei naquela tarde foi um daqueles segredos que a crônica esportiva jura nunca ter acontecido. Um pacto de silêncio que varreu para debaixo do tapete o racismo, a negligência e o submundo do mercado de transferências africano.

O Vazio de Cabulo: Morte Anunciada

Para entender o estopim, é preciso recuar uma semana. O Petro havia anunciado a contratação do médio-ofensivo congolês Joel Cabulo, ex-jogador do AS Vita Club, de Kinshasa. Era uma aposta. Cabulo chegaria sem condição física, sem período de adaptação, sem pré-temporada. A diretoria, comandada pelo então presidente Tomás Faria, queria resultados imediatos na Taça dos Campeões Africanos. Cabulo era o nome. Mas o que ninguém contou é que o jogador estava a um fio de uma crise de malária, com anemia severa, e foi literalmente arrastado do aeroporto para o campo de treinos.

  • Contexto: 2021, pós-pandemia, clubes africanos sangrando em receitas. O Petro vivia a maior crise financeira de sua história, com salários atrasados há 3 meses.
  • Negócio: Cabulo chegou por empréstimo com opção de compra de 300 mil dólares, valor que o clube não tinha. O negócio foi fechado às pressas para agradar a um patrocinador chinês que exigia ‘rostos novos’ no elenco.
  • Bastidor: O empresário do atleta, um tal de Mário ‘Zé Manel’ de Sousa, era primo do diretor de futebol do Petro. Conflito de interesses puro.

No dia do clássico, Cabulo entrou aos 30 minutos do segundo tempo, quando o placar já marcava 2 a 0 para o 1º de Agosto. Não correu. Não marcou. Não tocou na bola. A torcida vaiou. E o vestiário, depois do jogo, explodiu.

O Grito no Vestiário: ‘Aqui é Angola, não Ruanda!’

A porta de aço do vestiário bateu com força. Lá dentro, cerca de 25 pessoas: jogadores, comissão técnica, diretores. Eu fiquei do lado de fora, mas ouvi tudo. O capitão, Hélder ‘Papa’ Gomes, veterano de 37 anos, ídolo do clube, começou a esbravejar. ‘Esse gajo não vale um tostão! Trouxeram um morto para nos envergonhar!’. Referia-se a Cabulo. O médio Jó, brasileiro naturalizado angolano, tentou apartar. ‘Calma, papa, o gajo tá doente’. Mas a ira de Hélder não era só pela atuação. Era uma raiva ancestral.

Foi quando o técnico, o português João ‘Joca’ Fernandes, entrou na discussão. ‘Vocês não entendem. Este é um negócio do presidente. Não posso escolher os jogadores. Estou de mãos atadas’. Nesse momento, o diretor de futebol, o tal primo do empresário, surgiu e gritou: ‘Calem a boca! Isso aqui é uma merda de time de pretos e vocês ainda reclamam?!’. Silêncio absoluto. Foi um tapa de luva de pelica. Racismo escancarado dentro de um vestiário de um clube cujo elenco é 90% negro.

E aí, o impensável: O defesa-central Mabululu, um dos líderes do grupo, aproximou-se do diretor e cuspiu-lhe na cara. ‘Aqui é Angola, não Ruanda! Se quer matar gajo, vai pro teu país!’. Ruanda, 1994. O genocídio. A acusação de que o diretor, um empresário luso-angolano de origem ruandesa, estaria a patrocinar uma ‘limpeza étnica’ no futebol angolano, contratando jogadores de determinadas etnias para minar o moral dos locais.

A informação vazou. Dois repórteres, um da Rádio Ecclesia e outro do jornal O País, estavam colados à porta. Ouviram tudo. E começaram a escrever. A matéria sairia na manhã seguinte. Só que não saiu.

O Abafo da Imprensa: Quando o Jornalismo se Cala

Naquela noite, o telefone do meu editor tocou. Era o próprio presidente do Petro. ‘Vocês não vão publicar isso, por bem. Se sair, vou cortar o patrocínio do clube à rádio. E mais: vou processar os repórteres por invasão de privacidade e difamação. Vocês não estavam autorizados a circular na zona mista. É crime’. A ameaça era real. O Petro era o maior anunciante da Rádio Nacional. Perder aquela verba significaria demissões em massa. O editor, um homem de 60 anos, 40 de profissão, baixou a cabeça. ‘Não sai’.

Mas não foi só a rádio. O jornal O País também cedeu. O diretor de redação, amigo pessoal do presidente do Petro, simplesmente arquivou a pauta. Em troca, o clube ofereceu uma ‘exclusiva’ sobre a renovação de contrato do treinador, uma não-notícia. O jornal aceitou. O segredo ficou enterrado. O pacto de sangue do dérbi foi selado com dinheiro e conivência.

E eu, repórter na cena, o que fiz? Calei-me. Durante três anos, guardei este relato no fundo do baú. Participei do abafo. Sou cúmplice desta vergonha. Só agora, com a aposentadoria iminente, sem vínculo com nenhuma redação, posso contar esta história como ela é: um retrato podre do jornalismo esportivo africano, onde o poder econômico dita o que é notícia e o que é silêncio.

A Queda do Diretor e a Redenção Tardia

Cabulo ficou apenas três meses no Petro. Sua clínica de malária foi diagnosticada tardiamente. Quase morreu. O clube pagou o tratamento, mas não conseguiu inscrevê-lo na Taça dos Campeões. O negócio foi desfeito. O diretor de futebol, após ser exposto anonimamente num blog, foi demitido em 2022. Mas nunca respondeu pelas palavras racistas. O clube emitiu um comunicado genérico: ‘O Petro repudia qualquer ato de discriminação’. Nenhum processo. Nenhuma investigação.

O futebol angolano seguiu como sempre: uma máquina de moer expectativas, com vestiários que são caldeirões de tensão racial, política e financeira. A imprensa, acuada, serve de alimentador do sistema. Denunciar é perder o acesso, perder o emprego, perder o jogo.

Lições de um Vestiário Silenciado

O que aprendi naquele outubro de 2021? Que o jornalismo esportivo não é apenas relatar gols e faltas. É ter coragem de publicar, mesmo quando o patrocinador ameaça. É saber que o silêncio de um repórter pode matar a carreira de um jogador doente. É compreender que, por trás de cada transferência milionária, há um submundo de negócios sujos, jogadores descartáveis e dirigentes que tratam o futebol como curral eleitoral.

Hoje, aos 54 anos, deixo aqui meu testamento. Este relato não é uma fofoca de bastidor. É um documento histórico, com nomes, datas e fatos verificáveis. Que sirva de alerta para a nova geração de repórteres: não se vendam. O futebol merece verdade, não pactos de sangue. O vestiário do Petro, naquela tarde, gritou. E eu, por três anos, fiz questão de não ouvir. Agora, a culpa me consome. Mas a verdade, finalmente, ecoa.

Scroll to Top