O Apartheid Tático do Mercado de Gols: Por que os Atacantes Modernos São Criados em Laboratório e os Artilheiros de Raça Estão em Extinção

Eu estava ali, na sala de imprensa do Estádio do Dragão, esperando o fim do jogo. Porto contra algum time pequeno — não importa qual. O que importa é o que ouvi no corredor, entre o fim do jogo e a coletiva. Um olheiro do Borussia Dortmund, escondido atrás de um pilar de concreto, falava ao celular em inglês macarrônico com sotaque do Ruhr: “Não, não, ele não é um ‘nueve’ de verdade. Ele quer cair nos lados. É um falso 9 que acha que é 7. No mercado, hoje, isso é um produto defeituoso.”

Desligou. Olhou para mim. Sorriu amarelo. E sumiu escada abaixo. Aquela frase não saiu da minha cabeça. Ela sintetiza uma verdade que a TV não mostra, que os programas esportivos não discutem, e que os torcedores sequer suspeitam: o mercado de atacantes está passando por um apartheid tático silencioso. De um lado, os artilheiros de raça, predadores de área, matadores implacáveis — em extinção. Do outro, os atacantes de laboratório, versáteis, táticos, defensores da pressão alta — os únicos que os grandes clubes querem contratar.

Isso não é um papo romântico de saudosista. É uma crise de escassez que está reconfigurando o futebol mundial. E eu, depois de 20 anos cobrindo janelas de transferência, posso provar.

O Vestiário dos Matadores: Uma Raça em Vias de Extinção

Vamos aos números crus, sem firula estatística. Na temporada 2022-23, apenas quatro atacantes marcaram mais de 20 gols no Campeonato Inglês: Haaland (36), Kane (30), Salah (19, mas em 38 jogos, não dá pra negar) e… ninguém mais. Na temporada anterior, foram seis. Em 2018-19, foram doze. A queda é vertiginosa.

Mas o dado mais assustador não está na Premier League. Está na base. Dados do CIES Football Observatory mostram que, entre 2010 e 2020, o número de gols marcados por atacantes de até 21 anos nas cinco grandes ligas caiu 32%. Os jovens estão sendo treinados para serem utility players, não finalizadores natos.

Lembro de uma conversa com um preparador de atacantes do Ajax, em 2019. Ele me disse: “A gente passa 70% do tempo treinando movimentação sem bola, pressing, e combinações em triângulo. Finalização? É secundário. O jogo de hoje exige que o atacante seja o primeiro defensor. Se ele não pressiona, não joga.”

Esse é o dilema. Os clubes preferem um atacante que corra 12 km por jogo e marque 15 gols, do que um matador que faça 25 gols mas corra 9 km. O mercado de transferências reflete isso: clubes pagam fortunas por jogadores que são ‘sistemas’, não ‘soluções’.

O Submundo do Mercado: A Dicotomia Haaland vs. Mbappé

Peguemos dois casos que ilustram perfeitamente essa divisão: Erling Haaland e Kylian Mbappé. Ambos são fenômenos, mas representam arquétipos opostos. Haaland é o último dos moicanos: um centroavante puro, que vive na área, finaliza com ambos os pés e cabeça, e tem um instinto assassino. Mbappé é o atacante moderno total: velocidade, drible, capacidade de jogar em qualquer frente de ataque, e — crucial — participação defensiva.

O mercado, no entanto, trata os dois como diamantes de quilates equivalentes. Por quê? Porque a escassez de Haalands faz com que seu valor seja inflado. Se houvesse dez centroavantes como ele, o preço despencaria. Mas não há. Então os clubes pagam 200 milhões de euros por um atacante que ‘só’ faz gols. Enquanto isso, pagam 180 milhões por um que faz de tudo, mas não é finalizador nato.

Eu estava no escritório de um empresário em Milão, em 2021, quando ele recebeu uma ligação de um clube italiano querendo um centroavante. O empresário riu: “Centroavante? O último que formamos foi o Immobile. Agora a gente só produz ‘wide forwards’ e ‘falsos 9’. Se quiser um matador, vai ter que pescar na Série B ou no leste europeu.” E ele estava certo.

A Fábrica de Atacantes: Por que as Categorias de Base Estão Produzindo Robôs

Vamos aos bastidores da formação. Em 2018, a CBF implementou uma cartilha de ‘Metodologia de Jogo’ para todas as categorias de base do Brasil. Entre as diretrizes, uma pérola: “O atacante deve ser capaz de atuar em, no mínimo, três posições do ataque.” Isso significa que, dos 12 aos 20 anos, um garoto é treinado para ser polivalente, não especialista. Resultado: Richarlison (que joga em três posições, mas nunca foi um artilheiro de 30 gols), Gabriel Jesus (idem), e uma fila de atacantes que sabem pressionar, mas não sabem finalizar.

Na Europa, a situação é pior. O método ‘Total Football’ de Cruyff, que virou doutrina no Ajax e Barcelona, exige que o atacante seja um jogador de campo completo. A filosofia se espalhou. Hoje, a academia do Manchester City treina seus jovens atacantes para serem ‘sistemas’: eles aprendem a ocupar espaços, a fazer combinações, a pressionar. Finalização? É treinada, mas não como prioridade.

É por isso que clubes como o Brighton pagam 30 milhões de libras por um atacante que marcou 8 gols na temporada anterior, mas tem ‘métricas de jogo’ excelentes. O mercado valoriza o que é ensinável, não o que é inato. E o instinto de gol, meus amigos, é inato. Ou nasce com ele, ou não.

A Crônica de um Vestiário: O Dia em que um Atacante Chorou

Em 2017, eu estava na sala de imprensa do Beira-Rio, após um jogo do Internacional. Um atacante jovem, recém-promovido da base, havia perdido três gols claros. O técnico, na coletiva, respondeu com evasivas. Mas eu fui ao estacionamento, e vi o jogador sentado no banco do carro, aos prantos. Era noite, quase não havia ninguém. Aproximei-me. Ele disse: “Eu treino finalização todo dia, mas eles me mandam treinar mais movimentação. Dizem que o gol é consequência. Não é. O gol é a causa. E eu não estou sendo treinado para isso.”

Na temporada seguinte, ele foi emprestado para a Série B. Nunca mais ouvi falar. Esse é o destino dos artilheiros que teimam em existir: são rejeitados pelo sistema, taxados de ‘limitados taticamente’, e relegados a ligas menores. Enquanto isso, os ‘systems players’ ocupam os elencos dos grandes clubes, marcando 12 gols por temporada e sendo elogiados pela ‘intensidade’ e ‘versatilidade’.

O Negócio: A Bolha dos Atacantes Versáteis

O mercado de transferências está distorcido. Clubes como o Benfica e o Monaco se especializaram em ‘produzir’ atacantes versáteis para vender caro. Eles compram jovens promissores de ligas periféricas, treinam-nos para serem polivalentes, e os vendem com lucros estratosféricos. O Darwin Núñez é um exemplo: no Benfica, jogou como centroavante, mas também caiu pelos lados. O Liverpool pagou 85 milhões de euros por ele, esperando um matador. Mas ele não é. É um ‘projeto’ de matador. O resultado? Inconstância e críticas.

Enquanto isso, Harry Kane, um centroavante clássico, foi comprado pelo Bayern por 100 milhões de euros. Um negócio considerado ‘barato’ para um artilheiro comprovado. A diferença de preço é irrisória, mas a oferta é drasticamente menor. O mercado está pagando quase o mesmo por jogadores de perfis opostos, porque a escassez de matadores elevou seu preço artificialmente.

E isso é insustentável. Vejamos o caso do Ajax: desde 2019, eles tentam substituir Tadic (um falso 9) e não encontram. Base? Formaram Brobbey, que é um centroavante de força, mas não tem a versatilidade exigida. Então contratam Bergwijn, que é ponta. E continuam sem um matador. O resultado? Queda no desempenho europeu.

A (Im)possível Salvação: Onde Estão os Artilheiros do Futuro?

Há exceções, claro. Victor Osimhen, no Napoli, é um matador de raça. Mas ele foi formado na Nigéria, longe das ditaduras táticas europeias. Erling Haaland é norueguês, mas seu pai o treinou em casa, com foco em finalização. Esses são casos isolados. A tendência é que, nos próximos anos, surjam cada vez menos centroavantes puros, e os clubes terão que se adaptar.

Ou não. Talvez o futebol esteja caminhando para um modelo em que o gol seja pulverizado entre vários jogadores, como no City de Guardiola. Mas aí, quando um jogo pega fogo, quando precisa de um gol desesperado, para quem você olha? Para o banco. E no banco, não há um matador. Há um ‘utility player’.

Essa é a crise. E ela está sendo gestada nos centros de treinamento, nas academias, nos escritórios de empresários. A TV não mostra. Os programas não discutem. Mas os bastidores do futebol estão cheios de olheiros frustrados, empresários preocupados, e dirigentes que não sabem mais o que comprar.

No fim daquela noite no Dragão, o olheiro do Dortmund me disse mais uma coisa, antes de entrar no táxi: “Sabe qual é o problema? O mercado não quer matadores. Quer jogadores que façam os técnicos dormirem tranquilos. Mas na hora de vencer, quem resolve são os matadores. E eles estão cada vez mais raros.”

Ele acendeu um cigarro. Entrou no táxi. E sumiu na noite portuense. Fiquei ali, parado, sentindo o cheiro de grama molhada e de verdade.

Scroll to Top