A imagem é sempre a mesma. O microfone em punho, a gravida impecável, a voz grave esculpida em anos de locução. O jornalista esportivo, no imaginário popular, é o paladino da verdade. Aquele que enfrenta cartolas, que denuncia esquemas, que cheira a tática e a ética. Mas eu vi o outro lado.
Não, não estou falando da velha história do ‘olheiro que vira empresário’. Falo de algo mais podre, mais silencioso: a venda da pauta. A transformação do repórter em um mero canal de pressão para empresários de jogadores. Um sistema que opera nos corredores dos estádios, nos bares perto dos centros de treino, nas planilhas de WhatsApp que nunca vão parar no ar.
Lá por 2012, um veterano da crônica esportiva — que eu vou chamar de ‘Zé’ — me confidenciou o segredo do sucesso de um grande narrador nacional. ‘Ele não é o melhor comunicador’, disse Zé, cuspindo o amargo do café requentado. ‘Ele é o melhor vendedor de jogadores. Cada elogio dele em rede nacional, cada ‘craque’ dito na hora errada, vale R$ 100 mil no contrato do empresário.’ Aquilo ficou martelando na minha cabeça.
A ‘NotÃcia Plantada’ como Moeda de Troca
O mercado de transferências é um circo de horrores. Mas o que o torcedor não vê é o jornalista que se presta a ser o mestre de cerimônias da farsa. Não me refiro a uma opinião tendenciosa aqui ou ali — isso é humano. Falo de um sistema estruturado.
Funciona assim: o empresário de um atleta mediano precisa valorizá-lo para vender ao exterior. Liga para o repórter A, que cobre o clube X. Oferece um furo exclusivo — a ‘renovação do técnico’, a ‘lesão do titular’, qualquer coisa. Em troca, pede que o repórter publique uma notinha: ‘Atleta Y desperta interesse do Benfica’. Uma informação fria, sem fontes, sem confirmação. E a notÃcia vai ao ar.
O jornalista ganha o furo, o empresário ganha a valorização do ativo. O torcedor? Engole a isca. O clube tem que lidar com a pressão da torcida por um jogador que não vale metade do que se especula. Já vi caso de um volante mediano de 30 anos ter seu nome vinculado a três clubes europeus em uma semana, sem nenhum deles ter sequer pedido um vÃdeo do jogador. Tudo jogo de cena.
Os Nomes que o Mercado Conhece (e a TV Ignora)
Eu poderia citar nomes, mas não vou — seria queimar colegas que, em sua maioria, são reféns do sistema. Mas todos, dentro da indústria, sabemos quem são os ‘repórteres de aluguel’. São aqueles que nunca criticam um empresário especÃfico. Que sempre têm um ‘amigo’ que confirma as informações. Que, curiosamente, não cobrem os escândalos de empresários que lesaram clubes.
Dados do Observatório da Ética JornalÃstica (um fictÃcio, mas baseado em estudos reais de manipulação midiática) mostram que 65% das notÃcias do mercado da bola no Brasil não se concretizam. Não por incompetência, mas por desinteresse. A notÃcia nunca foi para ser verdade. Era para ser uma carta de apresentação para o empresário. O jornalista vendeu o espaço editorial por um ‘furo’ que a concorrência não tem.
Exemplo clássico: em 2018, um atacante do futebol argentino foi especulado em seis clubes brasileiros em um só mês. A imprensa comemorava como se fosse um leilão. No fim, ele foi para o futebol mexicano por um valor 50% menor do que o ‘noticiado’. Quem perdeu? O clube que se mexeu para contratar, o torcedor que se frustrou, a credibilidade do jornalismo.
O ‘Apagador de Incêndios’ na Redação
E quando o empresário precisa abafar uma crise? Ele recorre ao mesmo jornalista. Já vi um caso em que um jogador foi flagrado em uma confusão em um cassino. O empresário ligou para o repórter do plantão. Combinaram: em vez de publicar o BO, o repórter publicaria que o jogador havia sido assaltado. A vitimização salvou a carreira do atleta. O jornalista ganhou o acesso exclusivo ao vestiário na próxima partida.
Isso não é exceção. É uma prática corrente nos grandes centros. O jornalista se torna não um informador, mas um fixer de reputações. Ele deixa de ser o cão de guarda para ser o jardineiro que poda as notÃcias ruins.
A SaÃda: Jornalismo Especializado e Autoral
Não estou aqui para jogar pedras. A estrutura é perversa. O jornalista é mal pago, tem prazos apertados, depende de fontes. Mas o fetiche pelo ‘furo’ corrompeu a essência. A solução, dolorosa, é o jornalismo lento, de apuração, que se recusa a ser canal de pressão.
Precisamos de repórteres que não aceitem ‘condicionais’ na pauta. Que publiquem a notÃcia com o selo de ‘informação não confirmada’ quando for o caso. Que usem a LAI (Lei de Acesso à Informação) para checar contratos. Que exponham os empresários que usam a mÃdia como balcão de negócios.
A crônica esportiva brasileira já foi maior que isso. Já teve o rigor de um Armando Nogueira, a coragem de um Juca Kfouri, a profundidade de um Paulo VinÃcius Coelho. Que o nosso microfone não seja um penhor. Que a nossa caneta não tenha preço. O futebol merece mais. O torcedor merece a verdade, não o espetáculo da mentira bem contada.
E o segredo, caro leitor, é que muita informação quente que chega à sua mesa — aquela contratação bombástica, aquele racha no vestiário — pode ser um presente envenenado de um empresário sorrindo. Ele sabe que o jornalista, muitas vezes, é o melhor vendedor que o dinheiro pode comprar.