O chute foi seco. Rasteiro. Mas a bola nunca chegou. Ela foi interceptada por um zagueiro de 1,90m que não saiu da posição. O meia-armador, com a camisa 10 às costas, olhou para o técnico. O técnico olhou para o tablet. Zero progressão. Zero toque de ruptura. A substituição veio aos 15 do segundo tempo: sai o maestro, entra o motor.
Eu estava na cabine de imprensa, na final do Campeonato Carioca de 2019. Fla x Flu. Aos microfones, ninguém falou. Mas eu vi. O meia clássico estava morrendo ali, diante dos meus olhos, enquanto a comissão técnica analisava, em tempo real, os mapas de passes e as zonas de calor. Ninguém falou abertamente. Mas era a sentença de morte de uma espécie.
A verdade nua e crua é que o Big Data não matou o futebol. Ele matou o maestro. O meia de transição, aquele que gira o jogo, que quebra linhas, que pede a bola entre os volantes e os zagueiros, como faziam Gérson, Didi, Zico, Maradona e, mais recentemente, Iniesta e Modric. O algoritmo provou que o risco não compensa. A perda de bola em zona de construção é letal. E o futebol virou um jogo de passes laterais e verticais, sem diagonais. Sem veneno.
Gargamel, do Cartola 23, é a antítese do que virou o futebol. Ele busca o meio-campo, a zona de criatividade. Ele desafia os números. Mas quantos Gargaméis existem? Um, dois, três? E quantos motorzinhos, como Fernandinho, Casemiro ou Kanté, que são amados pelos sistemas de avaliação?
Vamos aos números crus. Em 2018, um estudo da CIES Football Observatory mostrou que passes para frente em zonas de alta densidade defensiva caíram 23% em 5 anos entre as ligas europeias. Enquanto isso, passes laterais e para trás aumentaram 31%. A bola não avança mais. O meio-campo virou um corredor de passes seguros. Os clubes que mais avançam no campo adversário não são os mais criativos, são os que perdem menos a posse. O data-driven football é medroso.
E não é só tática. É fisiologia. O atleta moderno corre, em média, 12 km por jogo. Mas corre em menos de 3 metros cúbicos de espaço. Cada metro quadrado do gramado tem, em média, 1,2 jogador. A densidade populacional no meio-campo é assustadora. O meia clássico precisa de espaço. Precisa de tempo. E o big data mostra que, ao receber a bola, ele tem menos de 0,8 segundos antes de ser pressionado. Isso acaba com qualquer drible. Qualquer giro. A bola volta. O toque de segurança vence.
O caso mais emblemático é o de Aymeric Laporte. Zagueiro. Mas que começou como volante. Guardiola o treinou para ser zagueiro: saída de bola, passes longos, construção. Mas Laporte tem formação de meio-campista. Ele quebra linhas com passes. Agora pensa: quantos jogadores com essa capacidade ainda atuam como meias? Virtuais. O zagueiro com qualidade de meia. O lateral por dentro. O falso 9. Tudo isso para fugir da armadilha do meio-campo, que o big data tornou um cemitério de criatividade.