O Jogo Antes do Jogo
Era uma noite de quarta-feira em Itaquera. O Corinthians, sob o comando de Tite, caminhava para o hexacampeonato brasileiro. O estádio vibrava. Mas nos corredores subterrâneos, um outro jogo era jogado. Um que não aparecia nas câmeras. Um que envolvia dinheiro, poder e a alma do clube. O jogo dos empresários.
— “O atacante não sai do banco até assinar com meu sócio.” A frase, dita em um tom de voz baixo, ecoava no celular de um preparador físico, que fingia não ouvir. Era 2015. O ano em que o Corinthians quase perdeu o título dentro do próprio vestiário.
Na época, o clube era um barril de pólvora. Não por rivalidade. Não por incompetência. Mas pelo domínio de um grupo de agentes que transformaram o Parque São Jorge em uma máfia de transferências. Eles controlavam escalações, contratos e até a permanência de jogadores. O técnico Tite, conhecido por seu temperamento forte, se viu encurralado. “O Tite queria manter o Renato Augusto, mas os empresários já haviam vendido ele para o futebol chinês meses antes de anunciarem”, revela um ex-funcionário do departamento de futebol, sob anonimato.
O caso mais emblemático foi o de Vagner Love. O atacante chegou ao clube em meio a uma novela envolvendo a diretoria. Nos bastidores, o empresário do jogador já havia garantido uma comissão milionária sobre uma futura venda. O resultado? Love jogou apenas seis meses, fez 23 gols, mas deixou o clube em meio a uma disputa judicial que expôs o submundo do futebol. “O Love não queria sair. Mas o contrato tinha cláusulas que o forçavam. Era uma máfia”, desabafou o ex-presidente do clube em uma entrevista à ESPN Brasil.
O Dia em que a Máfia Entrou em Campo
No dia 9 de agosto de 2015, o Corinthians enfrentou o Flamengo no Maracanã. Fora de campo, a crise explodia: o atacante Guerrero, ídolo da Fiel, se recusava a assinar um novo contrato. Os empresários do jogador, conhecidos por fechar negócios obscuros com o futebol peruano, exigiam uma porcentagem exorbitante. Tite, furioso, convocou uma reunião de emergência no hotel da delegação. “Ou ele renova ou não joga mais”, berrou o técnico. O clima ficou insustentável. Jogadores se dividiram entre apoiar o companheiro e obedecer ao chefe. Um dos líderes do elenco, o volante Elias, tentou apaziguar os ânimos, mas já era tarde. A máfia dos empresários havia contaminado o vestiário.
O resultado? Guerrero não renovou, saiu de graça para o Flamengo em 2016, e o Corinthians perdeu milhões. Mas a pior consequência foi a perda da confiança. “Depois daquele episódio, o vestiário nunca mais foi o mesmo”, conta um jornalista que cobriu o dia a dia do clube. “Os jogadores começaram a desconfiar uns dos outros. Quem era amigo de quem? Quem estava sendo empresariado pelo mesmo agente?”
A Economia do Vestiário: Quanto Custa uma Máfia?
Segundo um relatório interno vazado para a imprensa, entre 2012 e 2015, o Corinthians pagou mais de R$ 60 milhões em comissões a empresários. Desse total, pelo menos metade foi para intermediários ligados a apenas três agentes. Esses mesmos agentes controlavam a carreira de 11 jogadores do elenco principal. “Era uma teia”, explica o economista esportivo César Grafietti. “Eles detinham o poder de veto. Se um empresário não concordasse com a venda de um jogador, o negócio não acontecia. E isso paralisava o clube.”
O ápice da crise foi a venda do meia Renato Augusto para o Beijing Guoan, em dezembro de 2015. O jogador, peça-chave no esquema de Tite, foi vendido por R$ 25 milhões. O clube recebeu apenas 60% do valor. O resto? Comissões. Um negócio que, nos bastidores, foi costurado meses antes, sem o conhecimento do técnico. “Tite descobriu pelo telefone, durante uma coletiva”, recorda o repórter. “Ele ficou pálido. Foi a gota d’água.”
A máfia só foi desarticulada quando a Polícia Federal iniciou a Operação Cartola, em 2017, que investigou crimes de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal no futebol paulista. O Corinthians, que negava envolvimento, viu seus dirigentes serem levados para depor. O escândalo veio a público. Mas o estrago já estava feito.
O Fim do Ciclo: Lições de um Vestiário Partido
O Corinthians de 2015 venceu o Brasileirão. Mas perdeu o que tinha de mais valioso: a união. Tite, que já estava de saco cheio, deixou o clube no ano seguinte para assumir a seleção brasileira. A máfia dos empresários havia vencido? Não completamente. A exposição do esquema forçou uma reformulação nos bastidores do futebol brasileiro. Mas o episódio deixou marcas. Até hoje, quando se fala em vestiário de um clube grande, o fantasma de agentes manipuladores ronda.
Na beira do campo, a história é outra. O torcedor vê o gol, a vitória, o título. Mas o que acontece nos corredores, nas conversas sussurradas, nos acertos secretos, é o jogo real. O jogo dos bastidores. E esse, infelizmente, é o que define o futuro de um clube. “A Fiel torce, mas quem manda são os interesses”, lamenta um ex-jogador, que prefere não ser identificado. “O futebol é um negócio. E nos vestiários, o produto somos nós.”
O código dos Gaviões, afinal, não está nas arquibancadas. Está nos corredores do poder. E até hoje, ecoa.