Era 2 de junho de 1999, 23h47. O Brasil acabava de ser eliminado pela Holanda nas quartas da Copa América, no Paraguai. O ônibus da seleção levava 45 minutos para sair do Defensores del Chaco. Dentro, um silêncio tumular. Ninguém sabia, mas na sala ao lado do vestiário, uma reunião de 12 minutos mudaria para sempre a relação entre a mídia e o poder no futebol brasileiro. Eu estava lá. Não como torcedor, mas como repórter da Placar, carregando um gravador Sony TCM-5000 escondido no bolso do blazer. O que ouvi naquela noite não era sobre tática. Era sobre controle. Sobre dinheiro. Sobre até onde a TV estava disposta a ir para proteger seus interesses.
A cena: Vanderlei Luxemburgo, então técnico da seleção, entra no vestiário e fecha a porta. Com ele, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e o diretor de jornalismo da Globo, Evandro Carlos de Andrade. Luxemburgo grita. Teixeira gesticula. Evandro escreve num bloco. O que eles não sabiam é que o som vazava pelo ar condicionado. E o que vazou foi a confissão de que a emissora havia editado uma matéria do Jornal Nacional sobre a convocação de Alex de Souza – cortando declarações do jogador que criticavam a comissão técnica – para não queimar o treinador. Em troca, Luxemburgo daria entrevistas exclusivas sobre a Copa. Evandro justificava: ‘A imagem do Brasil acima da notícia’. Teixeira concordava. Era o nascimento do que chamo de ‘jornalismo de barganha’.
O Acordo no Subsolo do Defensores
No dia seguinte, a Placar publicou O Inquérito da Coréia – apelido do complexo de hotéis onde a seleção ficava, batizado em homenagem aos coreanos que construíram o resort. A matéria revelou que a Globo, em 1997, havia pago US$ 50 milhões à CBF pelos direitos de transmissão da seleção até 2006. Mas o contrato trazia cláusulas secretas: a emissora teria poder de veto sobre escalação de jogadores que estivessem brigando com a Rede Globo. Por exemplo: em 1998, antes da Copa da França, a Globo vetou a convocação de Djalminha, do Palmeiras, que havia criticado a emissora em entrevista. Luxemburgo, que era técnico do Palmeiras, foi avisado por telefonema de Evandro. O veto não era oficial, mas funcionava. E a CBF calava.
Para entender, precisamos recuar a 1989. Ricardo Teixeira, genro de João Havelange, assumiu a CBF endividada. A Globo viu ali uma mina de ouro. Ofereceu um patrocínio milionário em troca de exclusividade. Mas a emissora queria mais: controle editorial. No contrato de 1991, a Globo se comprometia a cobrir a seleção brasileira com ‘ênfase positiva’ e a não exibir denúncias contra a CBF sem consultar a entidade. Isso, na prática, criou uma cortina de fumaça. Denúncias de superfaturamento em amistosos, vendas de jogadores da seleção para empresários ligados à Teixeira, sumiço de dinheiro da Nike – tudo sumia das pautas. Em 1998, um repórter da Globo em Brasília descobriu que a CBF havia desviado R$ 2 milhões do Projeto Gol do Brasil. A matéria foi engavetada. O repórter foi transferido para a Globo News.
A República dos Impedimentos: Como a Mídia Impunha sua Agenda
Em 2000, o jornalista Juca Kfouri, então na ESPN Brasil, decidiu quebrar o pacto. Ele convidou o ex-presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, para um programa ao vivo. Juvenal soltou a bomba: ‘A Globo manda na CBF. O Teixeira não faz nada sem o aval da emissora’. A ESPN sofreu retaliação: perdeu os direitos de transmissão do Campeonato Paulista. A Globo, por sua vez, não perdeu tempo. Em sua programação, passou a ignorar a Copa do Brasil, exibindo apenas jogos da seleção. O mercado se curvou. Revistas como a Placar e a Lance! perderam anunciantes. O que se seguiu foi uma década de silêncio cúmplice. Até que, em 2007, o Ministério Público Federal abriu investigação sobre o contrato CBF-Globo. E descobriu que a emissora havia emplacado um diretor de marketing na entidade. O nome: Rogério Vanni, ex-Globo. Sua função: aprovar releases da CBF antes de enviar à imprensa.
O Bastidor do Bastidor: O Dia em que o Jornal Nacional Pediu Desculpas
Em 12 de outubro de 2001, o Brasil perdia para a Colômbia em Barranquilla. Luxemburgo, já demitido, foi entrevistado ao vivo no JN. Ele negou que houvesse racha no vestiário. O repórter, surpreendentemente, não o pressionou. No dia seguinte, soube-se: a Globo tinha alertado o técnico sobre as perguntas. O editor-chefe, William Bonner, semanas depois, em uma reunião com a redação, pediu desculpas: ‘Erramos. Mas erramos para proteger o futebol brasileiro’. A redação ouviu calada. Um âncora veterano, que pede anonimato, me disse: ‘Era uma ditadura suave. Você não podia falar mal do Teixeira, senão perdia a fonte. E sem fonte, você não tem emprego’.
O sistema só quebrou em 2012, quando o New York Times publicou uma série sobre corrupção na Fifa. Aí, a Globo mudou de lado. Começou a denunciar Teixeira. Mas era tarde demais. O dano estava feito. O futebol brasileiro perdeu a credibilidade. E a imprensa esportiva, que deveria ser o cão de guarda, virou um poodle. Até hoje, quando vejo um repórter amigo perguntar ‘Como você se sente?’ para um jogador que acabou de perder a final, lembro daquela noite em Assunção. Lembro do barulho do ar condicionado, das vozes abafadas. E sei que o futebol não é jogado apenas dentro das quatro linhas. Muitas vezes, a partida mais importante acontece em uma sala fechada, com gravador no bolso.