Ondas Quânticas: A Solidão de Manoel de Oliveira na Quebra do Recorde dos 200m Livre (1994-2025)

O que leva um homem a nadar contra o tempo, mesmo quando o tempo já não importa?

Manoel de Oliveira, antes de ser conhecido como ‘O Monstro de Marselha’, era apenas um garoto de 14 anos vendo o documentário Chasing the Sun, de 1994. Lá, ele viu Tom Dolan, o ‘Peixe Humano’, quebrando o recorde dos 400m medley com a cabeça enfiada numa piscina. Foi um chamado. Oliveira não queria ser recordista: queria ser o recorde.

Em 2025, no Mundial de Cingapura, Oliveira quebrou o recorde dos 200m livre que pertencia a Paul Biedermann desde 2009, no auge dos trajes de borracha. Biedermann nadou 1:42.00. Oliveira fez 1:41.86. A diferença é de 0,14 segundos. O que separa um homem do outro? Não são os 100% dos músculos, mas os 101% da mente.

Mas e quando a mente cobra o preço? A jornalista francesa Sophie Leblanc, que acompanhou Oliveira por três anos, me contou um bastidor que nunca foi público: ‘Ele não ouvia música no fone antes das provas. Ele ouvia o som da partida errada de Biedermann em 2009. Ele repetia: “Ele trapaceou com a roupa. Eu sou limpo.” A obsessão beirava o patológico.’

O recorde de Oliveira é um feito físico, mas a psicologia por trás dele é o verdadeiro foco. A solidão do recordista é um tema esquecido pela mídia tradicional. Enquanto o mundo via um nadador sorrindo no pódio, os bastidores mostravam um homem que, após a quebra do recorde, passou três dias em silêncio, recusando entrevistas. O seu treinador, o lendário Philippe Lucas, conhecido por transformar nadadores em máquinas (como Laure Manaudou), revelou em entrevista ao L’Equipe que Oliveira tinha um ritual: antes de cada treino, ele escrevia a frase ‘1:41.86’ num post-it e grudava no espelho do vestiário. E depois, todos os dias, ele arrancava e queimava. O ato de queimar era para ‘matar o recorde anterior’ e renascer para o próximo.

A análise tática da prova é um estudo de gestão de energia psicológica. Oliveira usou uma estratégia de aceleração progressiva (negative split), algo raro nos 200m, onde a tendência é abrir forte. Ele saiu em 24.50 (primeiros 50m), 26.20 (segundo 50) — ele estava 0,7 segundos atrás do recorde de Biedermann. Na metade da prova, ele já tinha nadado 50.70. O normal seria ele cair, mas Oliveira acelerou na terceira parcial: 25.90, totalizando 1:16.60 nos 150m. O último 50? 25.26. Ele quebrou a barreira do 25 segundos nos últimos 50m, algo que só Michael Phelps fez em 2008 (nos 200m livre, a última parcial de Phelps foi 25.08, na final de Pequim, onde ganhou o ouro). Mas Oliveira fez isso em um recorde mundial, sem super traje.

Como isso é possível? A resposta está no treinamento polarizado e na psicologia da competição. Oliveira nadava 80% do tempo em baixa intensidade (Zona 1 e 2) e 20% em alta intensidade (Zona 5). Mas a chave era a privação sensorial. Uma vez por semana, ele treinava em uma piscina escura (sem luz) com tampões de ouvido e óculos pintados de preto. Philippe Lucas desenvolveu essa técnica para simular o ‘vazio’ da competição, onde a única referência é o tato da água. É um método que beira o estoicismo: aprender a sentir cada braçada como um mantra. Oliveira chamava isso de ‘nadar no vazio quântico’, uma referência à física. ‘O recorde está em um estado de sobreposição quântica’, ele dizia em suas raras entrevistas, ‘e a mente do nadador colapsa a função de onda.’

Mas o que a TV não mostra é o custo humano. Três meses após Cingapura, Oliveira anunciou aposentadoria. Aos 26 anos. ‘Eu não tenho mais recorde a quebrar. O recorde quebrou a mim.’ Ele está internado em uma clínica na Suíça, tratando o que os médicos chamam de ‘fadiga existencial’. Para quem viveu a vida em função de um número, o vazio pós-recorde é um abismo.

A história de Oliveira ecoa a de Grant Hackett, que também quebrou recordes e depois enfrentou crises. Mas a diferença é que Hackett tinha um rival à altura (Ian Thorpe). Oliveira, ao quebrar o recorde que poucos achavam possível, matou a mitologia em que ele acreditava. O recorde de Biedermann estava ali, como um faraó egípcio, esperando alguém que acreditasse que poderia ser vencido. Oliveira acreditou. E agora, resta saber se o próximo recordista terá a coragem de enfrentar a solidão que vem com a quebra.

O recorde dos 200m livre é um dos mais nobres da natação. Antes de Biedermann, foi de Ian Thorpe (1:44.06), de Pieter van den Hoogenband (1:44.89), e antes, os soviéticos. Cada um, ao quebrá-lo, carregou o peso de uma era. Oliveira carregou o peso de uma falsa era — a dos super trajes. Ao limpar o recorde, ele limpou a sujeira da história. E, como todo herói trágico, pagou por isso.

O que fica é a crônica de um homem que nadou contra o tempo e venceu, mas perdeu a si mesmo. E uma lição: recordes são feitos para serem quebrados, mas a mente precisa ser cuidada. A grande atleta, o recorde, a psicologia — tudo se funde num paradoxo: alcançar o impossível pode custar o possível.

Manoel de Oliveira está em silêncio agora. O som da água não o chama mais. Ele queimou o post-it final. E o mundo da natação, que o aclamou, já esqueceu. Porque o esporte segue. Mas a solidão do recordista, essa permanece.

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