A noite em que a imprensa matou um mito: quando o Mano a Mano esportivo virou chacina

Era uma noite de quarta-feira, final de outubro. A cidade respirava futebol. Dois clubes, duas torcidas, uma história. Mas ninguém poderia prever o que estava prestes a acontecer. O estádio estava lotado, os olhos grudados no gramado, e eu, sentado na cabine de imprensa, sentia o cheiro de pólvora no ar. Não era o jogo que me preocupava. Era o que vinha depois.

Fecho os olhos e ainda vejo a cena: o cronista esportivo mais respeitado do país, microfone na mão, o rosto vermelho de raiva, apontando para o jogador que havia acabado de perder um pênalti decisivo. ‘Seu incompetente’, ‘vergonha’, ‘não merece vestir essa camisa’. Palavras que viraram manchete, que viralizaram antes mesmo do apito final. O jogador, um garoto de 22 anos, com lágrimas nos olhos, não teve tempo de se defender. A torcida, inflamada, começou a vaiar. Aos poucos, o estádio inteiro virou um coro de ódio.

Mas o pior estava por vir. Na saída, o jogador foi cercado por torcedores. Um deles, um senhor de 45 anos, pai de família, cuspiu em seu rosto. ‘Você é um lixo’, gritou. O garoto, protegido por seguranças, entrou no carro e foi embora. Naquela noite, ele não dormiu. No dia seguinte, os jornais estampavam: ‘Herói vira vilão em noite de fúria’.

O que a imprensa não contou foi que, na véspera, o jogador havia recebido a notícia de que sua mãe estava com câncer. Ele não contou a ninguém. Quis jogar, quis honrar o clube. Mas o peso era grande demais.

Essa história não é uma ficção. Ela se repete em todos os esportes, em todos os cantos do mundo. O ‘mano a mano’ esportivo, aquela rivalidade que vende ingresso, que alimenta programas de debate, que transforma atletas em deuses e demônios, é uma máquina de moer carne. E a imprensa, muitas vezes, é a operadora da máquina.

Eu sei, porque estive lá. Já fui o jornalista que escolheu o lado mais polêmico, que escreveu a manchete mais ácida, que construiu o herói e depois o derrubou. É fácil. O público ama o drama. Mas o que acontece quando o drama vira tragédia real? Quando o jogador, exaurido pela pressão, decide se aposentar precocemente? Quando o técnico, massacrado pela crítica, abandona a profissão? Quando o jovem talento, humilhado publicamente, desiste de sonhar?

Em 2022, um estudo da Universidade de São Paulo mostrou que 78% dos atletas de alto rendimento já sofreram algum tipo de agressão verbal ou psicológica por parte da imprensa. 45% afirmaram que isso afetou seu desempenho. 12% disseram que pensaram em desistir do esporte. Números que assustam, mas que não surpreendem quem vive o dia a dia dos vestiários.

Lembro de uma conversa com um veterano técnico de basquete. ‘A imprensa não entende o que é estar aqui dentro’, ele me disse, enquanto preparava o time para um jogo decisivo. ‘Eles criam narrativas, transformam jogadores em personagens, mas esquecem que são pessoas. Com famílias, medos, dores. Quando um atleta falha, ele já se sente péssimo. Não precisa de um exército digitando que ele é um fracasso’.

O problema não é a crítica. O problema é a falta de empatia, a transformação do erro em entretenimento, a eterna busca pelo ‘furo’ que vai gerar like, clique, ibope. O problema é que a imprensa esportiva, em vez de contextualizar, prefere execrar. Em vez de informar, prefere inflamar.

No dia seguinte àquela noite de outubro, um jornal concorrente publicou uma matéria intitulada ‘A face oculta do herói caído’, onde entrevistava a mãe do jogador. Ela, sem saber que a entrevista seria usada para aumentar o drama, contou sobre a doença. O resultado? Mais exposição, mais dor. O jogador processou o jornal. Mas a imagem já estava manchada.

O esporte é uma metáfora da vida: tem vitórias e derrotas, heróis e vilões. Mas a imprensa esportiva precisa lembrar que não é o juiz, o técnico ou o torcedor. É a ponte entre o que acontece e o que se conta. E quando a ponte se rompe, quem cai é todo mundo.

Eu me arrependo de ter escrito aquela manchete. De ter contribuído para a cultura do linchamento. Hoje, antes de publicar qualquer coisa, pergunto: ‘Isso vai ajudar? Isso vai construir ou destruir?’. Nem sempre acerto, mas tento. E convido você, leitor, a fazer o mesmo. Da próxima vez que vir um atleta sendo massacrado, lembre-se: ele é humano. E a imprensa, também.

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