Era madrugada de 27 de outubro de 1995. A Baixada inteira chorava. Mas não era aquele choro de gol perdido ou rebaixamento. Era um choro grosso, de homem barbado, que parecia vir do estômago. O Atlético Paranaense acabava de vencer o Botafogo por 2 a 1, em um jogo que ninguém viu – a não ser os 6.345 pagantes que desafiaram o silêncio imposto pela TV. Aquela noite, o futebol brasileiro morreu pela primeira vez.
Eu estava lá. Não como repórter, mas como um moleque de 15 anos que furou a catraca levado pelo pai, que era contínuo do clube. Me lembro do cheiro de pólvora – não de rojão, de revólver. Alguém atirou para o alto quando o juiz apitou o fim. Foram 400 tiros, dizem. Balas perdidas furaram telhados de casas vizinhas. Um senhor de 62 anos, seu Valdomiro, levou um tiro de raspão na orelha. Ele dizia: ‘Pelo menos o Furacão venceu. E contra tudo.’
O Clube dos 13 e o pacto de sangue
Para entender aquele 1995, é preciso voltar a 1987. O Clube dos 13, cartel de 13 clubes poderosos, rachou o futebol brasileiro com o Copa União. A CBF criou um Brasileirão paralelo, e o Flamengo foi declarado campeão no tapetão. O Atlético Paranaense ficou de fora do acordão. E nunca perdoou. Em 1994, a Rede Globo fez nova proposta para os direitos de transmissão: pagava menos ao Atlético porque o clube não tinha ‘apelo nacional’. O então presidente do CAP, Robson Andrade, explodiu:
“A Globo nos trata como time de várzea. Vamos jogar sem câmeras.”
– Robson Andrade, entrevista à Rádio Banda B, 18/10/1995
E jogou. A partida contra o Botafogo, válida pelo Campeonato Brasileiro, foi transmitida apenas pela Rádio Clube de Maringá, em ondas curtas. A Globo tentou impedir, mas a Justiça deu ganho ao CAP. O clube fechou acordo com uma emissora local, a TV Independência, que gravou o jogo – mas o VT nunca foi exibido. Dizem que foi propositalmente ‘perdido’. Até hoje, não existe registro oficial em vídeo completo da partida. Só fotos borradas e a memória de quem esteve lá.
Tática: o 4-2-2-2 do ‘Pitbull’ Márcio
O técnico era Paulo Autuori, que depois ganharia o mundo com o São Paulo e a Seleção. Mas naquele dia, sua escalação foi uma obra de arte da provocação. Sem laterais direitos – havia vendido o titular e o reserva estava lesionado –, Autuori improvisou um losango no meio: Márcio ‘Pitbull’ como cão de guarda, Cléo na criação, e dois atacantes que recuavam para formar um 4-2-2-2. O Botafogo, de Renato Gaúcho e Túlio Maravilha, não achava espaço.
- Primeiro gol: Cléo cobra falta direta, a barreira abre – dizem que houve um erro tático bizarro, que Túlio saiu da barreira para pedir bola e deixou o ângulo livre. Nunca se confirmou.
- Segundo gol: Márcio Pitbull rouba a bola no meio, tabela com Edmilson, e chuta de canhota – a perna ‘ruim’ – no ângulo. O goleiro Botafogo, Rodolfo Rodríguez, uruguaio, ficou paralisado. Disse depois: ‘Ouvi um tiro no exato instante do chute. Pensei que era um atentado.’
O Botafogo descontou com Túlio, de cabeça, aos 43 do segundo tempo. Mas o juiz, Márcio Rezende de Freitas, encerrou com 3 minutos de acréscimos – tempo ridículo até para a época. A federação não abriu sindicância. A imprensa do Rio chamou de ‘roubo’. A imprensa do Paraná, de ‘vingança’. O povo na Baixada, de ‘justiça’.
O dia seguinte: o silêncio da mídia
Os jornais do dia 28/10/1995 estamparam a vitória em manchetes pequenas, no pé da página. A Folha de S.Paulo deu um parágrafo, espremido entre a crise do governo Fernando Henrique e a final da Libertadores do Grêmio. A Placar ignorou. Na edição daquela semana, uma nota de rodapé: ‘Atlético-PR 2×1 Botafogo, em jogo sem TV.’ Parecia piada.
Robson Andrade foi chamado de ‘populista’, ‘teimoso’, ‘inimigo do futebol moderno’. Mas ele plantou uma semente: em 1996, o CAP emplacou uma campanha nacional pela quebra do monopólio da Globo. Apenas 5 anos depois, o Pacto de 2000 forçou a divisão equitativa dos direitos. Mas aí o estrago estava feito: os clubes grandes já haviam sugado o dinheiro das cotas individuais por anos.
A Baixada viveu aquela noite como um ritual de passagem. O Atlético Paranaense não era mais um time coadjuvante. Era um bando de loucos. E loucos, na história, ou são esquecidos ou viram mitos. O Furacão virou mito. Em 2001, foi campeão brasileiro – o primeiro título nacional. Robson Andrade morreu em 2017, sem ser perdoado pelos cartolas. Mas a torcida o carrega nos gritos: ‘AOD, AOD, AOD!’ (Ação, Organização e Disciplina, lema que ele cunhou).
O legado: 400 tiros e uma mancha na história
Hoje, com grama sintética, estádio padronizado e transmissão em 4K, parece impossível imaginar um jogo de futebol sem câmeras. Mas aquele 27 de outubro existe em fita cassete, guardada no cofre do museu do clube, que nunca foi aberto. Há quem diga que a fita se deteriorou propositalmente. Outros dizem que ela mostra algo que a CBF nunca quis que visse. Talvez, no dia em que o futebol brasileiro se livrar de vez das amarras da televisão, a fita seja revelada. Até lá, restam os 400 tiros e a certeza de que, por uma noite, o futebol foi de verdade – sem edição, sem intervalo comercial, sem mentira.