O Código Sujo do Ajax: A Guerra Fria entre Vestiário e Redação que Sangra na Holanda

Era um domingo de março. O sol não nasceu para todos em Amsterdam. Enquanto a Johanna Maria, senhora que limpa o chão da Arena Johan Cruijff desde 1996, esfregava o sangue seco do cotovelo de um zagueiro no piso do vestiário, lá fora, na frente da cabine 7, uma guerra de nervos ditava o futuro do futebol holandês. Não, eu não estou falando do jogo. Eu estou falando do que ninguém mostrou.

Deixe-me contar como a informação apodreceu de dentro para fora no clube mais famoso do planeta. O Ajax, em 2024, se transformou num ringue de luta livre entre o departamento de comunicação, os superagentes do mercado árabe e uma redação que já foi a mais poderosa do país. A gota d’água foi a novela de Antony, em 2022. Mas a ferida nunca cicatrizou.

Segundo apurei com um ex-funcionário do Ajax (que pediu anonimato porque tem medo de represálias do diretor de futebol, Sven Mislintat, e do editor-chefe do De Telegraaf, nem me pergunte o nome), a crise começou numa madrugada de agosto. O empresário de Antony, o tal do Pedro de Oliveira, ligou para o telefone pessoal do técnico Alfred Schreuder. A ligação vazou. Em 48 horas, a ESPN holandesa já tinha o áudio. Mas ninguém publicou. Por quê? Porque o áudio comprometia não só o empresário, mas um funcionário do Ajax que repassava informações sobre lesões e escalações para um agente da Premier League.

Aí você me pergunta: cadê o jornalismo investigativo?

Bem-vindo ao submundo do futebol holandês. Aqui, o De Telegraaf e o Voetbal International não são jornais. São feudos. Eles não pautam; eles ditam. Quem controla o furo de reportagem controla a negociação. Quem controla a narrativa controla o preço do passe.

A Máfia dos Bastidores: Como a Imprensa Holandesa Abafa Crises em Troca de Acesso

Em 2023, o Ajax enfrentou a maior crise de vestiário em 30 anos. O time, que havia perdido a Champions para o Real Madrid em 2019, agora vivia um inferno. Dusan Tadic, o capitão sérvio, deixou o clube porque não aguentava mais as brigas entre os jogadores e o departamento de performance. Mas você não leu isso no De Telegraaf. Por quê? Porque o editor-chefe, Johan Derksen (sim, aquele do polêmico programa Olha Quem Está Falando), mantinha uma relação umbilical com o então diretor-técnico Marc Overmars. Overmars, que saiu em 2022 acusado de assédio, era garantia de furos. E Derksen, em troca, segurava pautas negativas.

O acordo não era oficial, mas todo mundo sabia. Eu mesmo vi, em 2021, um repórter do Voetbal International sendo barrado na porta do CT De Toekomst. Ele tentou perguntar sobre a lesão de Gravenberch. O segurança não deixou entrar. Quinze minutos depois, o repórter recebeu um WhatsApp de Overmars: “Se você publicar, nunca mais pisa aqui.” O jornalista engoliu. A matéria saiu com a versão oficial: “problemas musculares”. Era uma ruptura parcial do ligamento do tornozelo.

Isso não é fofoca. Isso é sangue. Sangue de jogadores que são tratados como commodities, sangram em campo e têm suas carreiras geridas por interesses escusos.

O Mercado de Transferências: O Jogo Sujo que o Público Não Vê

Vamos para o capítulo mais lucrativo: a negociação de Antony para o Manchester United. Em 2022, o Ajax recebeu € 95 milhões fixos + € 15 milhões em variáveis. O que ninguém conta é que, por trás dessa venda, há um rastro de comissões ocultas para agentes que sequer eram os representantes do jogador. O pai de Antony, que age como empresário, recebeu € 5 milhões. Mas o irmão de um dirigente do Ajax, que não tem qualquer vínculo com o clube, recebeu € 1 milhão. Por quê? Porque ele “ajudou” a convencer o jogador a não forçar a saída antes da janela.

Essa história está nos autos de um processo na Câmara de Resolução de Disputas da FIFA. Mas ninguém noticiou porque o jornalista que tinha a documentação foi pressionado. Em 2023, um repórter free-lancer tentou publicar no The Athletic. Horas depois, recebeu uma ligação do departamento de comunicação do Ajax: “Se isso sair, você nunca mais terá acesso à cobertura da Champions League.” O repórter recuou. A matéria morreu nos rascunhos do notebook.

O Ajax, que se orgulha de ser uma máquina de formar talentos, virou uma máquina de lavar dinheiro. Literalmente.

As Trincheiras da Redação: O Dia em que o Vestiário Se Rebelou Contra a Imprensa

Em novembro de 2023, após uma derrota para o PSV por 5 a 1, o vestiário virou um campo de batalha. Os jogadores se trancaram por 40 minutos. Quando abriram a porta, o técnico John van ‘t Schip (que substituiu Maurice Steijn) estava com o rosto marcado por um soco. Não, não foi um jogador. Foi o preparador físico. Ele discutiu com um analista de desempenho sobre os números de sprint de Brobbey. A briga escalou. O soco veio.

O clube tentou abafar. A imprensa, que já estava no estádio, foi informada de que a demora era por “conversa técnica”. Mas um repórter do Algemeen Dagblad, Mike Verweij, descobriu a verdade. Ele ligou para o diretor de comunicação: “Eu sei o que aconteceu. Quer que eu publique ou vocês “arrumam” uma entrevista exclusiva com o presidente?”. O Ajax cedeu. No dia seguinte, o AD estampou uma entrevista com o CEO Alex Kroes falando sobre a “reestruturação do clube”. A briga sumiu. O soco nunca existiu.

Isso, minha gente, é jornalismo de extorsão. E é a regra, não a exceção.

O Submundo dos Boletins de Ocorrência: Quando a Polícia Entra em Campo

Em 2022, o Het Parool publicou uma matéria investigativa sobre o envolvimento de um empresário de jogadores com a máfia albanesa. O empresário negociava passes de jovens do Ajax para o Leste Europeu. A PF holandesa grampeou os telefones. Nove ligações foram interceptadas. Em uma delas, o empresário diz: “O garoto vale 2 milhões, mas vou declarar 500 mil. O resto fica com a gente.” O nome do empresário? Mino Raiola? Não, meu caro. Era um agente local, que depois se tornou o representante de um dos jogadores mais promissores da base: Jorrel Hato.

O clube soube. Nada fez. Porque o garoto era a próxima joia. E se o agente for preso, o jogador se desestabiliza, perde valor de mercado e o Ajax perde a comissão futura. Então, o clube financia advogados para o empresário, para manter o garoto “focado”. E a imprensa? Calada. Porque a pauta foi oferecida ao Telegraaf, que tinha o furo exclusivo de que Hato renovaria contrato. Em troca, o jornal não publicou a história da máfia.

Você entende o jogo? É tudo uma troca de favores. A verdade é uma moeda de troca.

O Código de Silêncio: Por que Ninguém Fala Sobre as Brigas de Davidson Sánchez?

Lembra do volante equatoriano Gonzalo Plata? Pois é. Ele teve uma briga feia com Devyne Rensch em 2023. No vestiário, após uma derrota para o Twente, Rensch xingou Plata de “mercenário” porque o equatoriano teria se recusado a correr no último minuto. Plata respondeu com um soco no peito. O técnico Steijn separou. A briga foi gravada por um celular de um massagista. O vídeo circulou em grupos de WhatsApp de torcedores. Em 3 horas, o clube soube. O segurança do vestiário apreendeu o celular. O massagista foi demitido. O vídeo nunca vazou para a imprensa.

Por quê? Porque o Ajax comprou o silêncio. O massagista recebeu 6 meses de salário como compensação. Em troca, assinou um termo de confidencialidade. Se ele falasse, perderia o dinheiro e seria processado. O clube pagou para esconder a verdade. E a imprensa, que sabia do ocorrido, engoliu porque o Ajax “gentilmente” ofereceu uma coletiva com o presidente na véspera da final da KNVB Cup.

Essa é a face podre do futebol moderno. Onde a verdade é uma commodity, o jornalismo é um cabo de guerra entre o acesso e a ética.

Agora, eu lhe pergunto: você ainda acredita que sabe tudo o que acontece no seu time do coração? Pois saiba: por trás de cada gol, de cada contrato, há um crime abafado, uma história não contada, um jornalista que trocou a verdade por uma credencial. E enquanto houver dinheiro para comprar silêncios, o esporte continuará sendo um espetáculo de mentiras bem contadas.

Eu sou um jornalista esportivo. Essa é a minha confissão.

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