Era uma noite de outono na Ilha da Madeira. Vento sul, gramado molhado, arquibancada da Choupana respirando sal e euforia. Fim de jogo: Nacional da Madeira 2 x 3 Porto. Roteiro comum? Só para quem não viu Hulk cobrar aquele pênalti aos 93 minutos. Não era um pênalti qualquer. Era o 74º consecutivo convertido pelo Givanildo em jogos oficiais. Ninguém sabia na hora, nem ele próprio. Mas aquele tiro reto, no canto direito do goleiro Elisson, condenou o feito a um silêncio que dura até hoje.
O Recorde Que o Brasileirão Ignorou
Em dezembro de 2011, Hulk alcançou o recorde mundial de pênaltis consecutivos convertidos em jogos oficiais: 47, superando o sérvio Nenad Milijaš (44). Ele não parou por aí. Embalado, chegou a 51 seguidos. Até que, contra o Peñarol, nas oitavas da Libertadores de 2012, o goleiro Sosa defendeu. Na Choupana, contra o Nacional, era a retomada do recorde: a sequência estava em 11, e elevaria o total para 12, chegando ao 62º da carreira. Mas o que importa não é o número. É o mindset de um homem que, durante 74 cobranças, recusou-se a falhar.
A Ciência por Trás do Tiro
Por que Hulk era tão letal? Força bruta? Sorte? Psicologia pura. Ao contrário de muitos, ele não olhava para o goleiro. Olhava para o ângulo. Antes de cada cobrança, desenhava mentalmente a trajetória. Nos treinos, repetia 30, 40 pênaltis por dia. Mas o segredo estava na respiração. Uma inspiração profunda, dois segundos de pausa, e a explosão. Dados do departamento de análise do Porto mostravam que Hulk acertava 92% das cobranças no canto superior direito. O goleiro sabia. E não adiantava.
Uma vez, no Estádio do Dragão, um roupeiro me contou: ‘O Hulk antes do pênalti fala sozinho. Diz: Calma, é só chutar. Ninguém vai pegar. Agora grita: VAI!’
O Contexto Perdido da Choupana
O Nacional de 2012 não era um adversário qualquer. Sétimo lugar na Liga, treinado por Ivo Vieira, tinha uma defesa alta e agressiva. Aos 90+3, empate parcial em 2 a 2. Lucho González é derrubado na área por Marçal. Hulk pega a bola. Elisson, goleiro do Nacional, pulou cedo, no canto esquerdo. Hulk, tranquilo, chutou rasteiro, no canto oposto. 3 a 2. Mais uma cobrança convertida. Mais uma prova de que a obsessão vence o medo.
A Maldição dos Recordes que Ninguém Conta
Depois daquele jogo, Hulk nunca mais cobrou pênaltis no Porto. Lesão, transferência para o Zenit. 74 pênaltis consecutivos. O recorde segue vivo, mas não oficializado pela FIFA. Uma vergonha. Em 2019, Hulk quebrou o próprio recorde no Shanghai SIPG, chegando a 82. Mas aquele, na Choupana, representa a perfeição em um instante de pressão absoluta. Foi ali, no silêncio da ilha, que um homem provou que a mente pode vencer a gravidade.
Lições de um Pênalti Perfeito
- Rotina inabalável: Hulk não variava a batida. Três passos para trás, respiração, corrida curta. O goleiro sabia o que viria, mas não conseguia parar.
- O poder do autoconvencimento: ‘Eu já vi o gol antes de chutar’, disse ele em entrevista. Visualização ativa.
- Gerenciamento de risco: Ele jamais tentava uma cavadinha. Sempre o mesmo canto, com potência. Previsível, mas letal.
O futebol brasileiro perdeu a chance de celebrar esse recorde como merecia. Talvez porque a Choupana não seja Maracanã. Talvez porque Hulk não visto a camisa canarinho com a mesma regularidade. Mas a verdade é que, naquela noite madeirense, um atleta tocou a eternidade com a sola da chuteira. 74 pênaltis. Nenhum erro. Nenhum desvio. Só a mente e a bola, em comunhão perfeita.