A mão de Alfredo Di Stéfano tremia sobre o ombro do garoto. — Não olhe nos olhos deles, René. Eles não são humanos. Eles são máquinas. Mas René Houseman, o Tigre, era só músculo e osso. E raiva. Na beira do campo, em Gelsenkirchen, 26 de junho de 1974, ele cuspiu no chão e rosnou: — Vou mostrar pra eles o que é carne. O que Houseman não sabia, e o mundo do futebol insiste em enterrar, é que aquela partida não foi um jogo. Foi um exorcismo. O choque entre dois mundos que nunca deveriam se encontrar: a lógica tática do futuro versus a paixão anárquica do subúrbio argentino. E o placar de 4 a 0 não conta nem metade da história.
A Tática do Medo: O 4-3-3 Contra a Loucura
O técnico argentino Vladislao Cap, em um ato de coragem suicida, escalou Houseman como ponta-esquerda puro, num 4-3-3 clássico. Sua missão: enfrentar Wim Suurbier, lateral-direito holandês que subia como uma flecha. Parecia lógico. Mas Cap ignorou um detalhe: a Holanda de Rinus Michels não jogava com laterais. Jogava com sombras. Suurbier não defendia; ele iniciava o ataque. E quando Houseman tentou marcá-lo, viu-se correndo atrás de um fantasma. O Tigre rugiu, mas mordeu o ar.
A análise tática do jogo total holandês é conhecida: rotação de posições, pressão pós-perda, linhas de passe diagonais. Mas o que raramente se conta é o caos psicológico causado na Argentina. Houseman, acostumado a driblar marcadores fixos no Huracán, via-se diante de um zagueiro que virava volante, que virava atacante. Johan Cruyff, com sua camisa 14, recuava para buscar a bola no meio-campo, arrastando a defesa argentina para um buraco negro tático. E quando a Argentina respirava, era para tomar gols: Krol, aos 11 minutos; Cruyff, em uma meia bicicleta que ninguém entende até hoje; e dois gols de Rep, o carrasco silencioso.
O Vestiário do Horror: A Fala de Batata
No intervalo, o placar já era 3 a 0. O goleiro Carnevali chorava. O zagueiro Daniel Killer batia a cabeça contra o armário. Foi quando o médico da seleção, Dr. Alberto Lorenzo, ouviu o que ninguém publicou:
— Escutem, seus filhos da puta. Eles não são melhores. Eles só sabem o que vão fazer. Nós não sabemos. Isso é medo. Isso é covardia. — A voz era de Omar Larrosa, meia reserva que entrou no segundo tempo. O silêncio foi cortado por Houseman, que gritou: — Então vamos morrer como homens!
O discurso não mudou o jogo. No segundo tempo, a Holanda apenas administrou. Rep fez o quarto, de pênalti. Mas o que aconteceu depois virou lenda: Houseman, em uma arrancada de 40 metros aos 78 minutos, driblou três holandeses e chutou a bola para as nuvens. Suurbier caiu de bunda. Cruyff, pela primeira vez no jogo, sorriu. — Esse é louco, disse ele ao árbitro. Louco, sim. Mas o louco que não se curvou.
As Estatísticas que a Fama Enterrou
- Posse de bola: Holanda 67% — Argentina 33%. Mas no segundo tempo, com Argentina desorganizada, a posse foi de 72% — o maior índice de uma partida de Copa até 1998.
- Passes certos: Cruyff teve 112 passes completos. O meia argentino mais próximo, Telch, teve 23. Houseman, 8. Oito. Mas dois deles foram dribles desconcertantes.
- Faltas cometidas: Argentina 29 — Holanda 8. A violência foi a resposta tática de Cap. O juiz austríaco Linemayr não expulsou ninguém. Vergonha.
- Finalizações no gol: Holanda 15, Argentina 3. Uma delas, de Houseman, carimbou a trave. Se entrasse, seria o gol mais bonito da Copa. Não entrou.
O Legado do Tigre Esquecido
Houseman nunca mais foi o mesmo. O jogo contra a Holanda quebrou algo dentro dele. Ele sempre carregaria aquele 4 a 0 como uma cicatriz. Em 1978, campeão do mundo em casa (Argentina 3 x 1 Holanda na final, com Houseman em campo 15 minutos), o Tigre ainda perseguia o fantasma de Gelsenkirchen. — Cruyff não me parou — ele diria anos depois, em entrevista rara. — O sistema deles me parou. Eu era um homem contra um computador.
Hoje, quando se fala da Laranja Mecânica, exalta-se a genialidade de Cruyff, a disciplina de Neeskens, a elegância de Rep. Esquece-se do adversário que enfrentou aquele monstro tático com nada além de coragem e desordem. Esquece-se de Houseman, o Tigre que rugiu no vazio, e de uma Argentina que, por 90 minutos, foi atropelada pela história. Mas que, entre um drible e outro, mostrou que o futebol não é só perfeição. É a porra da alma, sangrando em campo. E aquela alma, a Holanda nunca conseguiu roubar.