Eu estava lá. Não na Arábia Saudita, mas na redação, vendo o telex cuspir escalações que ninguém sabia pronunciar. Era junho de 1997. O mundo ainda lambia as feridas de uma Copa de 94 burocrática e a Europa se preparava para implodir com a França. Ninguém, absolutamente ninguém, dava um centavo pela Copa das Confederações. Um torneio de nome pomposo, com cara de amistoso de luxo, disputado sob um sol de rachar no Oriente Médio. E foi ali, no calor de Riade, que o futebol europeu escreveu seu manifesto de domínio global.
O Palco Perdido no Deserto
Em 1997, a Copa das Confederações ainda buscava identidade. Era um experimento da FIFA, um playground para testar formatos e, de quebra, agradar patrocinadores. O Brasil, campeão mundial, desembarcou com sua constelação: Romário no ápice, Ronaldo Fenômeno explodindo, e uma defesa que ainda assombrava com Aldair e Roberto Carlos. Mas o técnico Zagallo carregava uma obsessão: provar que o 4-4-2 clássico brasileiro, com dois pontas abertos, era anacrônico. Ele queria implementar um losango no meio-campo, um ‘diamond’ que sufocasse o adversário e liberasse os atacantes.
Do outro lado, a seleção da República Tcheca, vice-campeã da Euro 96, exibia um futebol de transições bruscas, comandado por Nedvěd e Poborský. Mas o verdadeiro abutre da vez era a Austrália, ainda desconhecida, com um time que mescla força e técnica. E a Arábia Saudita, dona da casa, que ensaiava um futebol de toque rápido, mas sem a capilaridade tática.
O Jogo que Antecipou o Futuro
Na primeira fase, um 0 a 0 entre Brasil e Tchéquia já acendeu alertas. O losango de Zagallo emperrava. Ronaldo e Romário se pisavam. Até que veio a final: Brasil e Austrália. Um jogo que ninguém lembra, mas que deveria ser estudado em escolas de futebol. A Austrália, treinada por Terry Venables, armou uma retranca com linhas de cinco na defesa e três volantes. Não era para ser bonito. Era para explodir o Brasil na transição.
E funcionou. Durante 90 minutos, o ataque brasileiro foi neutralizado. Romário, irritado, discutia com a arbitragem. Ronaldo, ainda em formação, era dobrado. O placar ficou em 0 a 0. Na prorrogação, um gol de falta de Ronaldo salvou o Brasil. Mas o que importa não é o gol. É o que ele não mostrou: a semente do chamado ‘futebol de resultados’, que dominaria a Europa nos anos seguintes.
O Legado Invisível
Aquela Copa das Confederações revelou três verdades táticas: a morte do 4-2-2-2 clássico, a ascensão dos ‘meio-campistas box-to-box’ (Nedvěd foi o precursor) e a eficácia de sistemas defensivos compactos. Em 1997, a Europa ainda não tinha vencido uma Copa desde 1982. Dali a um ano, a França venceria com um losango defensivo (Deschamps, Petit, Zidane). Em 2002, o Brasil ressuscitaria com um 3-5-2 híbrido. Mas a matriz tática de Riade ecoou nas escolinhas do Velho Continente: prioridade ao bloco, transições rápidas e atacantes que defendem.
Romário nunca esqueceu. Anos depois, em uma entrevista que ninguém ouviu, ele disse: ‘Ganhamos, mas jogamos como europeus. Aquele título não foi nosso. Foi deles.’
Em 1997, a Copa das Confederações era um torneio descartável. Mas foi ali que o futebol europeu aprendeu a odiar a genialidade e a amar a engrenagem. O resto é história.