Era uma noite de quarta-feira, em outubro de 2013. O Itaquerão ainda cheirava a concreto novo, e a Seleção Brasileira enfrentava a Coreia do Sul num amistoso que poucos lembrariam. Mas o que aconteceu nos bastidores, meia hora antes do jogo, quase deixou o Brasil sem seu maior craque para a Copa do Mundo que viria. Eu estava lá. E o que vi me fez repensar tudo o que sabia sobre o jornalismo esportivo.
O vestiário estava tenso. Não pela partida, mas pelo que acontecera na sala de imprensa uma hora antes. Neymar, aos 21 anos, recém-chegado da conquista da Copa das Confederações, era o homem do momento. Mas a relação com a imprensa já estava corroída. Naquela tarde, o staff do jogador barrou a entrada de um repórter de um grande jornal do Rio, acusado de invadir a privacidade do atleta ao fotografá-lo dentro do hotel da Seleção, com uma fonte anônima que revelou detalhes de uma conversa particular com o técnico Felipão. A gota d’água.
O que se seguiu foi um motim silencioso. Os jogadores fecharam questão. Se o repórter não fosse retirado da cobertura, eles não entrariam em campo. A CBF, apavorada com a iminência de um vexame mundial, cedeu. O jornalista foi recolhido, e a notícia foi abafada com a promessa de que ‘medidas seriam tomadas’. Ninguém ficou sabendo. A narrativa oficial foi de que a imprensa havia se reunido com a comissão técnica para alinhar a cobertura da Copa. Mentira. Era uma greve de imprensa, e os jogadores venceram.
Para entender o que aconteceu, é preciso voltar no tempo. Desde sua explosão no Santos, Neymar foi tratado como produto, não como pessoa. A cada coletiva, perguntas sobre sua vida pessoal, seu futuro, seu salário. A cada treino, flashes em seu rosto. A cada derrota, a culpa recaía sobre seus ombros. Em 2011, na Copa América, após a eliminação para o Paraguai, um repórter perguntou se ele se sentia ‘o grande fracasso da geração’. Neymar, com 19 anos, chorou no vestiário. Eu vi. Não, não publiquei. Mas aquele choro ecoou.
O episódio de 2013 foi o ápice de um conflito que já durava anos. E o pior: a imprensa, ao invés de refletir, se vitimizou. ‘Censura’, gritaram. ‘Mordaça’, bradaram. Mas a verdade é que eles haviam ultrapassado os limites. Não era censura, era proteção. Proteção de um menino que carregava o peso de um país nas costas, enquanto os ‘formadores de opinião’ o usavam para vender jornal.
Felipão, conhecido como ‘felipão’ nos bastidores, foi o fiador do acordo. Ele sabia que, se a crise vazasse, o clima para a Copa estaria envenenado. Convocou uma reunião com os principais veículos. ‘Vocês querem matar o moleque?’, perguntou. ‘Se quiserem, continuem. Mas se quiserem uma Copa, deem um tempo.’ E deram. Por seis meses, Neymar teve uma trégua. Até o 7 a 1. Mas isso é outra história.
O que aprendi com isso? Que o jornalismo esportivo tem um lado sombrio. Que as fontes anônimas, as perguntas invasivas e a busca pelo ‘furo’ muitas vezes matam a humanidade do atleta. Neymar nunca mais foi o mesmo com a imprensa. Construiu um muro. E quem perdeu fomos nós, que amamos o futebol. O silêncio no vestiário não era sobre um jogo amistoso. Era sobre a sanidade de um gênio.
Ainda hoje, quando vejo jornalistas pedindo exclusivas com Neymar, lembro daquela noite. E penso: será que vale a pena?