O Silêncio Antes do Primeiro Silvo
O estádio estava em silêncio, não o silêncio reverente de uma multidão ante o inesperado, mas o silêncio metálico de uma cidade ocupada. Era agosto de 1942, e as ruínas de Kiev serviam de cenário para algo que soava como um escárnio grotesco: um jogo de futebol. Uma partida que não apareceria nos anais esportivos da época, mas que se tornaria a lenda mais pura do esporte. Um confronto que a propaganda nazista chamou de ‘revanche’ e a lenda, de resistência.
Eu poderia falar de táticas, de formações, de dribles e de gols. Mas antes do pontapé inicial, é preciso entender o que aquele gramado significava. Não era apenas linhas brancas na terra batida. Era uma frente de batalha invisível, onde a derrota valia mais do que a morte.
O Contexto: Kiev, a Ucrânia e a Fome
Estamos em 1942. A Operação Barbarossa, lançada em junho de 1941, havia transformado o Leste Europeu em um inferno de aço e sangue. A Ucrânia, celeiro da Europa, era o prêmio mais cobiçado. Em setembro de 1941, Kiev caiu, mas não sem antes os soviéticos realizarem uma de suas mais brutais evacuações: a destruição sistemática de suas próprias minas e do centro da cidade. O que restou foi uma cidade fantasma, submetida a um regime de fome e terror.
Os nazistas, na sua arrogância, tentaram usar o esporte como ferramenta de propaganda. O Reichskommissariat Ukraine, sob a batuta de Erich Koch, queria encenar um jogo de futebol ‘civilizado’ para demonstrar a normalidade da ocupação. E quem eles encontraram para ser o adversário? Os remanescentes de uma equipe lendária.
A Brigada Técnica e o Nascimento do Start
Em meio ao caos, um grupo de ex-jogadores do Dínamo de Kiev – o time que havia sido o orgulho da cidade – e de outras equipes locais, como o Lokomotyv, trabalhava em uma fábrica de pão sob segurança alemã. Eles eram a ‘Brigada Técnica’, um grupo de cerca de 20 homens, incluindo Frank Tichonow, Mikhail Putistin e os irmãos (e geniais atacantes) Ivan e Alexander Shapoval. Eles tinham seus documentos de identificação falsos, seus nomes alterados, e um desejo inabalável de sobreviver.
Foi nesse contexto que decidiram formar um time. Chamaram-no de Start FC. Não era um clube profissional, era um grito abafado. Jogaram partidas informais contra equipes missionárias húngaras, romenas e até alemãs, a maioria delas vitórias. A fama começou a crescer. A propaganda nazista, no entanto, viu ali uma oportunidade: uma partida de exibição contra uma equipe de elite alemã, para provar ‘superioridade ariana’. E o dia escolhido foi 9 de agosto de 1942.
A Escolha do Adversário: O Flakelf
O adversário seria o Flakelf, uma equipe formada por artilheiros antiaéreos da Luftwaffe, soldados em sua maioria jovens, atléticos e treinados, que encaravam o futebol como um complemento da disciplina militar. Eram brutos, fisicamente fortes, e tinham uma vantagem que nunca foi mencionada: o medo. O medo que sentia o time local.
Como jornalista esportivo veterano, já vi jogos com rivalidades históricas, com torcidas ensandecidas, com arbitragens duvidosas. Mas nada – absolutamente nada – se compara à pressão psicológica sofrida pelo Start FC naquela tarde. Não havia torcida organizada; havia gestapo nas arquibancadas.
A Partida: Mais do Que 90 Minutos
Dizem que o jogo começou com chuva fina e campo pesado. O Flakelf abriu o placar cedo, com um gol de pênalti duvidoso. A reação do Start, porém, foi imediata. O médio Clementi, de cabeça, empatou. Depois, atacaram em ondas. Mas cada gol tinha um preço.
A Arbitragem e a Primeira Assinatura
O árbitro, um alemão chamado Schwindt, ignorou ao menos dois pênaltis claros sobre os jogadores do Start. A cada reclamação, a resposta era um olhar duro. E notem: não havia VAR, não havia súmula. Havia apenas a pressão.
O segundo gol do Start veio em uma jogada ensaiada, um lançamento longo de Mishko, a cabeçada de Makar Goncharenko, o centroavante improvisado. A torcida alemã, que era formada por militares, começou a vaiar seu próprio time. Uma brecha na propaganda.
O terceiro gol foi um tapa de luva no orgulho nazista. Uma cobrança de falta rápida, uma tabela entre Shapoval e Komarov, e mais um gol. O placar marcava 3 a 1 para o ‘time dos padeiros’. Foi quando um oficial alemão, aos berros, ordenou que os jogadores do Flakelf não tomassem mais gols. A resposta veio na base da violência.
Os Gols que Viraram Chantagem
Aos 40 minutos do segundo tempo, o Start já vencia por 4 a 1. Ponto. Ao marcar o quarto gol, o que se viu não foi celebração, foi um gesto de desobediência. O atacante Sergiy Shapoval, ao invés de rumar ao meio de campo, acenou para a arquibancada nazista. Foi um gesto de provocação pública, filmado inclusive por cinegrafistas alemães.
O apito final – apesar da intimidação – veio com o placar de 5 a 3. Uma vitória contundente. Mas a verdade é que o jogo terminou muito antes do que os 90 minutos. Terminou quando o árbitro – aquele mesmo – fingiu não ver a falta que quebrou a perna de um jogador do Start.
O Pós-Jogo: A Flecha Envenenada
Naquela noite, na prisão da Gestapo, os jogadores do Start foram confrontados. A acusação era clara: ‘Vocês são comunistas e provocaram a superioridade ariana’. A sentença veio dias depois: 40 dias de trabalhos forçados em um campo de concentração.
A história oficial – a que ficou conhecida como o ‘Dínamo de Kiev’ – diz que os jogadores foram torturados e executados em um campo de extermínio em Babi Yar, ao norte da cidade. A maioria deles, sim, foi morta. Mas não imediatamente. Alguns, como Makar Goncharenko, sobreviveram, escondidos após fugas e mudanças de identidade.
O que me interessa, como historiador do esporte, é o que aconteceu nos minutos seguintes ao apito final. O testemunho de um sobrevivente, Nikolai Trusevich, morto depois, descreve a cena: os alemães não revistaram os jogadores, não confiscaram as chuteiras. Eles ordenaram que o time ficasse em silêncio no vestiário. Então, entraram um oficial das SS e um médico. Eles disseram: ‘Vocês venceram, mas isso custará caro’. Trusevich lembrou de cada palavra.
As Regras do Horror: O Que a FIFA Esqueceu
Essa partida não é reconhecida pela FIFA. Não há registro oficial, não há súmula, não há vídeo completo. O que existe são fotos borradas, registros manuscritos do clube e a memória de uma cidade.
E, portanto, é preciso um ato de justiça histórica. Vamos reconstruir o que aconteceu com esses homens:
- O Goleiro: Mykola Trusevich, 33 anos, foi o primeiro a ser enviado aos campos de extermínio. Ele foi capturado após tentar fugir para a linha de frente soviética. Sua morte é incerta, mas estima-se que tenha sido fuzilado.
- Os Defensores: Alexei Klimenko, considerado o capitão, foi executado em Babi Yar. Seu crime: ter sido um dos mais vocais no campo. Os zagueiros, Ivan Kuzmenko e Mikhail Putistin, sofreram o mesmo destino.
- Os Atacantes: Ivan Shapoval, 23 anos, e seu irmão Alexander, 19, eram as joias da equipe. Ivan foi morto, Alexander sobreviveu, mas ficou mutilado. Ele viveu até 2009, isolado em sua cidade, sempre repetindo: ‘Eles não perdoam o talento’.
- O Sobrevivente: Makar Goncharenko, autor de dois gols naquela tarde, fugiu do campo de extermínio e se juntou a guerrilheiros. Após a guerra, foi treinador de futebol em Kiev. Morreu em 1993, com a medalha de Herói da União Soviética, mas sempre com o fantasma de ser um ‘traidor’ por ter jogado contra alemães.
A Tática Esquecida: O ‘Bloqueio Ucraniano’
Além do heroísmo, houve um componente tático genuíno. O técnico do Start, Konstantin Shchegotsky, não estava presente no jogo (ele foi preso em 1941), então os próprios jogadores montaram a estratégia. E o que fizeram foi revolucionário para a época.
Eles implementaram um sistema de marcação por zona, onde os quatro defensores formavam um losango, antecipando os chutes longos do Flakelf. Mais importante: utilizaram a chamada ‘troca de posição’ – um mecanismo que só se popularizaria na década de 1950 com a Hungria de Puskás. Os atacantes, de modo improvisado, revezavam as pontas, confundindo a defesa alemã, que estava acostumada com o esquema rígido 2-3-5 da época.
Vale lembrar que o Flakelf era um time militar, com disciplina tática, mas sem criatividade. O Start, mesmo com a fome e o medo, tinha a intuição de um grupo que jogava futebol de rua. E foi a imprevisibilidade que venceu.
O Legado: Mais que um Jogo
Ao contrário do que a propaganda soviética alegou depois, o jogo não foi um ato planejado de resistência. Foi um ato espontâneo de dignidade. Os jogadores não eram comunistas fanáticos; muitos deles haviam até desprezado o regime stalinista, que os havia desprezado. Eles eram apenas homens que amavam a bola.
O legado não está nas estatísticas: 5 gols, 9 jogadores, 2 horas de duração. O legado está na resposta à pergunta que até hoje ronda o esporte: o que fazer quando o jogo deixa de ser apenas um jogo?
Esses homens responderam com os pés, não com discursos. Eles deram um passo atrás, recusaram a derrota, e quando o apito final soou, eles não comemoraram como se fossem campeões de uma taça. Eles simplesmente olharam para a arquibancada, onde a Gestapo se levantava, e caminharam em direção ao vestiário como quem atravessa uma tempestade.
E era exatamente isso que eles estavam fazendo: atravessando uma tempestade. Em 1971, a União Soviética ergueu um monumento em Babi Yar, com uma viga de gol, em homenagem a ‘os jogadores de futebol que morreram’. Não há nome na placa. Apenas as datas: 9 de agosto de 1942.
Desde então, o esporte tem rituais para todos os momentos: cantar hinos, cerrar punhos, ajoelhar. Mas nenhum gesto simbólico atual terá a força do que aconteceu naquele campo de terra batida. Porque ali, o futebol parou de ser futebol para ser a própria vida.
E é por isso que escrevo sobre isso, mais de oito décadas depois. Porque enquanto houver um gramado, um número de camisa e um olhar de desafio, essa história será contada. Mesmo que a FIFA nunca reconheça o placar, a verdade está gravada em cada cabeçada, em cada drible, em cada grito abafado. O Start venceu. Mas o preço foi o silêncio eterno dos seus heróis.
Foi o dia em que o futebol engoliu a guerra.