O vestiário do Estádio das Antas, Porto, corria o ano de 1987. Uma lâmpada piscava, incerta, sobre a mesa de massagens, enquanto um velho roupeiro, de bigode grisalho e avental manchado de éter, me contava uma história que ninguém jamais publicou. Ele falava de um tempo em que o futebol tinha dois lados, como uma fita cassete: o lado A, dos craques, e o lado B, um território de obreiros, de desconhecidos heróis de chuteiras gastas, os pontas. Mas o que ele me confidenciou, em tom de segredo, foi o presságio: ‘Eles estão matando o lado B, filho. E ninguém vai chorar por esses homens.’ Ele não sabia, mas naquela noite, diante de mim, estava sendo ditado o obituário de uma posição inteira.
Hoje, 37 anos depois, olhando para os gramados milimetricamente estudados da Premier League ou da Champions League, percebo que o velho tinha razão. A morte do ponta direita clássico — aquele que vivia colado à linha lateral, que pegava a bola e simplesmente tentava dar um drible desconcertante antes de cruzar na área — não foi um acidente. Foi uma execução premeditada, conduzida por generais do meio-campo, executada por laterais modernos e sentenciada por um sistema que enxerga no caos controlado a única forma de vencer. E nós, cronistas de plantão, demoramos décadas para perceber que o futebol havia trocado a arte da imprevisibilidade pela segurança da posse de bola.
Não se engane: esta não é uma crônica nostálgica de um saudosista que chora por um futebol que nunca verá. Este é um dossiê de um crime quase perfeito. Vamos investigar a cena do crime. A arma? A evolução tática. A motivação? O medo de perder. E as testemunhas? Nomes como Garrincha, Stanley Matthews e Jairzinho — todos, de certa forma, profetas de um estilo que se tornaria inviável.
O Nascimento do Lado B: Uma Geografia do Impossível
Para entender o que foi o ponta direita, é preciso abandonar a lógica atual. No futebol pré-1970, o campo era um território mais largo, mais generoso. As linhas laterais não eram apenas demarcações; eram aliados estratégicos, verdadeiras paredes invisíveis que funcionavam como um escudo. O ponta direita vivia ali, naquele corredor de 10 metros, com a bola colada no pé, olhando o lateral adversário nos olhos. Não havia cobertura, não havia ajuda. Era um duelo de um contra um, regado a finta, velocidade e, por que não, uma boa dose de sangue frio.
O clássico ponta direita não precisava marcar. Sua função era pura heresia para o futebol contemporâneo: ele era um artista. Driblava para delírio da torcida, depois açoitava a bola para a área, um cruzamento rasteiro ou um bombardeio a meia altura. Lembro-me de vídeos granulados de Garrincha, na Copa de 1962, onde as câmeras mostram a simplicidade grotesca de seu passe final: ele não olhava para o centro, não media o companheiro. Ele olhava para o marcador, hipnotizava-o com um movimento de quadril e, em seguida, entregava a bola numa bandeja para Vavá. A anedota que circula até hoje nos porões da crônica: seu próprio irmão, em um treino do Botafogo, pediu para ele ‘cruzar a bola mais alto para os zagueiros’, e Garrincha, sério, respondeu: ‘Eu cruzo para ninguém ver, senão eles se acostumam’.
Mas essa aparente anarquia tinha uma lógica perversa: ela era perigosamente eficiente. Os números da época não mentem. O Santos de Pelé, entre 1961 e 1965, não tinha apenas um ponta; tinha Dorval na direita, que era uma sombra acelerada. Em 1962, o time marcou mais de 200 gols, e uma parcela significativa nasceu de jogadas onde o ponta direita esticava o campo, arrastava dois marcadores e, com um cruzamento de primeira, criava o caos. O ponta era o ponta de lança da imprevisibilidade. Ele era a prova viva de que o futebol brasileiro, com sua malandragem, tratava a linha lateral como uma extensão do próprio gol.
A Conspiração Silenciosa: Ancelotti, Sacchi e o Fim dos Gênios Isolados
De repente, os anos 80 aconteceram. E com eles, um italiano de óculos que odiava a palavra ‘improviso’. Arrigo Sacchi, no Milan, não estava apenas revolucionando a defesa; ele estava decretando a falência do lado B. Sua famosa linha alta, o bloqueio a 40 metros do próprio gol, e a pressão pós-perda, fizeram dos pontas adversários tolos apáticos. Sacchi entendia uma coisa que poucos percebiam: a bola se move mais rápido que o homem. Então, para que dar espaço ao improviso de um ponta, se você pode matá-lo no nascedouro com uma dobra do meio-campista? Ele tirou o relógio do pulso, cronometrou o espaço, e concluiu: o ponta é um luxo que nenhum time vencedor deveria pagar.
O golpe de misericórdia, contudo, veio de outro italiano, mais sorridente e menos filósofo: Carlo Ancelotti. Em meus anos de redação, ouvi relatos de dentro do Real Madrid, em 2014, que revelam a mudança de bastidor. Ancelotti não era um ditador tático; ele era um gestor de egos. Mas, nos treinos na Cidade Real, ele implementou uma regra não escrita: os ‘extremos’ tinham que voltar para compor o meio-campo. Era o fim da linha para o ponta que esperava a bola no círculo central. A função, aos olhos de Ancelotti, era de operações, não de ofertas.
O exemplo mais gritante dessa execução pode ser visto na trajetória de Ángel Di María. Quando jogava no Benfica e no Real Madrid, sob o comando de Mourinho, o argentino ainda era um ponta com alma de camisa 10: ele dominava a bola na linha de fundo, arrancava em velocidade e cruzava. Depois, no PSG, sob o jugo de Emery, ele foi transformado em um ‘meio-campista ofensivo’. Qual era a diferença? O espaço. Di María passou a receber a bola mais centralizado, com jogadores à sua frente, mas também a virar um carregador de piano. A magia do drible inconsequente foi substituída pela precisão do passe em profundidade.
O Algoritmo do Futebol: A Transformação do Gesto Técnico
Não é coincidência que a morte do ponta coincida com o avanço da análise de dados. A geração da estatística está obcecada por território e eficiência. Cruzamentos de alta pressão, que antes eram a arma predileta, caíram em desuso. Dados dizem que um cruzamento de uma área congestionada gera um xG (gols esperados) de 0.04%, enquanto um passe cortando linhas tem o dobro de chance. Eu, da velha guarda, não discuto os números, mas discuto a alma. Aquele grito de gol nascido de um cruzamento perfeito de um ponta sem espaço, com zagueiro nas costas e o goleiro saindo, é incomensurável em qualquer métrica.
Lembremos de Jairzinho, o Furacão da Copa de 1970. Ele não operava em um laboratório tático. Ele era o incêndio. Na final contra a Itália, no Estádio Azteca, ele não meteu gol, mas seu único passe de cabeça tirou dois marcadores e abriu o caminho para o gol de Carlos Alberto. Um ponta que age como um catalisador de caos: isso é o que a evolução matou.
A Indústria da Superfície: Laterais Modernos e a Falsa Capa de Herói
A transformação definitiva, entretanto, veio com a forma como os laterais passaram a ser vistos. O ponta clássico não desapareceu por completo; ele foi absorvido de forma invertida. O que era um extremo virou um lateral-ofensivo (mais conhecido como wing-back), como Dani Alves e Cafu. O drible de ponta foi substituído pela explosão física e pela leitura de jogo. A função, tão nobre quanto, deixou de ser um posto fixo e virou um flerte. O ponta agora é um lateral com licença para atacar. Mas atenção, essa licença é temporária e condicionada ao jogo posicional.
Quando falamos do Lado B, estamos falando dessa verticalidade honesta que morreu dando lugar a uma lateralidade que, hoje, é programada no software dos clubes. Não existe mais aquele papo de vestiário: ‘Fulano, você vai lá na ponta e faz o que quiser’. Isso foi trocado por um PowerPoint que define a bola no pé do lateral Bruxo, que vem por trás, quase como um toque de balé, para criar uma superioridade numérica. O futebol deixa de ser uma arte para ser uma soma de vetores.
Rios de Tinta e o Vazio Físico: Crônicas do Adeus
Talvez o exemplo mais claro do funeral do ponta direita tenha acontecido na Inglaterra, terra do futebol raiz. Nos anos 90, a Premier League era um campo de batalha para cruzar bolas no meio de um temporal. Clubes como o Nottingham Forest, de Brian Clough, não usavam pontas; usavam ‘ganchos’ — homens que corriam para receber um lançamento em diagonal na linha de fundo. O estilo raiz, de acossar pelo lado, foi comprimido por uma filosofia de posse vinda da Espanha. O Barcelona de Guardiola, em 2009, não usava pontas. Usava ‘interiores’ — Pedro, Messi ou Iniesta, todos virtuoses, mas todos orbitando a bola, nunca em uma zona fixa.
É uma ironia trágica. O futebol moderno tem atletas mais rápidos, mais fortes, mais preparados, mas exibe menos virtuosismo na linha de fundo. A pergunta que não quer calar nos pores do sol da crônica esportiva: será que nunca mais veremos alguém como Garrincha, fazendo três zagueiros dançarem no mesmo lance dentro da pequena área e, ao final, em vez de chutar, recuar para o meio-campista marcar? A resposta é um rotundo não. E não estou a falar de saudade; estou a falar de adequação ao sistema.
A morte do lado B não foi um assassinato por emboscada. Foi uma aniquilação lenta, de décadas, onde a vingança de Cada Dia Futebol Clube foi substituída pela precisão de um Scudetto. O velho roupeiro de 1987 morreu há dez anos, e em seu funeral, alguns de nós confessamos: nunca veremos outro homem de camisa 7 colado na linha, esperando a bola para pedir: ‘me dá que eu resolvo’.
O Arquivo Final: O Que Resta do Lado B no DNA Tático
Todavia, não quero parecer nostálgico de um sepulcro que não me pertence. O ponta direita se transformou em outra coisa. O camisa 10 deslocado para a ponta, como fazem hoje com Vinícius Júnior ou Raphinha, é um ponta que dribla, mas com a missão de não apenas cruzar, mas de ir para o meio e finalizar. A diferença é que eles trocam de posição com o meia, criando a confusão que o sistema anterior proibia. O ponta clássico era previsível na sua estada, mas imprevisível no gesto; o ponta moderno é imprevisível na posição, mas previsível no objetivo.
Nessa lógica, a função morreu, mas o espírito foi cindido em três novos papéis: o falso 9, o wing-back e o meia-atacante pela direita. E se olharmos com atenção para as melhores defesas do mundo, veremos que a saudade do lado B é, na verdade, a saudade de um futebol mais corajoso, onde o erro era aceito como parte da ousadia. Hoje, a planilha de riscos dos clubes de elite não inclui a frase ‘deixa o ponta pegar a bola e tentar a loucura’. Prefere-se o passe de 5 metros, a troca de lado segura, o cansaço do adversário.
Talvez seja hora de dar o braço a torcer: a história não anda para trás. Mas, ao caminhar em um estádio antigo, entre a arquitetura de concreto armado e os vestiários mofados, ainda escuto o eco de uma tarde de 1963, onde um ponta descalço, com lama até o tornozelo, parou diante de um lateral inglês, apontou para o gramado e disse: ‘É aqui que você dança, ou eu passo’. E passou. Mil vezes passou.
O futebol moderno pode até ter enterrado a posição, mas nunca vai enterrar a lenda. O lado B é aquele pedaço do campo onde a bola ainda respeita o impossível. E enquanto houver um antigo videoteipe de Garrincha ou Matthews correndo em câmera lenta, a memória do ponta direita permanece como um sussurro rebelde nas arquibancadas vazias, dizendo aos estrategistas modernos: vocês tiraram o homem, mas não o sonho.