A Maldicão de La Coruña: Como o Milagre do Ícaro Super Depor Quebrou os Alicerces do Futebol Espanhol e Nasceu uma Lenda de Vermes e Sangue

O vento norte soprava salgado contra os muros de Riazor. Fora, o Atlântico batia nos rochedos da Torre de Hércules. Dentro, um time de mortais construía a maior heresia que o futebol espanhol já viu. Fevereiro de 1996. A lua estava cheia sobre a Galícia quando Bebeto, o brasileiro de olhos tristes, explicou a um jovem zagueiro reserva: ‘Aqui, a bola não corre em linha reta. Ela dança com o vento. Mas o demônio do Lendoiro faz até o vento obedecer’. Esse segredo, sussurrado num túnel de vestiário, escancara a porta para uma fábula que mistura estratégia, loucura e uma tragédia anunciada.

O Contexto de um País de Ferro e Latifúndios

Na Espanha dos anos 1990, o futebol era uma monarquia absoluta dividida entre dois castelos: o Camp Nou de Cruyff e o Bernabéu de Butragueño, depois de Mijatovic e Redondo. O resto brigava por migalhas. Mas na Galícia, terra de celeiros e neblinas, um gerente de supermercado chamado Augusto César Lendoiro (vulgo Lendoiro) decidiu construir uma utopia com concreto, dívidas bancárias e passes de jogadores rejeitados. ‘Compramos o que os outros cospem’, dizia. Em 1990, o Deportivo flertava com a Segunda Divisão. Cinco anos depois, em 95, estava a um erro de um pênalti de ser campeão espanhol.

O Ícaro que Voou com Asas de Papel Moeda

A base foi a estrutura tática. Nada de 4-4-2 inglês ou 3-5-2 italiano. O técnico John Toshack – galês, bêbado e genial – e depois Arsenio Iglesias – o ‘Zorro de Arteixo’, um homem que parecia esculpido em madeira – implantaram um 4-2-3-1 mutante. Bebeto flutuava como falso 9, caindo nas pontas. Donato, o volante brasileiro que virou zagueiro, comandava uma linha defensiva que subia em bloco. Fran, o capitão de rosto anguloso, era o motor. Mas o segredo estava na recomposição: a equipe atacava com seis, defendia com oito, e o vento de Riazor fazia o resto. O lateral López Rekarte, ouvidor, certa noite, disse no bar após um treino: ‘Toshack nos fez treinar cruzamentos contra o vento durante duas horas. Disse que o gol viria do erro do goleiro adversário, não do acerto nosso’. E veio.

  • 1993-94: Vice-campeão espanhol, perdendo o título na última rodada para o Barcelona. A lenda do pênalti de Djukic. Um erro de cobrança que enlouqueceu uma província.
  • 1994-95: Campeão da Copa do Rei. A primeira grande conquista centenária. O troféu cheirando a navalha e pinho dos armários de Riazor.
  • 1995-96: Novamente vice, com 99 pontos? Mais que muitos campeões europeus. Mas o Real Madrid, de Valdano e Raúl, fez 100. Maldición.

A Desconstrução de um Sonho de Concreto Húmido

O dinheiro. A dívida. O Corinthians tinha uma parceria que vendia jogadores a preço de ouro para a Europa. O Depor importava o talento barato: Mauro Silva, Bebeto, Rivaldo (sim, Rivaldo jogou em Riazor por dois anos). E depois, a fatura chegou. O clube que quase faliu comprando passes de veteranos como Bone e Radchenko. O mesmo clube que vendeu a alma por um sistema: ‘Se ganhar, todos ganham bônus; se perder, o estádio treme’. Literalmente.

A Noite em que o Vento Parou

Numa tarde de Granada, em Março de 1997, um jogador reserva – que prefiro não nomear – sentou-se ao lado do aquecimento e cuspiu: ‘Vi Lendoiro chorar no intervalo. Disse que se perdêssemos, o clube acabava’. Perderam. A partir dali, o Super Depor entrou em uma espiral de maldição: nunca mais venceu uma Liga, perdeu finais, rebaixou-se em 2011 com uma dívida astronômica. A utopia se desmanchou no ar salgado. O campo, antes mágico, virou palco de tragédias: o 8-0 do Barcelona em 1995? Foi um aviso. A goleada do Milan na Champions? O fim da linha.

O Legado de uma Hecatombe Romântica

O Deportivo de La Coruña dos anos 90 é a prova de que o futebol não é justo. É uma fera que devora seus criadores. O time que desafiou a lógica econômica do futebol espanhol – com orçamento de clube pequeno e folha de gigante – pagou o preço. Mas deixou um rastro tático: a linha de impedimento subindo em bloco (antes de Arrigo Sacchi), o falso 9 de Bebeto (anunciando o Totti da Roma), e a crença de que um gerente de supermercado pode comprar o Real Madrid no mercado de passes.

Hoje, a Segunda Divisão ouve ecos. O vento de Riazor ainda assobia, mas o Super Depor morreu. Em seu lugar, resta a lenda de um time que jogava com o coração e a tesoura do orçamento. Eu estava lá, num jogo contra o Barcelona em 1994. Vi um garçom local, antes do apito inicial, encher o copo de vinho e dizer: ‘Se hoje ganharmos, a Espanha inteira vai saber que a Galiza existe’. Perderam por 1 a 0. Mas a frase ficou. A maldição também. Até hoje, o futebol espanhol deve respeito e um favor a Icaro.

Por um Historiador do Esporte que ainda sente o cheiro de terra molhada de Riazor nas noites de neblina.

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