A Noite em que o Futebol Virou uma Guerra de Trincheiras: A Morte da Tática (e do Jogo) na Final da Copa de 1990

Berlim, julho de 1990. O Muro havia caído meses antes, mas no Estádio Olímpico, outra muralha se erguia. Não de concreto, mas de suor, medo e uma obsessão tática que beirava a paranoia. A Alemanha Ocidental de Franz Beckenbauer enfrentava a Argentina de Diego Maradona. Mas quem esperava um espetáculo se enganou. O que vimos foi o funeral do futebol-arte, uma guerra de trincheiras de 120 minutos que terminou com um pênalti duvidoso e uma taça levantada em meio a vaias. Eu estava lá, na cabine de imprensa, sentindo o mau cheiro da frustração. O que aconteceu naquela noite não foi apenas uma final; foi o ponto final de uma era.

Para entender o que se passou, é preciso voltar no tempo. A Argentina de 1990 não era a mesma de 1986. Maradona carregava um tornozelo inchado e um elenco envelhecido. O técnico Carlos Bilardo, um ex-médico obcecado por detalhes, arquitetou um plano que muitos chamaram de covarde, mas ele preferia chamar de ‘pragmatismo’. O time jogava no 3-5-2, mas com os alas recuados e três zagueiros que faziam da área um cofre. A ideia era clara: anular o adversário e esperar o erro. Contra o Brasil, nas oitavas, foi assim. Contra a Itália, na semifinal, também. Mas contra a Alemanha, na final, o nível de anticlimax atingiu o paroxismo.

Beckenbauer, por outro lado, tinha um time que parecia uma máquina. Matthäus no meio, Klinsmann e Völler na frente, uma defesa sólida com Kohler e Buchwald. Mas o Kaiser, como bom estrategista, sabia que a máquina poderia emperrar. Ele armou um 4-4-2 com linhas compactas, mas deu liberdade para Matthäus subir. O primeiro tempo foi um estudo de neutralização mútua. A Alemanha tinha a bola, mas não sabia o que fazer com ela. A Argentina se fechava, com Maradona isolado na frente, como um boxeador que só sabe encaixar um direto quando o outro baixa a guarda. Aos 20 minutos, um lance curioso: Maradona recebeu na entrada da área, girou e chutou fraco. A torcida alemã riu. Era o retrato de um time que não acreditava em si mesmo. O técnico alemão, nos vestiários, deve ter dito: ‘Calma, eles vão se cansar’. Mas não se cansaram. A Argentina correu, mordeu, fez faltas. 56 ao todo na partida. Um recorde para uma final de Copa.

O segundo tempo foi um exercício de futebol sofrimento. A Alemanha pressionou, mas sem criatividade. Beckenbauer tirou o ala Reuter e colocou o atacante Riedle. Nada. Bilardo respondeu tirando Caniggia, seu único velocista, e colocando um zagueiro. Era como se ele dissesse: ‘Se for para perder, que seja por 1 a 0, mas vamos arrastar isso até os pênaltis’. Aos 75 minutos, um escanteio alemão. Matthäus cobrou, Völler cabeceou e Goycochea, o goleiro argentino herói das quartas contra a Iugoslávia, fez uma defesa milagrosa. A torcida alemã gemeu. A argentina, minoria, gritou. Um amigo jornalista argentino, sentado ao meu lado, sussurrou: ‘Se isso for para os pênaltis, nós ganhamos’. Mas o destino é irônico. Aos 85, um cruzamento de Berthold, a bola tocou no braço de Pedro Monzón dentro da área. O árbitro mexicano Codesal apitou pênalti. Debate até hoje: foi ou não foi? Para mim, foi. Braço aberto, impedindo o cruzamento. Mas a discussão esconde o essencial: aquele jogo não merecia um pênalti. Merecia um tiro de misericórdia.

Andreas Brehme, lateral esquerdo, bateu. Goycochea adivinhou o canto, mas a bola entrou no ângulo. 1 a 0. Fim de jogo. Mas não foi o fim. A Argentina perdeu a cabeça. Monzón foi expulso por uma entrada criminosa em Klinsmann. Dez minutos depois, Dezotti também, por agredir um alemão. A final acabou com 9 argentinos em campo. Maradona chorou. Beckenbauer fumou um cigarro no gramado, em uma imagem que virou icônica. Mas o que fica é a sensação de que o futebol morreu um pouco naquela noite. A partir dali, o mundo viu a Copa de 1994 ser manchada pela violência, e a de 1998 ser um show de travas e catimba. Só em 2002, com o Brasil de Ronaldo, o futebol-arte tentou ressurgir das cinzas. Mas a sombra de 1990 ainda paira.

Em termos táticos, aquela final foi o auge do ‘catenaccio’ moderno, mas sem a elegância italiana. Foi a vitória da defesa sobre o ataque, do medo sobre a coragem. Bilardo provou que se pode ganhar uma Copa sem jogar bem. Beckenbauer, que se pode perder o encanto mesmo vencendo. Para os historiadores, 1990 é um marco: a última Copa antes da globalização, do futebol-empresa, dos patrocinadores nas camisas. Foi o suspiro de um esporte que ainda pertencia aos jogadores, mas que já começava a ser sequestrado pelos técnicos. Hoje, com a posse de bola espanhola e o gegenpressing alemão, aquela final parece um fóssil. Mas é um fóssil que nos lembra que o futebol, às vezes, é sobre não perder. E isso é triste.

No vestiário argentino, depois do jogo, dizem que Maradona gritou: ‘Nos roubaram!’. Mas não foi roubo. Foi a lógica de um time que abdicou de jogar. A Alemanha mereceu? Pelo que criou, sim. Mas o futebol merecia mais. Eu, como cronista, saí do estádio com a sensação de ter visto um acidente de carro em câmera lenta. Bonito? Não. Impactante? Sim. E talvez seja por isso que ainda falamos dela. Porque, no fundo, a final de 1990 é um espelho das nossas contradições: queremos espetáculo, mas aceitamos o resultado. E, assim, o futebol segue sua sina, entre a arte e a guerra.

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