Ele estava suado. Não de grama ou de esforço, mas de mentira. O analista de desempenho do clube, recém-formado em Portugal, mexia no tablet como quem aperta gatilho. ‘Olha aqui, o xG dele é 0.3, não justifica’. Eu, velho de redação, me calei por um segundo. Olhei a fita: o meia, um canhoto de 38 anos, matou no peito uma bola aérea, deu um drible seco na entrada da área, bateu de três dedos no ângulo. Golaço. Mas o tal xG dizia que aquilo não justificava. Justificava o quê, a permanência? A salvação?
A Revolução dos Números: Quem Grita Dados? Quem Chuta Dados?
Nos anos 1950, um inglês chamado Charles Reep passou horas anotando passes e finalizações em cadernos. Ele descobriu que a maioria dos gols vinha de sequências curtas (3 passes ou menos). Criou o ‘futebol direto’, o kick and rush. Enganou gerações. Depois veio a Opta, os modelos de expected goals, a fábrica de dinheiro das casas de aposta. Hoje, cada clube europeu que se preze tem um departamento de dados com PhDs em matemática aplicada. Mas no Brasil? A maioria ainda acha que xG é nome de remédio.
Há um abismo entre a ciência dos números e a arte do futebol de chão. Mas entre os dois, há um campo minado: o contexto. Pegue o xG. O modelo mais comum (o da Understat, por exemplo) considera ângulo, distância, tipo de assistência, posição dos defensores. Ignora, porém, a pressão da torcida, o gramado molhado da várzea, a bola murcha, o cansaço de 3 jogos em 7 dias. Ignora o imponderável.
Um dos primeiros analistas a usar xG no Brasil, nos anos 2010, me contou em off: ‘Eu mostrava os dados pro treinador e ele falava: ‘Tá, mas o volante deles é manco, a gente sabe disso. O xG não sabe’. Era um confronto direto entre a intuição e a máquina.’
O caso do lateral que não sabia cruzar mas gerava xA
Em 2019, um clube da Série B (que não citarei por ética) contratou um jovem lateral-direito. Cruzamentos dele: um desastre. Mas ele gerava boas chances? Os olheiros europeus babavam. Resultado: ele foi vendido para Portugal. Lá, com mais espaço e menos pressão, virou ‘o novo Cafu’ por dois meses. Depois caiu. Por quê? O modelo estatístico espanou o contexto: no Brasil, a marcação por zona o sufocava; em Portugal, os alas recuavam mais, dando tempo. O xG não mede tempo, mede ângulo. E tempo, no futebol, é tudo.
Mapas de calor e a alma fria do algoritmo
Mapas de calor são lindos no Instagram. Mas eles não mostram a ausência: o buraco no meio-campo deixado por um volante que correu 12 km mas não correu na direção certa. Eles não mostram a ‘zona fantasma’, como chamam os estatísticos do City Football Group. Zonas fantasma são áreas do campo onde o jogador não aparece, mas deveria. O mapa de calor não as registra. É como julgar um goleiro só pelos gols evitados, ignorando os gols que ele ‘não sofreu’ mas que não foram chutados porque o faro dele anulou a chance antes. Isso, sim, é o santo graal: medir a prevenção de riscos.
Houve um estudo da USP, raro, que tentou cruzar dados de GPS com microeventos. Eles descobriram que, em campo molhado, passes em profundidade caem 40% e a velocidade de reação dos zagueiros diminui. Óbvio? Sim, mas ninguém coloca ‘gramado molhado’ no xG. O algoritmo da Opta não tem filhos, não pega ônibus, não chora com derrota. Ele é frio, mas não é justo.
A maldição do xG baixo dos artilheiros de área
Romário, em 94, teria um xG altíssimo: finalizava muito de dentro da área. Mas e o Sávio (o ‘Expresso da Vitória’)? Ele driblava três e chutava de fora, de bico, de canela. xG baixo, mas os gols decidiam títulos. O xG, hoje, diria que o melhor é chutar sempre de dentro da área, ignorando o fator surpresa. Estatisticamente, é correto. Humanamente, é chato. O futebol virou uma busca pela eficiência máxima, um ‘casamento’ (me perdoe o clichê) entre a arte e a planilha. Mas o padre é o drible, e a igreja, o gol.
Vôlei, Basquete e o mito do atleta 4.0
No vôlei, o ataque é soberano: 60% dos pontos vêm de cortadas. Dados de salto, potência, alcance. Mas a ciência avançou para microciclos de recuperação: quantos saltos um ponteiro pode dar em 5 sets sem perder 10% de impulso? No basquete, a revolução do ‘analytics’ (Moreyball) já matou o mid-range jump. Só bandejas e três pontos. Parece ineficiente, mas é racional: o valor esperado do mid-range é menor. No futebol, o equivalente seria chutar só de dentro da área e de cabeça. O jogo viraria um pingue-pongue de cruzamentos. Já vimos isso. É o futebol inglês dos anos 90. E era feio.
Por que o xG não salva um time da zona?
Pegue o Brasileirão de 2023. Times que tiveram xG maior que o adversário em metade dos jogos, mas perderam. Coincidência? Má sorte? Não. O xG não mede a qualidade da finalização: um chute de fora que vai no travessão tem o mesmo xG de um chute fraco nas mãos do goleiro. Absurdo. Mas os modelos avançados (como o do StatsBomb) já incluem ‘xGOT’ (expected goals on target), que pondera a colocação. Ainda assim, ignoram a pressão do marcador.
Eu vi, com meus olhos, um atacante perder um gol de cabeça com xG de 0.8. O zagueiro puxou o ombro dele? O modelo não vê. O goleiro saiu bem? Não. O sol estava na cara? Não. O que o modelo vê é uma média de milhares de cabeceios iguais. Mas aquele era diferente: o atacante estava contundido, a bola veio com vento, o estádio estava em silêncio porque a torcida adversária calou. O imponderável, novamente.
Me lembro de um preparador físico da geração de 94: ‘Nós usávamos um caderninho. Anotávamos quantos passes errados cada um tinha. Não sabíamos o que era xG. Mas sabíamos, pelo cheiro, quem ia pipocar no segundo tempo.’ O cheiro. A intuição. O dado ainda não criou um sensor para cheiro.
O futuro: será que vamos entregar o jogo às máquinas?
Há quem sonhe com um futebol onde cada passe é otimizado por inteligência artificial. Mas o futebol, ao contrário do xadrez, não é um jogo de soma zero. É caótico. E o caos, por definição, resiste à modelagem. Grandes treinadores (Ferguson, Mourinho, Guardiola) usam dados, sim. Mas eles sabem que o dado é um mapa, não o terreno. O mapa mostra a rua, mas não o buraco que o carro do atacante vai cair.
O legado do Big Data, talvez, seja nos forçar a perguntar: o que é inegociável no futebol? A emoção. A imprevisibilidade. A finta que engana não só o zagueiro, mas a probabilidade. Aquele gol que, por todos os números, não deveria existir. Mas existe. E a gente paga ingresso para vê-lo.
Enquanto as planilhas avançam, o futebol resiste. Não por ignorância, mas por memória. A memória de que, no fundo, o esporte é uma conversa entre o corpo e o acaso. E o acaso não cabe em nenhum algoritmo.