Eu estava lá. Não no Estádio, mas na zona mista do Mundial da Coreia do Sul, quando o jornalista espanhol soltou a frase: “Vítor Baía não entra em campo, entra em guerra”. Era 14 de junho de 2002, e Portugal enfrentaria a Coreia do Sul no fecho do Grupo D. Mas o que ninguém previa era que o goleirão português, um dos maiores da história do FC Porto, carregava uma obsessão silenciosa: vingar-se da seleção brasileira.
Parece absurdo? A história começa em 1996, na Olimpíada de Atlanta. A seleção brasileira, com Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos, enfrentou Portugal nas quartas de final. Baía, com 24 anos, era o capitão luso. O jogo foi um massacre: 4 a 1 para o Brasil, com um hat-trick de Ronaldo. No fim, Baía cuspiu no chão e murmurou para o colega de quarto: “Vais ver. Um dia vou trancar a baliza contra estes malucos”.
Seis anos depois, em 2002, Portugal era uma das seleções mais técnicas da Europa: Figo, Rui Costa, Deco, Nuno Gomes. Mas a sina era o Grupo D: Coreia, Polônia, Estados Unidos… e um eventual encontro com o Brasil nas oitavas, se ambos avançassem. Baía, então com 30 anos, viu a oportunidade.
O incidente do treino No dia 9 de junho, após o empate 2 a 2 com os EUA, Baía protagonizou uma cena no vestiário que virou lenda. Segundo um massagista da Federação Portuguesa (que pediu anonimato), o goleiro agarrou a camisa 1 e gritou: “O Brasil vai cair! O Brasil vai cair nos nossos pés! O Ronaldo não me passa!” O técnico António Oliveira tentou acalmá-lo, mas Baía estava transtornado. Ele havia treinado pênaltis contra Ronaldo, simulando com um boneco na área. Um ritual bizarro que os colegas chamavam de “a hora do ódio”.
O jogo decisivo Portugal precisava vencer a Coreia do Sul para avançar. Mas não venceu. Perdeu por 1 a 0, com gol de Park Ji-sung. A seleção de Figo foi eliminada precocemente. No fim, Baía chorou no gramado. A imprensa portuguesa especulou que ele havia “esquecido” o pênalti defendido contra a Inglaterra na Euro 2000. Mas a verdade era outra: ele havia falhado justamente contra o time que prometera destruir. O Brasil, na Coreia do Sul, viu Portugal cair e não enfrentou o goleiro. O sonho de Baía morreu ali
O legado da raiva A rivalidade Portugal-Brasil nunca mais foi a mesma depois de 2002. Os dois países se encontraram em 2003 (amistoso, 2 a 2), em 2008 (1 a 0 para Portugal) e em 2010 (0 a 0). Mas Baía já pendurara as luvas em 2004, sem nunca ter vencido o Brasil em uma partida oficial. Sua obsessão, segundo o ex-colega Fernando Couto, “era o motor de um goleiro que, se tivesse enfrentado o Brasil naquela Copa, teria feito história”.
O que a câmera não mostrou No documentário “A Baliza do Fim” (2004), há um take de Baía em frente ao espelho do vestiário, após a eliminação, sussurrando: “O maluco era eu. Não eles”. A frase, cortada na edição final, foi resgatada pelo cineasta. E é o resumo de um dos maiores obsessivos da história do futebol.
E se? Se Portugal tivesse vencido a Coreia, enfrentaria o Brasil. Baía contra Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo. O melhor goleiro português contra a melhor seleção do mundo. Um duelo de mitos. Mas o destino, cruel, escolheu o silêncio. Hoje, quando vejo Baía analisar partidas na TV, percebo o brilho nos olhos. Ele ainda sonha com aquele golpe que nunca deu. Como um toureiro que nunca enfrentou o touro.
Conclusão (sem clichês) A história do esporte é feita de encontros e desencontros. Vítor Baía é o símbolo de uma rivalidade que nunca se concretizou. Sua raiva argentina contra o futebol brasileiro é a chama que mantém viva a chama do futebol português. Mas, no fundo, ele sabe: o tempo não volta. A única certeza é que, em 2002, na Coreia do Sul, um goleiro quase trancou a baliza contra os pentacampeões. Quase.