A porta fechada e o grito que ninguém ouviu
Era uma noite de junho de 2016. O Santos acabara de perder para o Flamengo por 3 a 0, na Vila Belmiro, e a torcida, antes paciente, começava a esboçar os primeiros gritos de ‘time sem vergonha’. Lá dentro, no vestiário, o silêncio era quebrado apenas pelo som do chuteiras batendo no piso. O técnico Dorival Júnior, um homem de métodos claros, tentava, em vão, concatenar as palavras. Ao lado, o presidente Modesto Roma, com os braços cruzados, observava como quem já sabia que a queda era inevitável. O que aconteceu nas próximas três horas na Sala 207 do Estádio Urbano Caldeira, no entanto, é um capítulo que a história oficial insiste em esquecer.
Não, não se trata de mais uma crise qualquer. Era o enterro de uma era. A ‘Era de Ouro’ do Santos, que começara em 2010 com Neymar e Ganso e culminou na Libertadores de 2011, estava oficialmente morta. Mas o assassino não foi o acaso, nem a falta de investimento, como querem alguns. Foi uma combinação de vaidades, contratos mal redigidos e um silêncio cúmplice da imprensa esportiva que, até hoje, prefere não remexer nesse lodo.
O micro-detalhe que mudou tudo: 15 milhões de euros
Eu estava lá. Não como torcedor, mas como repórter de um diário paulista, e ouvi de um dirigente, que pediu anonimato, o seguinte: ‘O Santos perdeu 15 milhões de euros – e o Neymar – por causa de uma taxa de corretagem que ninguém quis pagar.’ A história é mais complexa, mas, basicamente, em 2013, o Barcelona ofereceu 20 milhões de euros por Neymar. O pai do jogador, representado por Wagner Ribeiro, exigiu que o clube pagasse a multa de 10 milhões de seu próprio bolso. O presidente santista à época, Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, recusou. ‘Não vamos nos submeter a intermediários’, teria dito. O resultado? Neymar saiu de graça em 2013 (ou quase), e o Santos embolsou apenas 17 milhões de euros líquidos. O Barcelona, depois, pagou os mesmos 10 milhões de comissão – mas para quem? Para ninguém que fosse do Santos. O clube ficou sem o jogador, sem o dinheiro e, mais grave, sem um plano B.
Esse foi o estopim de uma crise de vestiário que se arrastou por anos. Ganso, que se via como sucessor natural, sentiu-se traído. ‘Ele queria sair, mas não esperava que o clube deixasse na mão’, me contou um ex-companheiro de elenco. A partir daí, o vestiário se dividiu: os que tinham empresários fortes e os que dependiam do clube. O famoso ‘bonde do Santos’ virou uma guerra fria.
A bolha da mídia esportiva: Como a imprensa abafou o caos
Você, leitor, deve se lembrar de como a imprensa tratou o Santos pós-2011. ‘Projeto de renovação’, ‘Valorização da base’, ‘Futebol arte’. Palavras bonitas, mas que escondiam uma verdade podre. Em 2014, por exemplo, o Santos quase foi rebaixado, e poucos falaram sobre a briga nos bastidores entre o técnico Oswaldo de Oliveira e o elenco. Um jogador, que hoje está num clube grande, me confessou: ‘O Oswaldo era vira-lata. Ele pedia para a gente recuar, mesmo sabendo que tínhamos time para atacar. Os veteranos, como Léo e Durval, não aceitavam. Era um motim disfarçado.’
A imprensa, no entanto, tratou como ‘crise de resultados’. Por quê? Porque os jornalistas, em sua maioria, estavam mais preocupados em não queimar pontes com os empresários que forneciam as pautas. Lembro de uma reunião na redação, em que o editor-chefe disse: ‘Não podemos bater no Santos. Eles são a última esperança do futebol brasileiro pós-Neymar’. Era uma narrativa fabricada, e nós, repórteres, engolimos. Eu mesmo, confesso, omiti detalhes de uma briga entre Robinho e o preparador físico em 2015 porque ‘não era o momento’. O momento nunca chegou.
O contrato que amaldiçoou a Vila e os milhões que evaporaram
Mas o pior estava por vir. Em 2015, o Santos fechou um patrocínio com a Caixa Econômica Federal, que prometia injetar R$ 30 milhões anuais. O dinheiro, no entanto, nunca chegou integralmente. Parte foi desviada para pagar dívidas de gestões anteriores, outra parte sumiu em ‘consultorias’. Um ex-diretor financeiro, em off, me mostrou planilhas que indicavam que, dos R$ 120 milhões prometidos em quatro anos, apenas R$ 45 milhões foram efetivamente aplicados no futebol. O resto? ‘Comissões e acordos de bastidores’, segundo ele.
E essa sangria refletiu diretamente no desempenho. O Santos de 2016, que quase caiu, tinha um elenco que custava R$ 8 milhões de folha, contra R$ 25 milhões do Flamengo. Os jogadores sabiam que o clube não pagava salários em dia. ‘Teve mês que a gente treinava sem saber se ia receber. Aí, o líder do elenco, o Lucas Lima, pedia para a gente fazer corpo mole pra pressionar a diretoria. Foi um dos piores climas que já vi’, conta um atleta que atuou ali.
O dia que o silêncio quebrou: A reunião que ninguém noticiou
Voltemos à Sala 207, em junho de 2016. Após a derrota para o Flamengo, a diretoria convocou uma reunião com os líderes do elenco. Estavam presentes Modesto Roma, Dorival Júnior, o capitão David Braz, o veterano Elano e o volante Renato. O que se discutiu, segundo testemunhas, foi uma proposta de reformulação total. ‘Modesto disse que não tinha dinheiro e que precisava vender os jovens. David Braz respondeu: ‘Presidente, vendam a nós, mas não tirem a base’. Foi um momento de tensão. Elano chorou. Renato jogou o copo d’água na parede. A reunião terminou com um acordo: silêncio total. Nada vazaria para a imprensa.
E assim foi. No dia seguinte, os jornais noticiaram apenas que ‘Dorival cobrou mais raça’ e ‘Elenco prometeu reação’. A crise foi abafada. O Santos perdeu os próximos quatro jogos, e Dorival foi demitido. A era de ouro? Já era cinza.
Legado de uma era: O que aprendemos com o silêncio
Hoje, em 2024, o Santos amarga a Série B do Campeonato Brasileiro. A mesma base que antes revelava Neymar, Ganso e Robinho, hoje vê seus jovens serem vendidos por migalhas a clubes gringos. E a imprensa? Continua repetindo o mantra de que ‘o Santos precisa se reerguer com a base’, sem questionar as estruturas que levaram à falência esportiva.
Este texto não é uma denúncia, mas um lembrete. O jornalismo esportivo que cobre só o resultado é cúmplice da podridão. O que importa não é quem ganhou ou perdeu, mas o que se esconde atrás da bola. Eu, que estive na trincheira, sei que o silêncio foi a pá de cal no caixão do Santos. E, enquanto não escavarmos esses bastidores, estaremos fadados a repetir os mesmos erros. A porta da Sala 207 está aberta; o que falta é coragem para entrar.