Em 1984, o Brasil vivia os Ăºltimos suspiros da ditadura militar. No futebol, a Democracia Corinthiana era um sĂmbolo de resistĂªncia. Mas, nos bastidores, o que a imprensa nĂ£o mostrava eram as brigas internas, os egos inflados e a crise que quase destruiu o movimento. Era vĂ©spera de um jogo decisivo no MaracanĂ£ contra o Flamengo. O clima no vestiĂ¡rio do Corinthians era insustentĂ¡vel. Wladimir, capitĂ£o e lĂder, mal olhava nos olhos de SĂ³crates. Casagrande, o matador, estava silencioso, mas seus olhos queimavam. E eu, jornalista iniciante, estava lĂ¡, escondido atrĂ¡s de uma cortina, para testemunhar o que a TV nĂ£o mostraria.
O conflito começou por causa de uma declaraĂ§Ă£o de SĂ³crates ao Jornal do Brasil. Ele disse que a Democracia Corinthiana era mais importante que qualquer resultado. Casagrande, que vinha de uma fase artilheira, sentiu-se desprestigiado. Para ele, o gol era a voz do time. No vestiĂ¡rio, os gritos ecoavam. ‘VocĂª pensa que isso Ă© uma repĂºblica de bananas?’, berrou Casagrande. SĂ³crates, frio, respondeu: ‘Banana Ă© quem acha que o futebol se resume a vencer’. A tensĂ£o era cortada a faca. Wladimir tentou intervir, mas foi ignorado. O tĂ©cnico, Jorge Vieira, estava paralisado. Ele nĂ£o era um lĂder, era um espectador. A Democracia Corinthiana, naquele momento, era um caos organizado.
A crise abafada pela imprensa era real. Nenhum repĂ³rter teve acesso ao que aconteceu ali. Eu, como estagiĂ¡rio do Lance!, consegui entrar com a ajuda de um roupeiro. O que vi me marcou para sempre. A equipe estava dividida em dois grupos: os intelectuais, liderados por SĂ³crates, e os pragmĂ¡ticos, com Casagrande. Mas o pior estava por vir. Zenon, o meia, ameaçou nĂ£o entrar em campo se nĂ£o houvesse uma reuniĂ£o. O tempo corria. Faltavam 40 minutos para o jogo. A torcida jĂ¡ cantava lĂ¡ fora, mas ali dentro era um velĂ³rio.
Foi entĂ£o que SĂ³crates tomou uma atitude que mudou tudo. Ele pegou uma caneta e rabiscou um manifesto em um guardanapo. Era um cĂ³digo de conduta: cada jogador teria direito a voto em todas as decisões tĂ¡ticas. Casagrande recusou-se a assinar. ‘Isso Ă© uma piada?’, gritou. Mas Wladimir, com a voz grave, disse: ‘Ou assinamos juntos, ou morremos juntos’. O silĂªncio pairou. Um a um, os jogadores assinaram. Casagrande, relutante, foi o Ăºltimo. Naquele ato, a Democracia Corinthiana renasceu, nĂ£o como ideal, mas como necessidade. O jogo? Corinthians venceu por 2 a 1, com gol de Casagrande nos acrĂ©scimos. Ele correu para o abraço de SĂ³crates. Aplaudidos de pĂ©, mas ninguĂ©m nunca soube da crise que os uniu.
Hoje, olhando para trĂ¡s, vejo que aquele episĂ³dio foi um microcosmo do Brasil. A Democracia Corinthiana nĂ£o era um conto de fadas; era uma luta constante, cheia de imperfeições. E a imprensa, ao abafar a crise, contribuiu para o mito. Mas eu, que estava lĂ¡, sei que a verdadeira democracia Ă© feita de confrontos, de egos, de dificuldades. E, acima de tudo, de coragem para superĂ¡-los.