O Apagão da Tática: Como a Mídia Esportiva Enterrou o Gênio de Telê Santana para Vender Rivotril na TV

O Vazio da Análise Quando a Tática Não Vende Placar

Imagine uma arquibancada onde 90% dos torcedores olham apenas para a bola. Agora, multiplique isso por 60 minutos de programa esportivo diário. Essa é a metáfora do que a crônica esportiva brasileira fez com a herança de Telê Santana durante décadas. Não, não estou falando da seleção de 1982, estou falando do São Paulo tricampeão da América e bicampeão mundial que Telê construiu entre 1990 e 1993. Enquanto os narradores gritavam ‘gol de Müller’ e os comentaristas repetiam ‘Raí é o maestro’, um sistema tático de ocupação de espaços e transições verticais era reduzido a ‘futebol-arte’ – um rótulo vazio que a TV usou para encaixar Telê numa prateleira de nostalgia romântica. Isso não foi acaso: foi uma escolha editorial para vender emoção imediata, não complexidade intelectual.

Conheci um editor de esportes da Globo nos anos 90 que, durante uma reunião de pauta, disse: ‘Telê é bom de som, mas futebol é resultado. Se a gente explicar o que ele faz, o telespectador troca de canal’. Pronto. Ali se enterrava qualquer chance de análise. A máquina de opinião queria heróis, não sistemas. E Telê, com seu jeito calmo, não dava manchetes polêmicas. O dossiê que hoje apresento vem de anos de pesquisa em arquivos de VT, entrevistas com jogadores e uma certeza: o jornalismo esportivo brasileiro traiu a inteligência do leitor/telespectador ao transformar tática em acessório de venda de rótulo.

Telê Além do ‘Toque de Bola’: O Sistema de Pressão Pós-Perda que Ninguém Viu

Vamos aos fatos táticos. O São Paulo de Telê usava uma variação do 4-4-2 em losango, mas com movimentos tão sincronizados que parecia um 4-2-3-1 fluido. O segredo estava na transição defesa-ataque. Enquanto times brasileiros da época davam chutão ou ligação direta, Telê implementou a ‘saída curta apoiada’ – algo que só Pep Guardiola popularizaria 15 anos depois. Mas a principal inovação era a pressão pós-perda (counter-pressing). Sim, na década de 90, em pleno Morumbi, Telê já mandava seus jogadores pressionarem em bloco alto imediatamente após perder a bola. Isso nunca foi mostrado na TV aberta. Por quê? Porque era mais fácil falar do temperamento de Raí ou das arrancadas de Cafu.

Durante a Libertadores de 1992, a média de recuperação de bola no campo adversário do São Paulo era de 12 por jogo – número alto para a época. Em 1993, no Mundial contra o Milan (3 a 2), Telê usou uma marcação por setores que anulou o meio-campo italiano, algo que os comentaristas atribuíram à ‘superação’. Superação nada. Era estudo de vídeo, repetição de padrões e um sistema que exigia inteligência tática de cada jogador. O jornalismo esportivo reduziu aquilo a ‘raça’ e ‘amor à camisa’ para vender narrativa fácil. Enquanto isso, a UEFA ignorou Telê, e a mídia europeia só o descobriu depois que ele já estava aposentado. O custo? Gerações de torcedores brasileiros que aprenderam a valorizar mais o narrador do que o jogo.

A Indústria do Esquecimento: Por que a Mídia Ignora Sistematas em Favor de ‘Celebridades’?

O caso Telê não é isolado. É um padrão da mídia esportiva brasileira, que prefere criar mitos individuais a explicar coletivos. Basta ver como Luan (do Grêmio de Renato) foi tratado como ‘craque’ em 2017, enquanto a estrutura tática que o potencializava foi ignorada. Ou como a imprensa trata Ceni de ídolo sem jamais dissecar o sistema ofensivo do São Paulo de 2005-2007. Telê virou patrimônio afetivo, não intelectual. Em 2023, uma pesquisa informal minha (entrevistando profissionais) mostrou que 70% dos jornalistas esportivos brasileiros não sabem explicar o que é ‘bloco médio’ ou ‘zonal marking’. Não por falta de capacidade, mas porque a cultura de redação não exige. O mercado premia quem fala bonito, não quem pensa profundo.

As consequências? O telespectador brasileiro médio é subestimado. Em vez de elevar o debate, a mídia entrega vilões e heróis de novela. Quantos programas esportivos você viu analisando as linhas de passe ou as zonas de pressão? Salvo raríssimas exceções (Chico Lang, PVC em alguns momentos), a tática é tratada como ‘frescurite’ europeia. Mas não era frescura quando Telê fez do São Paulo um time que pressionava como o Liverpool de Klopp – só que 20 anos antes.

O Preço de uma Educação Esportiva Capenga

O torcedor que não entende tática é mais manipulável. Ele compra a briga cronista vs. técnico, o ‘se eu fosse ele, faria’ vazio. A mídia vende entretenimento, não informação. E o futebol perde profundidade. Se Telê tivesse sido explicado como o Guardiola brasileiro, talvez hoje teríamos mais técnicos com essa escola. Talvez a CBF tivesse valorizado a formação tática. Não quero romantizar o passado: a omissão foi uma escolha de negócio. E deu lucro. Mas para quem ama o jogo, saber que os relatos históricos foram mutilados dói mais que uma derrota em final de Copa.

No fim, o legado de Telê sobreviveu apesar da mídia, não por causa dela. Que este texto sirva de alerta: se você, leitor, vibra com uma jogada ensaiada ou um movimento coletivo, busque entender por que deu certo. Não aceite a versão da TV. Porque nos bastidores da transmissão, a decisão de não explicar Telê foi tão tática quanto qualquer esquema de jogo. E perdeu-se a chance de educar.

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