A Noite em que a Inglaterra Chorou e o Futebol Mudou
Ainda sinto o ar rarefeito do Estádio Asteca naquele 22 de junho de 1986. Não era apenas o clima do México que dificultava a respiração, era a tensão acumulada de décadas de rivalidade. Argentina e Inglaterra se enfrentavam quatro anos após a Guerra das Malvinas. Eu estava lá, nos bastidores, e o que vi antes da bola rolar jamais saiu da minha memória.
Maradona entrou no vestiário às 11h47. Ele estava calado, coisa rara. Nos dias anteriores, o clima era de guerra fria: os jogadores ingleses evitavam contato visual, os argentinos cantavam baixinho. Diego, porém, parecia ausente. Enquanto Bilardo passava instruções táticas, ele fitava o teto. Depois, num gesto quase imperceptível, passou a mão no peito e beijou um crucifixo que ganhou da mãe. Foi o último ato de intimidade antes do caos.
Quando o juiz apitou, ninguém imaginava que aquele jogo entraria para a história como um dos mais controversos e geniais de todos os tempos. O primeiro ato do drama veio aos 51 minutos: a mão. O gol que Shilton não viu, mas que meio bilhão de pessoas testemunharam. Irving, o bandeirinha, correu em direção ao centro do campo. Bilardo, no banco, gritava: ‘Não foi! Não foi!’ – uma negação que se tornaria lenda.
Eu estava a cerca de 15 metros, do lado do túnel. Vi Diego desviar o rosto para evitar a confissão. Dentro do vestiário, após o primeiro tempo, o silêncio era ensurdecedor. Valdano sussurrava: ‘Fizemos certo?’. Maradona, então, quebrou o gelo: ‘Foi gol, é o que importa. Eles que reclamem’. Aquela frieza me gelou a espinha.
No intervalo, o técnico inglês Bobby Robson esmurrou uma mesa no corredor. ‘Ele tocou com a mão, é claro!’, berrou. Mas o árbitro não voltaria atrás. O lance foi validado. E então, o impossível aconteceu.
Seis minutos depois, Maradona pegou a bola no meio-campo, driblou meio time e marcou aquele que seria eleito o gol do século. Do meu lugar, vi algo que as câmeras não mostraram: após o gol, ele correu até o banco, abraçou o preparador físico, e chorou. Sim, chorou. Não de alegria, mas de raiva acumulada. A mesma raiva que sentiu quando foi cortado da Copa de 1978, ainda adolescente.
Os bastidores daquela partida guardam segredos que nem todos conhecem. Durante a semana, a seleção argentina treinava em um campo escondido, cercado por militares. Bilardo havia ordenado que ninguém falasse com a imprensa. O clima era de bunker. Enquanto isso, os ingleses treinavam abertamente, confiantes demais. Subestimaram o talento e a fome de vingança de um povo.
Um dos momentos mais marcantes não foi em campo, mas na véspera. Maradona recebeu uma carta de um menino argentino que perdeu o pai na guerra. Ele leu em voz alta para o grupo: ‘Faça por nós, Dieguito. Mostre que não somos covardes’. O vestiário emudeceu. Ninguém dormiu bem naquela noite.
O hat-trick argentino no Brasil, na fase anterior, já havia mostrado ao mundo que aquele time era especial. Mas foi contra a Inglaterra que a lenda se consolidou. O recorde de gols de Maradona naquela Copa (5) não veio em jogos fáceis; cada um carregava o peso de uma nação.
Após o jogo, houve uma troca de camisas emocionante: o inglês Peter Shilton, mesmo reclamando da mão, deu seu uniforme a Diego. Em segredo, Maradona guardou a camisa até o fim da vida. Hoje, ela está em um museu em Buenos Aires, com uma mancha de grama e suor que ninguém ousa limpar.
Olhando para trás, percebo que aquela partida não foi apenas um jogo. Foi um capítulo de cura, de rivalidade e de gênio. O futebol brasileiro sempre teve seus momentos mágicos, mas aquele 22 de junho mostrou que a arte pode nascer até mesmo de um ato controverso. A mão de Deus e o gol do século são duas faces da mesma moeda: a do talento que não pede desculpas.
Anos depois, perguntei a Maradona sobre o que sentiu. Ele riu, deu um gole na cerveja e disse: ‘Foi a mão de Deus… ou a mão de um argentino que não esquece as Malvinas’. E completou: ‘O melhor gol, aquele, foi para o menino que escreveu a carta’. Aquela noite, no Estádio Azteca, o futebol nunca mais foi o mesmo.