A Noite em que o Futebol Chorou: O Caso do Jogo da Morte, 1942

Respira fundo, leitor. Prende o ar por um segundo. Agora imagina: 9 de agosto de 1942, Kiev ocupada pelos nazistas. O termômetro marca 30°C, mas o estádio Zenit está gelado. Não por causa do vento, mas pelo peso do que está prestes a acontecer. Os alemães montaram um jogo de exibição: sua equipe, o Flakelf, composta por militares da Luftwaffe, contra um bando de Untermenschen – padeiros, ferroviários, contadores – que ousaram vestir camisas vermelhas e vencer partidas anteriores. Eles são chamados de Start FC, ex-jogadores do Dínamo e do Lokomotiv Kiev que trabalham numa padaria para sobreviver. O comandante da SS exige: ou perdem, ou morrem. O que você faria?

Vou contar uma história que a FIFA prefere esquecer, que os livros didáticos resumem em três parágrafos. Uma história de suor, sangue e onze homens que decidiram que um chute pode ser mais poderoso que uma bala. O nome disso é o Jogo da Morte.

O Contexto: Kiev Sangra

Setembro de 1941. Os tanques alemães entram em Kiev. Em dois dias, 33.000 judeus são fuzilados em Babi Yar. A cidade se torna um cemitério a céu aberto. O futebol, como tudo, é proibido para ucranianos. Mas o esporte respira onde a esperança insiste. Em 1942, um padeiro chamado Mykola Trusevych, ex-goleiro do Dínamo, reúne colegas de profissão. Eles formam o Start FC e pedem autorização aos ocupantes para jogar. Os alemães, achando graça, permitem. Afinal, é uma distração para a plebe. O Start vence todos os jogos contra equipes locais de húngaros, romenos, alemães. A humilhação irrita os oficiais da SS. O comandante Friedrich Rogausch decide dar uma lição: organiza o jogo contra o Flakelf, a elite da Força Aérea alemã. Antes da partida, os jogadores ucranianos são levados a um canto. Um oficial nazista sussurra: “Se vencerem, morrem. Se perderem, talvez vivam.”

Tática e Terror: O Que Aconteceu em Campo

Não existem câmeras na arquibancada. Apenas 2.000 espectadores, muitos deles soldados. O que sabemos veio de relatos orais, de fragmentos de memória. O Start FC entrou em campo com camisas vermelhas – cor proibida, símbolo do comunismo. O Flakelf, branco imaculado. O apito inicial soa como um tiro de partida para a morte.

O jogo é bruto. Entradas duras, cotoveladas. O árbitro, alemão, marca faltas inexistentes contra os ucranianos, pênaltis claros contra. Aos 15 minutos, o Start já perde por 1 a 0, mas o centroavante Ivan Kuzmenko, um ex-ferroviário de 32 anos, empata de cabeça. A arquibancada silencia. Os soldados rosnam. No intervalo, os jogadores trocam olhares. O goleiro Trusevych, com hematomas no rosto, sussurra: “Não vamos nos ajoelhar.” Eles não se ajoelham. No segundo tempo, marcam mais dois gols. O placar final: 5 a 3 para o Start. Os alemães saem de campo bufando, mas antes, um oficial da Gestapo, Erich Koch, aponta para os jogadores: “Vocês assinaram suas sentenças.”

O Dia Seguinte: O Massacre

Não é lenda. Dias depois, os onze titulares são presos. Trusevych é torturado e morto a tiros. Kuzmenko, o artilheiro, e Nikolai Korotkykh, o zagueiro, são fuzilados em Babi Yar. Outros três morrem em campos de concentração. Dos que sobreviveram, muitos carregam cicatrizes físicas e emocionais até o fim da vida. O regime soviético, depois da guerra, tentou apagar a história: heróis nacionais que desafiaram os nazistas? Preferiam que fossem lembrados como vítimas, não como rebeldes.

A Regra que a FIFA Nunca Reconheceu

Você acha que isso é exagero? Em 1965, o governo soviético concedeu aos jogadores do Start a Ordem da Bandeira Vermelha, mas a medalha veio com um silêncio: a partida nunca foi oficializada. Em 1970, um filme soviético, Tretiy Taim (O Terceiro Tempo), contou a história, mas com mudanças – os alemães aparecem como capangas genéricos, o final é esperançoso. A verdade é que a FIFA, até hoje, não reconhece o Jogo da Morte como parte de sua história oficial. Muitos arquivos sumiram. Há quem diga que os originais da súmula foram queimados numa fogueira em Berlim.

Uma Micro-anedota dos Bastidores

Certa vez, num bar em Kiev, um senhor de 90 anos, olhos lacrimejantes, me contou que seu pai, um torcedor que assistiu ao jogo, nunca conseguiu falar sobre o que viu sem chorar. Ele repetia: “Eles jogaram como se cada drible fosse uma oração.” O velho, sentado num banco de madeira com uma garrafa de vodka pela metade, disse que o campo, após o jogo, ficou manchado de vermelho. Não de sangue, disse ele. De convicção.

O Legado: Futebol como Resistência

O Jogo da Morte não é apenas uma crônica de guerra. É a prova de que o esporte pode ser o último reduto da dignidade humana. O Start FC não tinha chuteiras de ponta, táticas inovadoras ou patrocínio. Tinha medo. E, contra tudo, transformou medo em coragem. Quando você vê um jogador contemporâneo cair em campo por uma simulação de falta, lembre-se de Kuzmenko, que seguiu em frente mesmo sabendo que o gol o levaria ao cárcere. Quando ouvir um técnico reclamar da arbitragem, imagine Trusevych defendendo pênaltis inventados com a respiração presa, sabendo que o erro não era apenas um ponto perdido.

O estádio Zenit hoje é um campo de treino, sem placas, sem monumentos. Mas, se você for lá, no silêncio da tarde, pode ouvir um eco: o grito de um gol que custou uma vida. O futebol é isso. Às vezes, o jogo não acorda na súmula. Ele acorda na alma.

Nota: Em 2012, uma placa foi finalmente colocada nas proximidades do local, com os nomes dos 11 jogadores. A FIFA, até hoje, não se pronunciou oficialmente. O silêncio, às vezes, é a pior forma de amnésia.

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