O relógio marcava 23h47 numa quinta-feira de janeiro de 2023, quando um segurança do Parc des Princes flagrou algo que não deveria ver. Dois homens, silhuetas contra a luz do túnel que leva ao vestiário visitante, discutiam em francês e português misturados. Um era Luis Campos, o superconsultor português contratado para reformular o elenco. O outro, Neymar Jr., o jogador mais caro da história. A cena durou menos de três minutos, mas selou o destino de um clube que fingia ser potência.
Aquela noite, o PSG havia vencido o Angers por 2 a 0, gol de Mbappé e outro de Messi. Neymar, no banco. Campos queria vendê-lo desde dezembro. Neymar sabia. O que a câmera de segurança não captou foi o sussurro: ‘Você não manda aqui, Português. Você aluga um apartamento.’
Esta é a crônica de como um diretor esportivo tentou implodir um mito e de como o mito quase implodiu um clube.
A Chegada do ‘Fazedor de Milagres’
Luis Campos nunca jogou futebol profissional. Sua carreira começou como olheiro do Porto, sob as asas de José Mourinho. Mas foi no Monaco que ele se consagrou: vendeu James RodrÃguez, Kondogbia, Martial, Fabinho, Bernardo Silva. Construiu um time campeão com jovens que ninguém conhecia. O apelido ‘Mago do Mercado’ pegou.
Em junho de 2022, o PSG o contratou como ‘conselheiro esportivo’. Na prática, ele tinha poder sobre contratações e renovações. Seu primeiro ato: tentar vender Neymar. ‘Ele é o sÃmbolo da era do glamour sem resultados’, disse Campos a um executivo do clube, segundo fonte dos bastidores. ‘Precisamos de atletas, não de artistas.’
O problema é que Neymar tinha contrato até 2027 e um salário de 50 milhões de euros lÃquidos por ano. Nenhum clube pagaria a multa de 220 milhões. Campos sabia. Mas ele queria mandar um recado: no PSG, a hierarquia mudou.
O Vestiário Partido
Para entender a crise, é preciso voltar a agosto de 2022. O PSG havia perdido o tÃtulo francês para o Lille na temporada anterior. A diretoria, sob pressão de Doha, decidiu profissionalizar a gestão. Christophe Galtier foi contratado como técnico. Campos, como cérebro das contratações.
Os primeiros sinais de rachadura apareceram no pré-temporada no Japão. Neymar chegou atrasado ao treino. Campos, em uma reunião com Galtier, sugeriu multá-lo. Galtier relutou. ‘Não posso começar assim’, disse o treinador. Campos insistiu: ‘Se não impor respeito, eles vão te devorar.’
A multa veio: 150 mil euros. Neymar pagou sem reclamar, mas contou aos amigos: ‘Esse português quer meu pescoço.’ A torcida, alimentada por vazamentos da diretoria, começou a vaiá-lo no Parque. ‘Neymar, vá jogar no Brasil’, cantavam em outubro.
O Preço da Vaidade
Campos, em paralelo, tentava montar um time à sua imagem: jovens, rápidos, obedientes. Contratou Vitinha por 40 milhões, Renato Sanches por 15, Mukiele por 12. Nenhum virou titular absoluto. Enquanto isso, Neymar produzia: 18 gols e 17 assistências em 29 jogos na temporada 2022-23, antes da lesão.
Mas os números não importavam. Campos queria provar que podia construir um time sem estrelas. ‘O futebol moderno é coletivo, não individual’, repetia em reuniões. O problema é que o PSG, desde a era QSI, sempre foi sobre individualidades: Ibrahimovic, Cavani, Mbappé, Neymar, Messi.
Em janeiro de 2023, Campos tentou vender Neymar para o Chelsea. O clube inglês ofereceu 80 milhões de euros. Neymar recusou. ‘Não vou sair assim’, disse a um amigo. ‘Quero que eles me paguem para ir.’
Foi então que ocorreu a cena da abertura. A discussão no túnel, o dedo apontado, a promessa de guerra. ‘Você vai ver quem manda aqui’, teria dito Neymar, segundo testemunha. Campos respondeu frio: ‘O dinheiro manda. E o dinheiro não é seu, é do Catar.’
O Dossiê da Queda
O ponto de ruptura veio em fevereiro de 2023, na derrota por 1 a 0 para o Bayern de Munique pelas oitavas da Champions. Galtier escalou Neymar como meia-esquerda, mas ele recuou para buscar jogo, deixando Mbappé isolado. Campos, do camarote, enviou mensagem para o técnico: ‘Tira ele.’ Galtier não tirou. O PSG perdeu.
No vestiário, após o jogo, Campos entrou sem ser chamado. Segundo relatos, ele xingou Neymar em francês: ‘Você é um problema, não uma solução.’ Neymar respondeu em português: ‘Vai tomar no cu, seu mercenário.’ O clima ficou insustentável. Galtier, entre os dois, não conseguiu apaziguar.
A diretoria de Doha interveio. Nasser Al-Khelaifi convocou uma reunião de crise. Mbappé, que até então evitava se meter, apoiou Campos: ‘Precisamos de disciplina.’ Messi ficou neutro, mas sabia que seria o próximo alvo. Neymar sentiu-se traÃdo pelos ‘amigos’.
O Legado de uma Crise
Como toda novela, a história teve um desfecho previsÃvel. Neymar se machucou em março, passou por cirurgia no tornozelo e perdeu o resto da temporada. O PSG foi eliminado pelo Bayern na volta (2 a 0). Galtier foi demitido em junho. Campos continuou no cargo, mas perdeu poder: as contratações de 2023-24 foram decididas por Doha, não por ele.
Neymar, em agosto de 2023, foi vendido ao Al-Hilal por 90 milhões de euros. Uma saÃda melancólica, sem a despedida que um jogador de seu calibre merecia. ‘O futebol europeu não aguenta mais egos’, disse Campos em entrevista ao L’Équipe, três meses depois. ‘Às vezes, precisamos de cirurgia para cortar o tumor.’
O tumor, no entanto, era metástase de uma gestão que nunca soube lidar com talento. O PSG perdeu seu jogador mais criativo, mas manteve a cultura de vaidades. Mbappé, agora a estrela máxima, também pediu para sair em 2024. O cÃrculo vicioso continua.
O que a câmera de segurança não mostrou naquela noite de janeiro foi o olhar de Neymar ao sair do túnel. Ele sabia que tinha perdido a batalha, mas não a guerra. No fundo, Campos também sabia: no futebol, as estrelas sempre vencem no fim. Só que, desta vez, o céu do Parc des Princes ficou mais escuro.
Hoje, quando ouço alguém falar em ‘profissionalização do vestiário’, lembro daquela conversa de três minutos. O futebol não é apenas tática ou dinheiro. É, acima de tudo, sobre quem segura o microfone no vestiário quando a câmera desliga.