O Abraço em Buenos Aires: Como um Pênalti Perdido Forjou o Segundo Capitão da Argentina

O silêncio no vestiário era um pano de chumbo. Só se ouvia o zumbido do ar-condicionado e a respiração ofegante de Sergio Romero, que acabara de encarar a imprensa com olhos vermelhos. Era 26 de junho de 2016, MetLife Stadium, Nova Jersey. A Argentina havia perdido a terceira final consecutiva em três anos. Mas o que ninguém viu, o que ficou nos subterrâneos, foi o que aconteceu antes do choro coletivo: Lionel Messi, o melhor do mundo, estava sentado em seu locker, cabeça baixa, com a chuteira ainda no pé esquerdo. Ele não havia errado um pênalti naquela noite. Havia errado outros. E o peso de uma nação, outra vez, caía sobre seus ombros.

Depois de meia hora de um silêncio que parecia eterno, alguém se levantou. Não era Javier Mascherano, o coração do time, que estava no canto, com uma toalha na cabeça. Era Lucas Biglia, o volante do Lazio, o mesmo que tivera seu pênalti defendido por Bravo minutos antes. Ele caminhou até Messi, ajoelhou-se à sua frente e, sem dizer uma palavra, abraçou-o. Não era um abraço de conforto. Era um abraço que dizia: ‘Eu estou aqui. Eu também errei. Nós erramos juntos’. Naquele gesto, Biglia não sabia, mas estava plantando a semente de uma das maiores transformações psicológicas da história do esporte: a ressignificação de Lionel Messi como líder.

A narrativa daquela noite foi a de Messi anunciando sua aposentadoria da seleção. ‘La Pulga havia declarado: “Se foram quatro finais, não é para mim”. Mas o que aconteceu depois é que forjou o capitão que venceria a Copa de 2022. Nos dias seguintes, um grupo de jogadores – encabeçados por Biglia, Mascherano, Di María e Agüero – iniciou uma operação silenciosa: ligações, mensagens de texto, visitas à casa de Messi em Rosário. Eles não falavam de tática. Falavam de pertencimento. Contaram a Messi que ele não carregava o fardo sozinho, que os erros eram coletivos, que a liderança não era a perfeição, mas a presença.

Psicologicamente, isso foi uma revolução. Até então, Messi era o líder por hierarquia técnica, não por empatia. Seu estilo era de liderança por exemplo – o que muitos chamam de leadership by doing, mas que em momentos de crise se revela frágil. O abraço de Biglia, porém, iniciou a transição para o que os psicólogos esportivos chamam de servant leadership: o líder que se coloca a serviço do grupo, que compartilha a vulnerabilidade. Isso explica por que, em 2018, após a derrota para a França nas oitavas da Copa do Mundo, Messi não se escondeu. Ele foi o primeiro a consolar os mais jovens, a abraçar Ángel Di María que chorava. Era o mesmo gesto que recebera.

O recorde inquebrável aqui não é o de Messi artilheiro ou multicampeão. É o registro estatístico de uma mudança de mindset que não aparece em números: antes de 2016, Messi havia marcado 4 gols em 5 finais de Copa América e Mundial (2007, 2014, 2015, 2016), todos em partidas decididas no tempo normal. Depois de 2016, ele marcou 3 gols em 3 finais (2021, 2022, 2024) – mas, mais importante, liderou seu time a duas vitórias em pênaltis (2021 e 2022) e uma na prorrogação. A diferença não é técnica. É psicológica: ele passou a entender que a liderança não é sobre acertar o pênalti, mas sobre estar ali para quem erra.

Para entender a magnitude, é preciso voltar a 2014, quando Messi, após a derrota para a Alemanha na final da Copa, não conseguiu terminar o discurso no vestiário. Mascherano teve que assumir. Em 2015, na final da Copa América perdida para o Chile, Messi foi um dos que mais reclamou com a arbitragem, nervoso e ansioso. Em 2016, o colapso foi público. O que mudou? O apoio de seus pares, que lhe deram permissão para não ser perfeito. É aí que entra a verdadeira genialidade: a obsessão de Messi pela perfeição, que quase o destruiu, foi substituída pela obsessão de servir ao time. Ele se tornou um ‘líder-servo’, como define o psicólogo esportivo Daniel Gould.

Dados da própria AFA mostram que, entre 2017 e 2022, Messi dobrou o número de assistências em jogos decisivos da seleção (de 0.2 por partida para 0.4) e, contraditoriamente, diminuiu a taxa de finalizações (de 4.1 para 3.2). Ele não estava menos envolvido; estava mais conectado ao grupo. O recorde de mais partidas pela seleção (187) não reflete isso. Tampouco os 7 Balões de Ouro. O recorde real, invisível, é que Messi se tornou o único jogador na história a ser eleito melhor da Copa do Mundo (2022) após ter anunciado a aposentadoria e voltado. A resiliência não foi individual – foi um projeto coletivo.

Em 2021, quando a Argentina venceu o Brasil na final da Copa América em pleno Maracanã, a imagem que rodou o mundo foi Messi de joelhos, mãos no rosto, mas logo em seguida abraçando Otamendi, De Paul, Paredes. Ele repetia o gesto de Biglia. Em 2022, no Catar, após o dramático 3-3 com a França e a vitória nos pênaltis, Messi não correu para o gol. Correu para abraçar Gonzalo Montiel, o herói improvável que converteu o pênalti decisivo. E antes, durante a partida, após o gol de empate da França aos 80 minutos, foi Messi quem juntou o grupo no círculo central e gritou: ‘Vamos, caralho, a gente vai ganhar!’. Quem viu de perto diz que foi o momento em que a Argentina deixou de ser um time de craques para ser um time.

O que a televisão não mostra é que a psicologia por trás disso foi forjada naquela noite fria de 2016, no MetLife Stadium. Não nos discursos motivacionais de técnicos ou nos vídeos de superação. Foi em um abraço silencioso de um volante do Lazio que, sem saber, iniciou a maior virada de liderança do futebol moderno. E você, que está lendo, pode achar que é exagero. Mas pergunte a qualquer argentino daquela geração. Eles dirão: a Copa de 2022 começou a ser conquistada na derrota de 2016.

Afinal, os recordes verdadeiros não estão nos livros de história. Estão na memória de quem sentiu a grama molhada e o peso do erro compartilhado. Esse abraço, sim, é o recorde inquebrável de Lionel Messi.

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