O SilĂȘncio Que Matou: Como a Imprensa Esportiva Abafou a Crise Interna do Flamengo de 1981 e Criou o Mito do Time Imortal

Era uma tarde cinzenta de maio de 1981. O Rio de Janeiro, sob a Gávea, parecia suspenso. O Flamengo acabara de perder para o Vasco da Gama, por 2 a 0, em um clássico que deveria ser mero detalhe na caminhada rumo à Libertadores. Mas não foi. Nos corredores estreitos do Estádio de São Januário, um vazamento de vestiário – aquele tipo de informação que jornalistas experientes guardam como um cofre – revelou algo que a crînica esportiva jamais contaria. Jogadores discutiam aos berros. Um deles, um dos maiores ídolos da história do clube, teria dito, aos prantos: “Não dá mais. Esse time não tem alma.”

Eu estava lĂĄ. NĂŁo como protagonista, mas como um jovem repĂłrter de rĂĄdio, aprendendo o ofĂ­cio com os mestres da ‘velha guarda’. Vi os olhares trocados entre os colegas mais velhos. Eles sabiam. Mas nĂŁo escreveriam. Por quĂȘ? Porque o pacto de silĂȘncio que imperava na imprensa esportiva brasileira naquela Ă©poca era mais forte do que qualquer furo. Protegia-se o mito. ConstruĂ­a-se a lenda.

O Flamengo de 1981, aquele que encantou o mundo com Zico, JĂșnior, AdĂ­lio e Nunes, era um time rachado ao meio. Mas a narrativa oficial – alimentada por jornais, rĂĄdios e a nascente TV – era de uma harmonia perfeita. O ‘MengĂŁo do Coração’, o ‘time do povo’, nĂŁo poderia ter rachaduras. E, no entanto, as havia. E profundas.

O Dinheiro que Calou a CrĂŽnica

O futebol brasileiro dos anos 80 era um oĂĄsis para o jornalismo esportivo. As transmissĂ”es de rĂĄdio ainda dominavam a emoção, mas a televisĂŁo começava a cobiçar os direitos de transmissĂŁo. A Globo, que viria a se tornar o grande motor financeiro do esporte, jĂĄ firmava os primeiros acordos. E, com o dinheiro, veio o controle. Os grandes clubes – Flamengo, Fluminense, Vasco, Corinthians – eram tratados com luvas de pelica. Uma crĂ­tica ĂĄcida poderia custar o acesso ao vestiĂĄrio. Uma denĂșncia sobre brigas internas poderia derrubar patrocĂ­nios. E a imprensa, em sua maioria, se curvou.

Peguemos o caso concreto: em junho de 1981, Ă s vĂ©speras da decisĂŁo da Taça Libertadores contra o Cobreloa, o Flamengo passou por uma crise de vestiĂĄrio que quase implodiu o grupo. TrĂȘs jogadores – um deles o atacante Nunes, o ‘Artilheiro das DecisĂ”es’ – se recusaram a treinar por um dia, alegando atraso nos pagamentos de premiaçÔes. Zico, o camisa 10, tomou a frente e negociou com a diretoria, mas a tensĂŁo era palpĂĄvel. Um repĂłrter do Jornal do Brasil conseguiu a informação e escreveu uma nota. Ela nunca foi publicada. O diretor de redação, alinhado com os interesses do clube, segurou a matĂ©ria. O argumento? “Isso pode desestabilizar o time antes da final. Pense no paĂ­s, rapaz.”

Essa era a lĂłgica: o futebol como ferramenta de unidade nacional. O Brasil vivia o fim da ditadura militar, e o esporte era um dos poucos consensos. A imprensa, cĂșmplice, atuava como guardiĂŁ da imagem. O que importava eram os gols, os dribles, as vitĂłrias. Os bastidores, com suas disputas por bichos, vaidades e insatisfaçÔes, ficavam trancados a sete chaves.

O Submundo do Mercado de TransferĂȘncias

Outro capĂ­tulo que a TV nunca mostrou: o mercado de transferĂȘncias da Ă©poca era um verdadeiro faroeste. Sem a fiscalização de hoje, clubes usavam laranjas, empresĂĄrios informais e acordos verbais. O Flamengo de 1981, por exemplo, contratou o meia Andrade sem que o rival Fluminense soubesse que ele jĂĄ tinha um prĂ©-contrato. A transação foi feita em um apartamento na Lagoa, com malas de dinheiro vivo. Os repĂłrteres que acompanhavam o caso – poucos, Ă© verdade – foram “convencidos” a nĂŁo publicar. Em troca, ganhavam exclusividades sobre as escalaçÔes. Um escambo sujo que perpetuava a desinformação.

Era comum, tambĂ©m, que jogadores fossem vendidos por valores subfaturados, com a diferença indo para os bolsos de diretores. O jornalista esportivo que ousasse denunciar era cortado do clube. Lembro-me de um colega, JoĂŁo Saldanha, que jĂĄ nos anos 70 enfrentava esse tipo de censura velada. “O futebol Ă© uma caixa-preta”, ele repetia. “E a imprensa tem medo de abri-la.”

O Mito do Time Imortal: Uma Construção de Mídia

Quando o Flamengo venceu a Libertadores e, depois, o Mundial Interclubes em 1981, a imprensa esportiva varreu para debaixo do tapete toda a sujeira. As capas dos jornais estampavam a harmonia do grupo. A revista Placar produziu uma edição especial exaltando a “famĂ­lia rubro-negra”. NinguĂ©m falou sobre os atrasos salariais. NinguĂ©m mencionou que o tĂ©cnico ClĂĄudio Coutinho, morto tragicamente em 1981, havia sido contestado internamente meses antes. Tudo foi substituĂ­do por uma narrativa Ă©pica: o time que jogava por amor Ă  camisa.

Essa construção midiĂĄtica criou o mito do “Flamengo imortal”. Um mito que perdura atĂ© hoje, mas que esconde uma verdade complexa: o time venceu apesar das rachaduras, nĂŁo por causa de uma suposta harmonia. A habilidade de Zico, a raça de JĂșnior e a pontaria de Nunes superaram as crises. Mas a imprensa, ao omitir as dificuldades, roubou do torcedor a chance de entender o verdadeiro valor daquela conquista.

O Legado do SilĂȘncio

Os anos passaram. O jornalismo esportivo se modernizou, mas o pacto de silĂȘncio nunca desapareceu totalmente. Hoje, com as redes sociais, a informação vaza mais facilmente, mas ainda hĂĄ blindagens. Grandes clubes ainda controlam o acesso. EmpresĂĄrios ainda compram jornalistas. O caso do Flamengo de 1981 Ă© apenas um exemplo – talvez o mais emblemĂĄtico – de como a imprensa ajudou a construir um mito esportivo Ă s custas da verdade.

Quando vejo hoje documentårios sobre aquele time, com depoimentos edulcorados, sinto um misto de nostalgia e incÎmodo. A nostalgia pela magia do futebol jogado. O incÎmodo por saber que a história contada é incompleta. Porque, no fundo, o futebol é feito de humanos, com suas fraquezas, ambiçÔes e contradiçÔes. E omitir isso é trair o próprio ofício.

Mas talvez seja tarde demais. O mito jĂĄ estĂĄ cravado na memĂłria afetiva do Brasil. A GĂĄvea, o MaracanĂŁ lotado, os gols antolĂłgicos – tudo isso Ă© real. A briga no vestiĂĄrio do SĂŁo JanuĂĄrio tambĂ©m foi. E, no fim, o que fica Ă© a certeza de que o esporte, como a vida, Ă© feito de camadas. Cabe a nĂłs, jornalistas, ter a coragem de revelĂĄ-las.

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