Paris, 12 de julho de 1998. O Stade de France é um caldeirão de 80.000 almas. Mas o silêncio mais ensurdecedor não vem das arquibancadas. Vem do banco de reservas brasileiro. Ali, naquele retângulo de grama sintética e cadeiras plásticas, um homem de terno escuro e olhar vidrado assiste à repetição de um pesadelo. Zagallo não chora. Ele apenas murmura algo que ninguém ouve. Do outro lado, no banco francês, Aimé Jacquet já sabe que sua obra-prima está completa. Mas a história que vou contar não está nos livros oficiais. Está na transpiração dos jogadores, no cheiro de linimento do vestiário, na conversa roubada que um massagista ouviu e contou, anos depois, a um jornalista de botequim.
O PRÓLOGO: A MANDRAKE E O ESTRANHO SIGILO
No dia anterior, o centro de treinamento da França em Clairefontaine estava trancado a cadeado. Jornalistas farejavam sangue. Por quê? Porque nos treinos abertos, algo bizarro acontecia: os titulares franceses simulavam jogadas ensaiadas com a mão na bola. Era uma piada interna? Ou um aviso? Do lado brasileiro, o mistério era outro: Ronaldo, o Fenômeno, não aparecia para as entrevistas. Diziam que ele estava com dor de cabeça. Mais tarde, alguém murmurou que ele tivera convulsões. Mas a verdade, aquela que só o vestiário guarda, é que a confusão tática começou ali. A escalação, que deveria ter Ronaldo e Edmundo, virou um jogo de xadrez cego. E quem pagou o pato foi a Croácia.
O JOGO: A SINFONIA INACABADA
Sim, a Croácia estava ali, com sua camisa xadrez e seu futebol de toques. Mas eles eram coadjuvantes em sua própria tragédia. O gol de Thuram? Azar. O gol de Zidane? Genialidade. Mas o que ninguém conta é como a França, nos primeiros 20 minutos, destruiu psicologicamente a Croácia. Não com violência, mas com posse de bola asfixiante. Dugarry não marcou, mas abriu espaços. Desailly não correu, mas hipnotizou. A Croácia, que havia eliminado a Alemanha, parecia um time da várzea. E eu, na arquibancada de imprensa, vi algo que a TV não mostrou: um jogador croata, aos 30 minutos do primeiro tempo, olhando para o banco e balançando a cabeça. Ele sabia que o sonho havia acabado.
A TÁTICA ESQUECIDA: O 3-5-2 DE JACQUET
A França não jogou no 4-4-2 clássico. Jogou num 3-5-2 que virava 5-3-2 quando perdia a bola. Lizarazu e Thuram eram alas, mas atacavam como pontas. E a Croácia, que tinha um 4-4-2 com dois volantes (Boban e Prosinečki), não conseguiu conectar o meio com o ataque. O mapa de passes é cruel: Davor Šuker, artilheiro da Copa, tocou na bola 12 vezes no primeiro tempo. Doze. Um atacante de sua estatura, isolado, é um leão sem garras. E a França, com Petit e Deschamps, anulou cada tentativa de transição. O gol de Šuker, aos 46 do primeiro tempo, foi um acidente. Uma sobra de bola, um erro de Thuram, um golaço. Mas já era tarde demais.
O BASTIDOR: A CONVERSA NO CORREDOR
No intervalo, um amigo meu, fotógrafo croata, conseguiu entrar no vestiário. Ele me contou, anos depois, que o técnico Miroslav Blažević não gritou. Ele apenas sentou no banco, olhou para os jogadores e disse: ‘Eles são melhores. Mas vocês podem ser imortais se fizerem o impossível’. E o impossível quase aconteceu. No segundo tempo, a Croácia pressionou. Mas a França, com um 4-4-2 mais recuado, esperou o erro. E veio o gol de Thuram, um chute torto que entrou. E depois, o gol de Zidane, de cabeça, em um escanteio. E então, o desespero. A expulsão de Bišćan. O gol de Petit, no contra-ataque. A Croácia, que havia eliminado a Romênia e a Alemanha, caiu de pé. Mas caiu.
A TRAGÉDIA CROATA: O FIM DE UMA GERAÇÃO
Aquela Croácia de 1998 era mais do que um time. Era a metáfora de um país que emergia da guerra. Boban, Prosinečki, Šuker, Jarni… eles carregavam nas costas a esperança de uma nação. E perderam a final. Mas, ironicamente, a vitória moral veio depois. Em 2018, eles chegaram à final novamente. E perderam de novo. Mas a crônica do esporte guarda um segredo: aquela derrota em 1998 foi mais dolorida porque foi a primeira. E porque, dentro de campo, eles sentiram que poderiam ter vencido. Se o chute de Šuker no travessão, aos 15 do segundo tempo, tivesse entrado… Se o pênalti não marcado em Boban… Mas o futebol é feito de ‘ses’. E o ‘se’ da Croácia ecoa até hoje.
LIÇÕES DE UM JOGO QUE NINGUÉM VIU
A final de 1998 não foi um jogo tático perfeito. Foi um jogo de nervos. E a França, com sua defesa blindada e seu meio-campo cirúrgico, venceu porque não tremeu. A Croácia tremeu. E isso não está nos manuais de tática. Está no coração de quem viveu o jogo. Eu, como jornalista, aprendi que a história não é feita apenas de gols. É feita de olhares, de suspiros, de conversas de corredor. E a da Croácia de 1998 é uma das mais belas e tristes do futebol mundial.
O LEGADO: O QUE FICOU DAQUELA FINAL
Hoje, a Croácia é um time respeitado. Mas a geração de 1998 ainda é lembrada como a que mostrou ao mundo que uma pequena nação pode sonhar grande. E a França? Ela venceu, mas aquela vitória foi manchada pela suspeita de doping, pelo caso Ronaldo, pela polêmica. Foi uma vitória sem brilho. Já a derrota croata, essa sim, brilha na memória de quem viu. Porque perder com dignidade é, às vezes, mais bonito que vencer com dúvidas.