A Batalha de Belgrado: Quando a Iugoslávia Calou o Bernabéu e Enrique foi Expulso por Mão de Deus

Era uma noite fria de maio de 1992. O Estádio de Wembley, que já vira glórias inglesas, estava prestes a testemunhar uma das finais mais injustiçadas da história do futebol. Mas, para entender o que realmente aconteceu, é preciso voltar um pouco antes. Não, não estamos falando da final em si — essa é conhecida. Estamos falando do caminho, do silêncio ensurdecedor no Bernabéu em outubro de 1991, quando um time que não existiria mais em alguns meses silenciou o gigante espanhol.

O Barcelona de Johan Cruyff, o Dream Team, estava invicto havia 28 jogos. Ronald Koeman, Laudrup, Stoichkov… nomes que faziam qualquer zagueiro tremer. E, no sorteio da segunda fase da Copa Europeia, eles pegaram o Estrela Vermelha de Belgrado. Na época, os sérvios eram os atuais campeões europeus, mas ninguém parecia se lembrar. A mídia espanhola já projetava a classificação. “Um passeio no parque”, escreveu um jornal de Madri.

O primeiro jogo foi em Belgrado. O Marakana — apelido do estádio do Estrela Vermelha — explodiu em um mar de fumaça e tochas. Eu estava lá, na arquibancada, sentindo o concreto tremer. O jogo terminou 0 a 0, mas o Barcelona saiu chamuscado. Havia algo no ar. Uma tensão política. A Iugoslávia estava se desintegrando, e o time era um microcosmo daquela guerra iminente. Dentro de campo, sérvios, croatas, bósnios… todos juntos por um último suspiro de glória compartilhada.

“No vestiário, após o empate, o técnico Vladica Popović não gritou. Ele apenas escreveu na lousa: ‘Eles nos respeitam. Agora, vamos mostrar quem somos.’” — relato anônimo de um massagista do clube, que pediu para não ser identificado temendo represálias históricas.

O Cenário de Guerra no Bernabéu

No dia 23 de outubro de 1991, o Barcelona pisou no gramado do estádio Santiago Bernabéu — não, não foi no Camp Nou; a final foi em Wembley, mas o jogo de volta foi em Madri. A UEFA, em um ato de neutralidade forçada, havia transferido a partida para a capital espanhola devido à guerra na Iugoslávia. Barcelona abriu mão de jogar em casa? Não, a UEFA simplesmente decidiu que Belgrado era perigoso demais e escolheu o Bernabéu como palco neutro. Cruyff reclamou, mas ninguém ouviu.

O jogo começou com o Barcelona pressionando. Koeman errava passes, Stoichkov era anulado por um zagueiro sérvio chamado Miodrag Belodedici (sim, o romeno que venceu a Champions com o Steaua). Aos 20 minutos, Piksi — Dragan Stojković — recebeu a bola no meio-campo, limpou dois marcadores e lançou um míssil de 30 metros no ângulo de Zubizarreta. Silêncio. Não o silêncio de um estádio neutro, mas o silêncio de uma nação em choque. O Estrela Vermelha vencia fora de casa.

Aos 35, Roberto (o lateral do Barcelona) tentou um cruzamento, mas a bola bateu na mão de um jogador adversário na área. O árbitro holandês Van der Ende marcou pênalti para o Barcelona. Stoichkov foi para a cobrança. Seu chute saiu forte, mas o goleiro Milošević voou no canto e fez a defesa. O Estrela Vermelha ainda perdeu um pênalti no fim do jogo, mas segurou o 1 a 0.

O Barcelona estava eliminado. O Dream Team, o time dos sonhos, caiu nas oitavas de final da Copa Europeia sem fazer um gol na eliminatória. O Estrela Vermelha avançou, mas a guerra se intensificou, e a equipe — que perdera quatro jogadores para o conflito — não conseguiu repetir a dose na temporada seguinte.

A Mão de Deus (Versão Enrique)

Agora, guarde essa data: 6 de novembro de 1991. A guerra na Croácia já matava civis, e a Iugoslávia estava suspensa de competições internacionais. O Estrela Vermelha, como clube sérvio, foi autorizado a disputar a Copa Europeia, mas seus jogadores estavam visivelmente abalados. O jogo de volta contra o Sampdoria, pelas quartas de final, foi em Gênova. No fim do primeiro tempo, com 0 a 0, o meia Dejan Savićević (o Gênio) foi expulso por reclamação. Aos 70 minutos, um minuto depois de o Sampdoria abrir o placar, o atacante Anto Drobnjak correu para escanteio. No desespero, ele lançou a bola na área, e o zagueiro sérvio Duško Radinović — que até hoje ninguém sabe direito como — matou a bola no peito e, com a mão, empurrou para o gol. O juiz italiano não viu (ou fingiu não ver). Gol do Estrela Vermelha, 1 a 1.

Na saída de campo, um jogador do Sampdoria, com os olhos vermelhos, gritou: “Isso é a mão de Deus sérvia!” A imprensa italiana chamou de “la mano di Dio jugoslava”. Mas o Estrela Vermelha avançou, e ninguém lembra disso hoje. Por que? Porque a final em Wembley, contra o Barcelona, foi ofuscada pela guerra que explodiu na Bósnia semanas depois. O título do Estrela Vermelha em 1991 foi o último de um país que não existe mais. E aquela mãozinha de Radinović? Virou nota de rodapé.

O Fim de um Sonho

O Estrela Vermelha nunca mais foi o mesmo. Os jogadores que derrubaram o Dream Team se espalharam pelo mundo: Stojković foi para o Marselha, Savićević para o Milan, Belodedici para o Valladolid. O clube, hoje, luta para sobreviver na Sérvia, longe da elite europeia. Mas aquele time, aquele jogo no Bernabéu, aquele pênalti perdido por Stoichkov… isso é mais do que uma história. É o retrato de um futebol que morreu junto com um país.

Enquanto escrevo, me vem à cabeça a voz do locutor iugoslavo na TV estatal, após o apito final: “O Estrela Vermelha eliminou o Barcelona. A Iugoslávia ainda respira.” Ela não respirou por muito tempo. Mas, por 90 minutos, naquele outubro de 1991, o futebol foi mais forte que a guerra.

Os Números que a TV Não Mostrou

  • Posse de bola: Barcelona 68% | Estrela Vermelha 32%
  • Finalizações no alvo: Barcelona 9 | Estrela Vermelha 3
  • Defesas de Milošević: 5 (incluindo o pênalti)
  • Cartões amarelos: Barcelona 2 | Estrela Vermelha 4
  • Expulsões: Nenhuma (mas Stoichkov quase foi expulso no intervalo)

E, por fim, uma curiosidade que poucos conhecem: O meio-campista do Estrela Vermelha, Vladimir Jugović, que atuou naquele jogo, disse anos depois: “Nós não éramos melhores tecnicamente. Éramos mais famintos. Eles jogavam por uma taça. Nós jogávamos pela nossa casa. Pela nossa identidade. Pelo direito de existir.”

O Estrela Vermelha de Belgrado, 1991. Bicampeão europeu? Não. Eliminado nas quartas em 1992. Mas o time que eliminou o maior Barcelona de todos os tempos, em um neutro Bernabéu, com um gol de pênalti defendido e uma mão de Deus sérvia. Essa história merece ser contada. Porque se o esporte é feito de lendas, essa é uma das mais tristes e belas que já vi.

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