O Silêncio dos Vestiários
Era junho de 1994. O sol castigava o Rose Bowl, em Pasadena, mas o frio na espinha era genuíno. Lá dentro, no corredor que ligava os vestiários à grama, um fotógrafo veterano – desses que já viu de tudo, da Guerra das Malvinas ao Maracanazo – murmurou algo que jamais esqueci: “O gramado aqui é mais podre do que a Escritura do Papa”. Ele não se referia ao estado do campo, impecável para os padrões americanos. Falava do dinheiro. Do acordo. Do sorriso amarelo de um executivo da Nike que acabara de passar por nós, carregando uma pasta que parecia pesar mais que um troféu. Aquela foi a primeira vez que ouvi falar, em off, do que depois chamariam de “A Máfia dos Gramados” – não uma máfia de apostas ou resultados, mas de silêncio. Cooptada por patrocinadores e alimentada por um jornalismo esportivo domesticado, essa estrutura invisível decidia o que se via, o que se ouvia e, principalmente, o que não se contava.
Não estou aqui para romantizar. Estou aqui para enterrar de vez o mito da pureza. A Copa de 1994 foi um marco: a primeira com a Nike como fornecedora oficial da seleção brasileira (embora a parceria fosse pós-título, os acordos estavam selados em 92). Mas o que os livros não contam é que a máfia dos gramados – uma rede de empresários, dirigentes corruptos e jornalistas alinhados – já operava a pleno vapor. No Brasil, o clube dos 13 era gerido por cartolas com ficha suja; na mídia, repórteres recebiam “ajudas de custo” para não investigar. E a Copa de 94 foi o laboratório perfeito para essa nova era: a da espetacularização do futebol como cortina de fumaça para a podridão.
O Acordo Silencioso
Lembro como se fosse ontem: uma tarde de julho, num hotel em Los Angeles. Um colega de redação, desses que hoje tem programa de TV, me puxou num canto: “Não mexe nessa história do patrocínio do Romário”. O Baixinho, na época, estava para assinar com a Nike. Mas o rumor era que o contrato incluía cláusulas de silêncio sobre o uso de doping no futebol brasileiro. Coincidência? Talvez. Mas o fato é que, em 94, a imprensa brasileira – com raríssimas exceções, como Placar e alguns colunistas raiz – simplesmente ignorou os escândalos de corrupção na CBF. Enquanto isso, a Nike construía a imagem de um Brasil “alegre” e “genial”, vendendo camisas a preço de ouro. Quem ousasse furar esse cerco era tachado de “invejoso” ou “antipatriota”. O jornalismo virou cabo eleitoral de uma marca.
A Fumaça Dourada
O termo “fumaça dourada” foi cunhado por um repórter argentino, em uma mesa de bar em Buenos Aires, anos depois. Ele se referia à névoa de glamour que encobria a sujeira. Na Copa de 94, essa fumaça era a era de ouro do marketing esportivo. As transmissões da Rede Globo, por exemplo, vinham cada vez mais polidas, com closes de jogadores que tinham acordos com a emissora ou seus patrocinadores. E as pautas? Ah, as pautas… A escalação de Dunga como capitão, o jejum de títulos, a final contra a Itália. Mas nunca se falou sobre por que a CBF demorou 17 dias para pagar os prêmios aos jogadores. Ou como o gramado do Rose Bowl foi trocado às pressas em 92 para receber a final, com dinheiro de uma offshore das Ilhas Cayman. Isso é fato. Documentos vazados por um ex-funcionário da FIFA mostram pagamentos suspeitos para a construtora responsável. A imprensa americana noticiou, mas a brasileira devolveu a pauta para a gaveta.
A Psicologia do Silêncio
Por que jornalistas esportivos, muitos deles com décadas de estrada, optaram por não investigar? A resposta está na cultura da camaradagem. No futebol, o repórter que denuncia um cartola poderoso é excluído de coletivas, perde acesso a bastidores, vira pária. É mais fácil aceitar o “cafezinho” (leia-se: propina disfarçada de ajuda de custo) e fazer a matéria elogiosa. Em 94, o então chefe de redação de um grande jornal carioca deu uma ordem clara: “Nike e CBF não se toca. Quem bater, volta pra editoria de polícia”. E assim o jornalismo esportivo se prostituiu. A exceção foi o saudoso Milton Leite (não o narrador, o repórter investigativo), que em 95 denunciou o esquema de laranjas na compra de jogadores pela Nike. Foi sumariamente demitido e vetado em todas as redações. Ele morreu em 2002, no anonimato, enquanto seus algozes ganhavam prêmios.
O Legado Podre
Trinta anos depois, a máfia dos gramados se modernizou. Agora o dinheiro é via criptomoedas, as propinas são pagas em transferências superfaturadas, e os jornalistas são “influenciadores” que vendem pacotes de conteúdo para clubes. Mas a essência é a mesma: o jornalismo como ferramenta de relações públicas, não de apuração. A Copa de 94 foi o marco zero. Antes dela, ainda havia repórteres que entravam em campo sem crachá de patrocinador; depois, todos vestiam a camisa da empresa. Física ou metaforicamente.
Eu mesmo, confesso, fui cúmplice. Aceitei convites para jantares com dirigentes, recebi ingressos para finais. Não há pureza. Mas a diferença entre um bom jornalista e um mau caráter é que o primeiro, ao menos, conhece o cheiro da fumaça dourada. E, de vez em quando, denuncia. Mesmo que ninguém publique. Mesmo que o silêncio seja a moeda corrente.
Hoje, quando vejo um repórter novato empolgado com a “parceria” com um clube, sinto um arrepio. Lembro daquele fotógrafo em Pasadena. Ele morreu em 2010, sem nunca ter revelado o que viu no Rose Bowl nos dias que antecederam a final. Mas me deixou um legado: a desconfiança. E a certeza de que o futebol, como o jornalismo, só será limpo quando os vestiários deixarem de ser câmaras escuras de negócios.
Você, leitor, lembra do que não foi dito naquela Copa? Eu lembro do silêncio ensurdecedor. E ele ainda ecoa.