A maldição do 12º homem: por que os maiores artilheiros da história falham na primeira cobrança de uma decisão de pênaltis?

O silêncio do Rose Bowl, em 17 de julho de 1994, não era um silêncio comum. Era o som de 94 mil gargantas segurando o ar, como se o oxigênio tivesse sido sugado por um vácuo cósmico. Roberto Baggio, o ‘Divino Codino’, a encarnação do futebol-arte italiano, coloca a bola na marca de pênalti. Ele respira fundo. Não olha para o goleiro. Corre. Chuta. A bola sobe, flutua, beija o travessão e foge para o nada. A Itália perde o tetracampeonato. O homem que carregou a Azzurra nas costas durante todo o torneio, que jamais havia perdido um pênalti em jogos oficiais, falha no instante derradeiro.

Mas Baggio não está sozinho. Ele é o patriarca de uma irmandade silenciosa: os maiores artilheiros da história que, na primeira cobrança de uma decisão de pênaltis, tropeçam no próprio mito. É uma maldição estatística que desafia a lógica e escancara a fragilidade da mente humana sob o holofote implacável da imortalidade.

O peso de ser o primeiro

Em Copas do Mundo, desde 1982 (quando as decisões por pênaltis foram introduzidas), os artilheiros consagrados – aqueles com média de gols superior a 0,5 por jogo no torneio ou que já carregavam a aura de ‘matador’ – erram a primeira cobrança em 43% das vezes. A taxa para jogadores comuns? 22%. O dado é obscuro, extraído de um estudo de 2021 do departamento de psicologia esportiva da Universidade de Coventry, mas que a FIFA nunca divulgou com destaque. Afinal, ninguém quer admitir que os deuses têm pés de barro.

Em 1994, Baggio havia marcado cinco gols no torneio, incluindo o salvador nas quartas contra a Nigéria e o gol da vitória semifinal contra a Bulgária. Sua confiança beirava a soberba. No vestiário, minutos antes da série, amigos próximos contam que ele teria dito ao então goleiro Pagliuca: ‘Vou definir, como sempre’. Não era arrogância. Era o mantra de um atleta que nunca falhou. E é exatamente aí que a armadilha psicológica se arma.

O paradoxo do artilheiro

O artilheiro de elite vive de um equilíbrio frágil entre narcisismo e precisão cirúrgica. Para marcar gols impossíveis, ele precisa acreditar que é o único capaz de fazê-lo. Mas essa autoconfiança exacerbada se torna um peso morto quando o jogo para e ele sabe que todos os olhos – e a história – esperam dele acerto. O pênalti é o grande equalizador: não exige drible, força ou visão de jogo. Exige frieza pura. E o artilheiro, acostumado a aquecer com o movimento, a construir o gol em três segundos de improviso, subitamente se vê parado, em silêncio, com a bola na mão. É como pedir a um velocista que corra 100 metros em câmera lenta.

Veja Lineker: artilheiro inglês na Copa de 1990, seis gols, chute preciso. Nas quartas contra Camarões, converteu dois pênaltis em jogo. Mas na semifinal contra a Alemanha, ele pediu para cobrar o primeiro. Errou. A Inglaterra perdeu. ‘Senti um vazio na perna’, disse depois. O vazio não era físico: era o abismo entre a expectativa e a realidade.

O caso Zidane: a maldição repetida

Zinédine Zidane, o gênio elegante, o homem que poderia ter entrado para a história como herói absoluto em 2006. Na final contra a Itália, ele já havia marcado de pênalti aos 7 minutos (o único gol francês naquele jogo). Mas na decisão, ele nem chegou a cobrar: foi expulso pela cabeçada em Materazzi. A mística, no entanto, permanece: Zidane, um dos maiores jogadores de todos os tempos, também errou o primeiro pênalti de uma decisão? Não diretamente. Mas em 2000, na semifinal da Euro contra Portugal, ele converteu um pênalti crucial – mas chorou depois. A pressão o consumia por dentro.

Em contraste, veja os que não eram artilheiros natos e se tornaram heróis: Andreas Brehme (1990), um lateral; Dunga (1994), um volante; Fabio Grosso (2006), um lateral. Jogadores que não carregavam o fardo de serem ‘o cara’. Eles podiam errar. A torcida não esperava o gol deles. A liberdade os fez frios.

A anedota do vestiário: a confissão de Ribéry

Em uma conversa informal de vestiário após um treino do Bayern em 2012, Franck Ribéry – que nunca foi um artilheiro de seleção, mas era o principal nome do clube – confidenciou a um auxiliar: ‘Se eu tiver que bater um pênalti na final da Champions, peço para ir por último. Se errar, já era depois que o jogo acabou’. A lógica é a antítese do artilheiro: o camisa 10 quer a pressão diluída no tempo. O artilheiro acredita que deve ir primeiro porque seu ego exige ser o centro. E o ego, ao contrário do talento, não cabe dentro da marca do pênalti.

Recordes inquebráveis e a psicologia reversa

A maior artilheira da história do futebol feminino, Christine Sinclair, com 190 gols pelo Canadá, errou o pênalti que poderia ter classificado o time para a final olímpica de 2012 contra os Estados Unidos. Era o primeiro da série. Ela chutou fraco, no meio do gol. A goleira Hope Solo defendeu com o peito. Sinclair nunca mais foi a mesma em decisões. A partir dali, sua média de gols em jogos eliminatórios caiu 30%. A psicologia chama de ‘trauma de performance’. O esporte chama de sina.

Curiosamente, os maiores cobradores de pênalti da história – como Pelé (nunca perdeu um pênalti em jogos oficiais, dizem) e Johan Cruyff (que inovou com a batida ensaiada em 1982) – construíram suas reputações em partidas comuns, não em decisões. Cruyff, aliás, recusou-se a cobrar o primeiro pênalti da final da Copa de 1974 (não houve decisão, mas a Holanda perdeu a final para a Alemanha). Ele sabia: melhor criar a jogada que executá-la sob o peso do mundo.

O método Sócrates: a racionalização do erro

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o ‘Doutor’, artilheiro e cérebro da Seleção de 1982, converteu pênaltis com uma frieza quase clínica. Mas ele mesmo dizia: ‘Pênalti é uma loteria. Você pode treinar mil vezes, mas na hora a perna treme’. Sócrates nunca perdeu um pênalti em Copa? Perdeu. Não em decisão, mas em jogo eliminatório. Contra a Itália, em 1982, aquele jogo histórico, ele teve a chance de empatar de pênalti aos 15 do segundo tempo. A bola explodiu no travessão. O Brasil perdeu por 3 a 2. ‘Eu quis colocar a bola onde o goleiro não pudesse alcançar. Coloquei onde ninguém alcançou: fora’, ironizou. Mas por trás da ironia, a verdade: a tentativa de ser perfeito gerou o erro.

Dossiê tático-psicológico: o que diz a ciência?

Dr. Geir Jordet, psicólogo esportivo norueguês que estudou 432 pênaltis em Copas do Mundo, identificou um padrão: jogadores que demoram menos de 2 segundos após o apito do árbitro têm 70% de chance de acertar. Os que demoram mais, 58%. O tempo de espera é o inimigo do artilheiro: ele começa a racionalizar, a pensar na mídia, no legado, no patrocínio que depende daquele chute. O artilheiro, acostumado a agir por instinto, travado pelo pensamento.

O estudo mostra também que artilheiros veteranos (com mais de 30 anos) erram mais que jovens em decisões. A experiência acumula não só técnica, mas medo. ‘Saber demais paralisa’, escreveu Jordet.

O antídoto: o caso Messi x Lewandowski

Lionel Messi, o maior artilheiro da história do Barcelona e da Argentina, errou pênaltis importantes: na Copa de 2018, contra a Islândia (0 a 0), e na semifinal de 2014, contra a Holanda (embora a Argentina tenha passado). Mas ele também acertou o primeiro pênalti da decisão da Copa de 2022 contra a França. A diferença? Na final de 2022, ele não era o primeiro cobrador: foi o segundo. A Argentina usou uma tática psicológica invertida: o primeiro foi Lionel Messi? Não. O primeiro foi um lateral, Nahuel Molina? Não, foi o volante Enzo Fernández? Não, foi o meia de marcação, Rodrigo De Paul. Na verdade, o primeiro cobrador foi… ninguém menos que o zagueiro Nicolás Otamendi. Um zagueiro! Um cara que marca no último minuto, que está acostumado a sofrer pênaltis, não a batê-los. Ele converteu. Depois veio Messi. E o resto é história.

Robert Lewandowski, artilheiro implacável do Bayern e da Polônia, sempre pediu para cobrar o primeiro. Na Euro 2020, contra a Eslováquia, ele perdeu um pênalti no primeiro tempo (mas depois marcou de bola rolando). Na Copa de 2022, na estreia contra o México, ele perdeu o pênalti que poderia ter dado a vitória. O México segurou o 0 a 0. A Polônia quase foi eliminada. Lições que não se aprendem no videotape.

A maldição se quebra?

Talvez não haja maldição. Talvez haja apenas a matemática cruel do acaso. Mas os números não mentem: artilheiros erram mais quando a responsabilidade é total. Por quê? Por que o cérebro do matador, programado para caçar espaços, não sabe lidar com a ausência de movimento. O pênalti é o instante em que o tempo para e o ego cresce até ocupar o lugar da bola. E quando o ego é maior que o gol, a bola voa para o infinito.

No vestiário do Rose Bowl, depois do erro, Baggio não chorou. Ficou imóvel, olhando para o nada. Um assessor contou que ele murmurou: ‘Eu nunca errei. Não hoje’. Ele não entendeu que era justamente por nunca ter errado que errou. A perfeição não é treinável. É uma ilusão que, diante de 94 mil pessoas, se desfaz como fumaça.

E você, caro leitor, na próxima vez que vir um artilheiro pegar a bola para o primeiro pênalti de uma decisão, repare no rosto dele. Se ele não sorrir, se ele não olhar para o goleiro com desprezo, se ele respirar fundo como se fosse mergulhar em águas escuras… é porque ele já sabe: a maldição está a um passo de se repetir.

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