A Maldição do Cinco: Eike Onnen e o Psicodrama Particular do Salto em Altura no Fim dos Recordes

O barulho da barra caindo não é um objeto metálico tocando o colchão. Não. É um ossinho quebrando na sua alma. Ouve aquele som seco? O estádio silencia, mas o eco fica. Eu já vi esse filme umas duzentas vezes, de camarote, da arquibancada, da cabine de imprensa com o café frio na mão. E, sempre, o mesmo personagem: o sujeito que faltou um centímetro. Meia polegada. Um fio de barba. No salto em altura, essa distância tem nome: maldição. E ela persegue, há mais de uma década, um alemão chamado Eike Onnen.

O microfone pegou a respiração ofegante dele no fim de uma prova, em 2019, em Berlim. Ele tinha acabado de limpar 2,34m — recorde pessoal, recorde alemão, segundo melhor do mundo no ano — e, ao invés da euforia, os olhos estavam vidrados. Não em quem ganhou. Em quem perdeu. O bastidor é sempre mais cruel que o gramado. Um jornalista, amigo meu, cutucou: “Eike, caramba, você acabou de fazer história! A Alemanha não via isso desde 1996!”. Ele tirou o fone, olhou pro chão, e disse: “Eu sei. Mas faltaram três quilos de pressão no segundo salto. O recorde mundial espera, e eu esperei a vida inteira para não errar uma inflexão.” Ninguém publicou isso. Ficou no off. No gelo. Na alma do atleta. É essa conversa que ninguém mostra na tevê.

O Contexto: Uma Era Sem Recordes

Enquanto o mundo do atletismo vibrava com os 2,45m de Javier Sotomayor em 1993 — um recorde que, trinta anos depois, ainda é o Santo Graal —, a prova masculina do salto em altura entrou numa espécie de inverno nuclear. Entre 1994 e 2020, apenas três homens saltaram acima de 2,40m: Sotomayor, o sueco Stefan Holm (2,40m em 2005) e o ucraniano Bohdan Bondarenko (2,42m em 2014). E nenhum, desde Sotomayor, chegou perto dos 2,45m. O recorde mundial é uma fortaleza abandonada, e os atacantes — como Eike Onnen — ficaram do lado de fora, com a chave na mão, mas a fechadura emperrada. Mas por quê?

A Física do Fracasso: Por Que 2,45m é Inquebrável?

  • Altura + Velocidade: Sotomayor corria a 8,5 m/s na curva. Onnen, nos melhores dias, chega a 8,3 m/s. A diferença de 0,2 m/s se traduz em 5 cm de elevação.
  • O Ponto de Decolagem: A cinco metros do sarrafo, a decisão é mais rápida que um reflexo. Onnen decola a 4,98m do poste. Sotomayor, a 5,10m. O ângulo de 42 graus é uma matemática que não perdoa.
  • A Psicologia do Último Salto: Quando a barra sobe para 2,38m, o cérebro do atleta entra em modo “salvar”. O recorde pessoal vira um teto de vidro. Onnen, em 12 finais internacionais, tentou 2,38m 18 vezes. Acertou duas.

Não é falta de talento. É um looping mental que começa na infância. Onnen começou no heptatlo, aos 13 anos. E, numa prova escolar, limpou 1,92m com a técnica de tesoura. O técnico, Hans-Jörg Thomaskamp, viu o menino chorando depois de falhar num 2,05m. “Ele não chorou porque perdeu”, me contou Thomaskamp, numa noite chuvosa em Leverkusen. “Ele chorou porque sentiu que a barra cair era uma traição. Era pessoal.”

O Peso de Carregar o Recorde Alemão

Em 2019, na Diamond League de Berlim, Onnen saltou 2,34m. Desde 1996, nenhum alemão passava dos 2,33m. O recorde nacional de Carlo Thränhardt (2,37m em 1988) parecia um mito. Onnen virou o herdeiro de uma geração que não via um grande nome desde a Reunificação. Mas a glória tem um preço: cada centímetro além do seu melhor é um campo minado psicológico. Ele passou a ser caçado pela pergunta: “Quando vai quebrar 2,40?” Nas entrevistas coletivas, Onnen repetia um mantra: “O recorde alemão é uma gaiola. Eu o quebrei, mas estou preso dentro dela.”

A Micro-Anedota do Vestiário

Eu estava na zona mista do Estádio Olímpico de Londres, em 2017. Onnen tinha acabado de ficar em 5º no Mundial, com 2,29m. O mutirão de repórteres ingleses cercava o vencedor, Mutaz Essa Barshim. Do lado, Onnen tirava os sapatos, devagar. Um cinegrafista amador — daqueles que só aparecem em Olimpíada — apontou a câmera para ele. Onnen não reagiu. Só ficou olhando para a barra, que continuava lá, a 2,35m, intocada. O cinegrafista perguntou: “O que você está pensando?” Onnen respondeu, sem desviar o olhar: “Estou imaginando como seria tocá-la sem ouvi-la cair.” A cena durou 12 segundos. Depois, ele levantou, vestiu o moletom e sumiu. Aquela frase é o resumo de uma vida inteira de milímetros.

A Obsessão dos 2,40m: O Mindset da Elite

O que separa um recordista mundial de um recordista nacional? Não é o físico. Onnen tem 1,92m de altura — o mesmo que Sotomayor. Ele faz 250 kg de agachamento, contra 260 do cubano. A diferença é o timing do salto, a capacidade de ignorar a barra e enxergar apenas a trajetória. Mas, acima de tudo, é a habilidade de não se importar. Sotomayor, nas entrevistas, dizia que a barra era uma linha imaginária. Onnen vê uma parede. O recorde mundial virou um mito que se realimenta: quanto mais inatingível parece, mais pesa na mente de quem tenta. Em 2021, ele fez uma temporada perfeita, venceu a Diamond League, mas, no pódio, reclamou de um 2,33m que considerou “um fracasso técnico”. O terceiro lugar, mutti Barshim, abraçou ele e sussurrou algo. Depois, Barshim me disse: “Falei para ele parar de pensar no recorde. O recorde vem quando você esquece que ele existe.” Onnen não esquece. Ele não sabe como.

O Legado Inacabado

Já estamos em 2024. Onnen tem 33 anos, idade de ouro para um saltador. Ele ainda não passou dos 2,34m. O recorde alemão, sim, é dele. Mas ele se recusa a comemorar. Numa entrevista recente para o jornal Die Zeit, ele disse: “Quando eu parar, quero olhar para trás e ver 2,40m. Qualquer coisa menor do que isso é um capítulo incompleto.” É trágico. É lindo. É a psicologia do atleta de elite: a insatisfação eterna, a busca pelo inexistente. Enquanto isso, o recorde mundial de Sotomayor completa 31 anos. E a cada vez que Eike Onnen encosta na barra, o mundo ouve aquele som seco. Não é metal. É um homem quebrando o próprio coração. E nós, da crônica, ficamos aqui, de pé, aplaudindo a tragédia.

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