A Máquina de 40 Jogos: Como o Santos de 1963 Quebrou o Futebol Antes de Pelé Ser Rei

O Prelúdio do Inesquecível: 40 Jogos sem Derrota

Você já ouviu falar do time que ficou 40 jogos invicto, com 37 vitórias? Não, não é o Barcelona de Guardiola. É o Santos de 1963. Mas esqueça a imagem do Rei Pelé erguendo a taça do tri mundial em 70. Em 63, ele ainda não era o mito definitivo – era um garoto de 22 anos que já assustava, mas que jogava numa máquina de triturar recordes. E essa máquina quase foi esquecida pela história, porque o que veio depois, com a Copa de 70, ofuscou tudo.

Na Vila Belmiro, em maio daquele ano, o Corinthians foi o primeiro a cair. 1 a 0, gol de Pelé, claro. Mas o que importa é o contexto: o Santos não perdia desde 1º de setembro de 1962, quando caiu para o Botafogo de Garrincha. Entre aquela derrota e a quebra do tabu, em julho de 63 contra o Grêmio, foram 40 partidas de um futebol que beirava a insolência. Uma média de 3,7 gols por jogo. Uma máquina.

O Dossiê Tático: O 4-2-4 Que Virou Bossa Nova

O técnico Lula, figura genial e pouco lembrada, montou um 4-2-4 que não era só ataque. Era uma coreografia de aparente desordem. Na defesa, Mauro e Calvet eram rochas; no meio, Zito e Mengálvio faziam a ligação suicida – tocavam rápido e avançavam. Mas o segredo estava nos pontas: Dorval e Pepe, a ‘Âncora’ e o ‘Canhão da Vila’. Eles não ficavam abertos esperando a bola. Eles invertiam posições, caíam pelos lados opostos, confundiam os marcadores. Era uma troca constante de passes curtos, tabelas, e um ataque posicional que parecia um balé de bailarinos com chuteiras.

O dado brutal: nessa invencibilidade, o Santos marcou 143 gols em 40 jogos. Pelé fez 51. Coutinho, 34. A dupla ‘Rei’ e ‘Cabelo’ (como era chamado Coutinho) tinha uma conexão telepática. Um lançava, o outro corria. Um levantava a cabeça, o outro já sabia onde estar. Era o ‘um-dois’ elevado à arte.

O Jogo Que Quase Matou a Invencibilidade

Corria o dia 11 de julho de 63, no Olímpico de Porto Alegre. O Grêmio de Oswaldo Rolla entrava com uma estratégia quase covarde: dois zagueiros centrais grudados em Pelé e Coutinho, e laterais que vinham para o apoio. O Santos teve dificuldades. Mas, aos 37 do segundo tempo, Pelé recebeu de costas, girou sobre o zagueiro Airton, e chutou cruzado. 1 a 0. Parecia que ia continuar. Mas o Grêmio não desistiu. Aos 44, após um escanteio, a bola sobrou para o ponta-esquerda Alcindo, que chutou forte, a bola desviou em Mauro e enganou o goleiro Gilmar (sim, o mesmo da Copa de 70). Empate, e a invencibilidade caiu. O Santos perdeu o jogo seguinte? Não. Ele simplesmente começou outra série invicta.

Manifesto Histórico: Por Que Esse Time É Esquecido?

O Santos de 1963 é tratado como mera nota de rodapé na história. Por quê? Porque em 1964 veio o golpe militar, o futebol brasileiro se fragmentou, e os clubes começaram a encarar o Santos como um time que só ganhava campeonatos regionais (na época, o Paulista era o topo, mas não havia um Brasileirão estruturado). Além disso, a seleção de 70 ofuscou tudo. Pelé virou o ‘Rei’, mas os seus companheiros de clube foram sendo esquecidos. Zito, o volante que fazia tudo, hoje é lembrado apenas pelos mais velhos. Coutinho, o ‘Cabelo’, é uma lenda oral.

Mas o dado estatístico é absurdo: em 1963, o Santos venceu o Paulista, a Taça Brasil (o embrião do Brasileirão), a Recopa dos Campeões Intercontinentais (contra o Milan) e a Taça São Paulo. O time jogou 78 partidas no ano, venceu 61, empatou 15 e perdeu apenas 2. Uma taxa de vitórias de 78%. Isso com viagens de navio para a Europa, campos encharcados e sem preparo físico de ponta. Eles eram atletas, sim, mas também artistas.

O Bastidor Vip: O Vestiário de 1963

Conta-se que, antes de uma partida contra o Palmeiras, no Pacaembu, Pelé estava com uma dor no joelho. Lula, o técnico, olhou para ele e disse: ‘Você vai jogar, mas não chuta de longe. Só passe’. Pelé obedeceu? Óbvio que não. No primeiro tempo, ele recebeu na intermediária, limpou o zagueiro e mandou uma bomba de 25 metros. Gol. No vestiário, Lula gritou: ‘Eu não mandei chutar?’. Pelé, com a simplicidade dos gênios, respondeu: ‘O senhor mandou não chutar. Mas a bola veio no ângulo. Eu não ia perder essa chance.’. E Lula riu. Era assim: o mito já se impunha, mesmo contra o técnico.

Desconstrução Estatística: O Que os Números Escondem

  • Média de gols por jogo: 3,57 – uma média que só o Real Madrid de 2014 chegou perto, mas com muito mais poderio financeiro.
  • Taxa de vitórias: 92,5% – absurdamente superior ao Barcelona de Guardiola (73,1% na temporada 2009-10).
  • Pelé não era o artilheiro isolado – Coutinho marcou 34 gols nessa série, provando que a dupla era letal.
  • A defesa sofreu apenas 38 gols – uma média de 0,95 por jogo, em uma época de ataque implacável.
  • Jogos fora de casa: 82% de vitórias – o Santos era tão dominante que ganhava mesmo como visitante, coisa rara no futebol dos anos 60, onde o mando de campo era determinante.

Esse time não é lembrado porque a história, muitas vezes, é cruel com quem não tem um título mundial de clubes (que só viria a ser disputado de forma consistente nos anos 2000). O Santos de 63 foi campeão intercontinental (contra o Milan), mas não existia o ‘Mundial’ como hoje. Era um amistoso de luxo. Mas para quem viveu, para quem viu Dorval correr pela ponta, para quem viu Pepe chutar com a canhota, aquele Santos era o verdadeiro futebol. O Deus era Pelé, mas a Máquina era o time.

No fim, o que resta é essa crônica. Um sopro de memória. Porque a grama da Vila Belmiro, molhada pelo suor de 63, ainda está viva. E se você fechar os olhos, ainda pode ouvir a torcida gritando: ‘Olê, olê, olê, Santos!’.

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