Ele não era rápido, não marcava gols e, para o olhar destreinado, parecia apenas ‘tocar de lado’. Mas, por dentro, ele via o campo como um tabuleiro de xadrez em chamas. Seu nome era Javi Martinez, e sua função no Bayern de Pep Guardiola (2013-2016) era um segredo que a estatística tradicional jamais contaria. Aos poucos, aquele jogador – o regista defensivo, o cérebro sem holofote – foi sendo varrido do mapa. Não por acaso. A ciência dos dados mostrou que sua existência tática era um luxo que o futebol moderno não podia mais pagar.
Bem-vindo à era do Expected Threat (xT). Prepare-se para entender por que o volante ‘raiz’ morreu – e quem o matou.
O futebol sempre venerou o ‘cão de guarda’ – o volante que destrói, que rouba bolas, que ‘mata o jogo’. Mas, em 2018, um estudo da Friends of Tracking chocou a comunidade tática: a taxa de interceptações e desarmes não se correlacionava significativamente com a probabilidade de um time sofrer gols. Pior: volantes que só desarmam, na verdade, criavam espaços perigosos ao serem driblados ou ao saírem da posição. A estatística avançada não apenas questionou, mas executou o julgamento do volante clássico.
Onde entra o xT? Imagine o campo dividido em 1.200 células (30×40). Cada célula recebe um valor de ‘ameaça’ – a probabilidade de que, a partir dali, uma jogada resulte em gol. Um passe para frente de 10 metros na intermediária ofensiva vale, em média, 0.12 xT. O mesmo passe, na intermediária defensiva, vale -0.08 xT (porque expõe o time a um contra-ataque). O xT mede, portanto, a inteligência de progressão – algo que olheiros e técnicos julgam no ‘olhômetro’, mas que os números agora escancaram.
Vamos ao caso mais emblemático: Jorginho no Napoli de Sarri (2015-2018). O italiano não tinha força, não desarmava (média de 1.1 desarme por jogo, menor que a de muitos atacantes), e sua máxima era de 10 km por partida – nada excepcional. Mas ele lia o jogo. Recebia a bola dos zagueiros, dava o passe de ruptura (ou não) e gerava, em média, 0.14 xT por passe progressivo. Quando não tinha linha, recuava, mantendo a posse. Os números revelaram que Jorginho era mais importante que qualquer marcador: sua presença aumentava o xG do time em 0.8 por jogo, enquanto sua ausência o derrubava em 1.2. A era do metrônomo havia chegado – e o volante-tanque estava obsoleto.
A evolução fisiológica acelerou o processo. Atletas como Kante (1.68m, 73kg) e De Jong (1.80m, 74kg) redefiniram o ‘físico’ da posição: não mais força bruta, mas aceleração reativa e capacidade de cobrir 12 km com sprints de alta intensidade. Estudos do departamento de ciência do esporte do Liverpool mostram que, em 2023, um volante médio da Premier League corre 1,7 km a mais em alta velocidade do que em 2013. O jogo pede um atleta capaz de pressionar, recuperar e progredir – as três funções em um só corpo.
Taticamente, a transição se deu com o 4-3-3 de posse (Guardiola) e o 3-4-3 de transição (Klopp). No City de 2023, Rodri não é volante: é cérebro. Seu mapa de passes mostra que ele raramente recua; sempre busca o passe entre linhas, mesmo que com risco. No Liverpool, Fabinho (antes da lesão) fazia o mesmo: não roubava a bola com deslizes, mas antecipava o passe rival, fechava linhas e, com a bola, virava o campo com passes de 30 metros de xT altíssimo.
O dado que mata o volante clássico: times que utilizam um ‘destruidor’ puro (5+ desarmes por jogo, menos de 60 passes) têm 18% menos chance de chegar ao top-4 da Premier League (Football Observatory, 2022). O motivo? Ao focar em roubar a bola, o time se desorganiza; ao ter um volante de baixa qualidade de passe, o time perde fluidez. O xT do time com um ‘casemiro’ (na versão pós-Real Madrid) cai 0.3 por jogo em relação a um time com um ‘Kroos’ – mesmo que o primeiro desarme mais.
Casemiro, aliás, é o exemplo perfeito da transição. No Real, ele tinha Modric e Kroos ao lado – podia focar em roubar. No United, sem um construtor, sua falta de passe vertical expôs o time. Seu xT médio caiu de 0.09 (Real) para -0.02 (United) – ou seja, ele prejudicava a construção. A estatística não mente.
Mas a morte não é absoluta. Sobrevivem os ‘híbridos’: Bellingham (box-to-box com finalização), Valverde (motor com passe), Enzo Fernández (cérebro com garra). O volante moderno precisa ser completo: desarmar, mas também construir; correr, mas também pensar. O xT de cada jogada revela que a ‘prancheta’ tradicional morreu. Hoje, o técnico não pede ‘marca o 10’ – pede ‘fecha a linha de passe para o lateral, força o erro e, ao recuperar, ataca o espaço vazio com o primeiro passe’. É matemática, não heroísmo.
O legado de Javi Martinez, de Jorginho, de Busquets, é ter mostrado que a inteligência vence a força. Mas a ciência foi além: provou que a inteligência pode ser medida – e que o futebol que não a mede, perde.
No vestiário, os mais velhos ainda resmungam: ‘Cadê o volante que quebra o jogo?’. A resposta está no espelho. Ele está ali, sim – mas com a chuteira de passes de 40 metros e o chip de xT no cérebro.