Dizem que toda grande tragédia começa com um pequeno erro. Mas quem esteve no Rose Bowl naquele 22 de junho de 1994 sabe que o erro foi apenas o estopim de uma bomba que vinha sendo armada há anos. O estádio estava estranhamente quieto quando a bola saiu pela linha de fundo. Os Estados Unidos, essa seleção que ninguém levava a sério, acabava de marcar um gol. E não um gol qualquer: uma obra-prima de transição rápida, aos 35 minutos do primeiro tempo. Mas ninguém na Colômbia lembra do gol de John Harkes. Todos lembram do outro lance. Aquele em que a história do futebol se partiu em dois.
Andrés Escobar não era um zagueiro qualquer. Com 1,84m de altura, cabelo black power e um sorriso que escondia a dureza do jogo, ele era o líbero que lia o jogo como um xadrez. Nas eliminatórias, a Colômbia de Francisco Maturana havia virado uma sinfonia. Escobar e Luis Carlos Perea formavam uma dupla de zaga que misturava técnica e agressividade, protegendo o goleiro Óscar Córdoba. O time era chamado de ‘o melhor da história’ por ninguém menos que Pelé. Eram favoritos ao título. Tinham vencido a Argentina por 5 a 0 em Buenos Aires, um feito que ainda ecoa nos pesadelos portenhos. Mas o narcotráfico já tinha infiltrado cada fibra daquele futebol. Pablo Escobar não era parente, mas o nome pesava. Os jogadores viviam entre ameaças e bajulações. O próprio Andrés havia sido sequestrado anos antes, libertado após pagamento de resgate. O futebol colombiano era uma corda bamba sobre um abismo.
No vestiário, antes do jogo contra os EUA, o clima era de confiança excessiva. Maturana, o técnico filósofo, pregava a posse de bola e o toque de primeira. Mas os americanos, treinados por Bora Milutinovic, estudaram cada lance. Sabiam que a Colômbia tinha fragilidades na transição defensiva. Exploraram isso com passes em profundidade. O gol de Escobar? Um corte mal feito tentando interceptar um cruzamento rasteiro de John Harkes. A bola desviou no gramado irregular, tocou no joelho do zagueiro e entrou mansamente. Ele caiu de joelhos, as mãos no rosto. No banco, Maturana sabia que aquele erro era mais que um gol. Era uma sentença.
A Colômbia ainda tentou reagir. Valencia, Asprilla e Rincón corriam como possessos, mas a defesa americana, liderada por Alexi Lalas, segurava o tranco. O placar ficou 2 a 1. Na saída do campo, Escobar foi abraçado por companheiros. Ninguém sabia que aquele era o último abraço que receberia em vida.
Dez dias depois, em Medellín, uma boate. Discussões sobre o jogo. Um homem bêbado, Humberto Muñoz, disparou seis tiros contra Andrés. Uma das balas perfurou o coração. Nos lábios, antes de morrer, ele murmurou: ‘Me perdoem’. O Brasil, que eliminaria os EUA nas oitavas e ganharia o tetra, ergueu a taça. Mas o futebol colombiano nunca se recuperou. A tática, a técnica, o sonho – tudo morreu naquela noite.
Hoje, quando vejo jovens zagueiros celebrando cortes de rotina, lembro de Andrés. Ele não era apenas um líbero. Era o símbolo de um país que tentava driblar o caos. O erro foi dele, sim. Mas a tragédia foi de todos. E até hoje, no silêncio dos estádios vazios, ainda se ouve o eco daquela bola rolando lentamente para o gol.