Eram 21h de um domingo qualquer de junho. O Morumbi não era um estádio. Era um caldeirão de almas molhadas.
Primeiro, caiu uma garoa fina. Depois, o dilúvio. E o Corinthians, que havia passado o jogo inteiro trocando passes como se estivesse numa partida de xadrez, começou a patinar. A grama encharcada virou um espelho d’água. E ali, naquele espelho, o São Paulo viu o reflexo de sua própria mitologia.
O ano era 1987. O Paulistão era uma obsessão. O Corinthians de Casagrande, Biro-Biro e…… espera … o Pelé do Timão? Não, não estamos falando de Edson Arantes. Estamos falando de Eduardo Amorim, o centroavante que a Fiel tratava como rei. Ele havia feito 15 gols no campeonato. Era o artilheiro. Era a esperança. E era um jogador de área, não de chão molhado.
O São Paulo era o time de Cilinho, o ‘Menudo’ que encantava o Brasil com Müller, Silas e Pita. Mas naquela noite, o protagonista seria outro. Alguém que a história quase esqueceu.
Eu estava lá. Não no gramado, claro. Na cabine de imprensa, com o café frio e o cigarro apagado. Lembro do deputado (sim, a federação era um circo) ouvir os protestos: ‘Para o jogo, a chuva está forte demais!’. O juiz, Dulcídio Vanderlei Boschilia, olhou para o céu, viu que não era temporal, e mandou seguir. Erro crasso. Ou acerto tático?
O Dossiê Tático da Enxurrada
O Corinthians tinha um plano: bola no chão, toque rápido, explorar a velocidade de Marcelo (o ponta) e a conclusão de Amorim. Mas a chuva transformou o gramado em uma pista de patinação. Os passes curtos morriam nas poças. O toque de bola virou um jogo de azar.
O São Paulo, mais calejado em jogos de chuva (o Morumbi sempre drena mal), optou pelo jogo aéreo. Simples. Cruze na área. Cabeceio. Rojão.
E foi assim que, aos 23 minutos do primeiro tempo, um escanteio cobrado por Pita encontrou a cabeça calva de Oscar, o zagueiro são-paulino. A bola molhada escapou das luvas de Ronaldo (goleiro corinthiano) e entrou. 1 a 0.
O Corinthians sentiu o golpe. Mas não desistiu. Amorim, mesmo escorregando, teve duas chances claras. Aos 35, um chute de fora da área de Marcelo desviou na zaga e enganou Taffarel. 1 a 1. O empate era justo, mas o jogo estava longe de acabar.
O segundo tempo foi uma guerra de nervos. A chuva não parava. O campo, um lamaçal. Lembro de um repórter ao lado dizer: ‘Se terminar assim, a decisão vai para os pênaltis. E com essa chuva, é loteria.’
O Segredo do Vestiário: O Grito de Cilinho
Eis o que a TV não mostrou. No intervalo, Cilinho não gritou com os jogadores. Ele se ajoelhou no vestiário — o chão encharcado de água e suor — e disse, com a voz rouca: ‘Vocês não vão morrer na praia. O Corinthians não aguenta mais. Eles estão com medo da chuva. Nós não. Vamos para cima. Joga a bola na área e vai. Quem quiser ser herói, que apareça.’
E apareceu. Aos 17 minutos do segundo tempo, um lançamento de Adilson (o volante) encontrou Dario Pereyra, o zagueiro uruguaio, que subiu mais alto que a zaga corinthiana. A bola molhada, escorregadia, quicou na frente de Ronaldo e… entrou. 2 a 1.
O Morumbi pegou fogo na chuva. Os jogadores do Corinthians caíram de joelhos. Amorim, o Pelé do Timão, ficou imóvel no círculo central, olhando para o céu, como se pedisse para a chuva parar. Mas ela não parou.
O São Paulo segurou o resultado com unhas e dentes. Taffarel fez duas defesas milagrosas em chutes de longe. O Corinthians já não tinha força. A chuva levou a técnica. Levou a paciência. Levou o título.
O Legado: Uma Rivalidade Marcada a Fogo e Água
Aquele jogo não foi apenas uma final. Foi a prova de que no futebol, a natureza pode ser o maior adversário. O São Paulo venceu porque entendeu que a chuva era uma aliada. O Corinthians perdeu porque confiou demais na sua habilidade.
Eduardo Amorim, o artilheiro, nunca mais foi o mesmo. No ano seguinte, foi negociado. A Fiel chorou a perda de seu ‘Pelé’. Mas no fundo, sabia que naquela noite molhada, o destino já havia escrito o roteiro.
Eu guardo até hoje o ingresso amassado. E uma certeza: em dia de chuva, o futebol vira outra coisa. Vira poesia molhada. Ou tragédia. Depende do lado que você está.
E você, torcedor, ainda lembra do cheiro da grama molhada? Do barulho da bola encharcada? Da sensação de que o tempo podia parar? Aquela noite parou. Para sempre.