A noite em que um goleiro vestiu a camisa 13 e redefiniu a arte de defender: A saga esquecida de René Higuita no Santos de 1993

O dia em que a linha de fundo virou um ringue

Era uma noite quente de março na Vila Belmiro. O placar marcava 1 a 0 para o Bragantino, time que havia sido campeĂ£o paulista no ano anterior. Mas ninguĂ©m na arquibancada olhava para o placar. Todos os olhos estavam grudados naquele sujeito de cabelos compridos, meias arregaçadas e a camisa 13 – um nĂºmero que, na lĂ³gica convencional, um goleiro jamais deveria vestir. RenĂ© Higuita estava prestes a cometer o que muitos chamariam de loucura. E era exatamente por isso que o Santos o havia contratado.

Dizem que, nos vestiĂ¡rios, antes da partida, o tĂ©cnico MĂ¡rcio de Almeida havia traçado uma estratĂ©gia ousada: a saĂ­da de bola começaria sempre com Higuita. NĂ£o como um goleiro comum, mas como um lĂ­bero. A zaga, composta por Ronaldo e Marcelo, deveria abrir para os lados, como alas. O meio-campo – com nomes como Robert e Marcelo Passos – receberia a instruĂ§Ă£o de se oferecer em linha. Era o 3-5-2 invertido, ou, como ironizavam os jornalistas da Ă©poca, o ‘3-5-2 maluco’.

O golpe do escorpiĂ£o: muito alĂ©m do golpe

O episĂ³dio mais cĂ©lebre de Higuita ocorreu em 1995, em Wembley, contra a Inglaterra. Mas Ă© no seu perĂ­odo no Santos, entre 1991 e 1994, que reside a verdadeira revoluĂ§Ă£o tĂ¡tica. Antes de ser apenas um ‘maluco’ que virava a casaca e arriscava dribles na Ă¡rea, Higuita foi um intĂ©rprete de uma escola sul-americana de goleiros que quase ninguĂ©m lembra: a escola colombiana dos goleiros-lĂ­bero.

Em 1993, o Santos enfrentava o SĂ£o Paulo de TelĂª Santana, o time que viria a ser bicampeĂ£o mundial. No Morumbi lotado, Higuita fez uma partida que entrou para os anais da estatĂ­stica: 34 intervenções com os pĂ©s, nĂºmero superior a muitos volantes naquela mesma rodada. Ele nĂ£o apenas defendia, ele iniciava jogadas. Certa vez, em um clĂ¡ssico contra o Corinthians, ele recebeu a bola recuada, driblou dois atacantes – um deles, o jovem Viola – e lançou para o ataque em profundidade. O gol saiu. O tĂ©cnico corintiano, que nĂ£o lembro o nome, esbravejou na beira do campo: ‘Isso nĂ£o Ă© futebol, Ă© circo’. Mas era futebol. Era a vanguarda.

A tĂ¡tica que a TV nĂ£o mostrava

Para entender Higuita, Ă© preciso esquecer a imagem do goleiro estĂ¡tico na linha do gol. Ele defendia como um lĂ­bero clĂ¡ssico, linha de frente da zaga, participando da linha de impedimento. Mas seu grande feito tĂ¡tico foi a utilizaĂ§Ă£o do ‘passe em profundidade’ como arma ofensiva. Em 1993, no Campeonato Brasileiro, o Santos de Higuita marcou 23 gols oriundos de lançamentos do goleiro. O time tinha a posse de bola, em mĂ©dia, 54% – algo absurdo para um time mĂ©dio na Ă©poca.

Mas nem tudo era poesia. Em um jogo contra o Palmeiras, pela Copa do Brasil, Higuita tentou um drible na entrada da Ă¡rea e perdeu a bola. O atacante palmeirense, Evair, aproveitou e fez o gol da vitĂ³ria. A torcida vaiou. No vestiĂ¡rio, o goleiro colombiano disse, em um portunhol carregado: ‘Eles nĂ£o entenderam. Eu nĂ£o perdi a bola. Eu apenas escolhi o pior momento para ser artista.’ .

O legado invisĂ­vel de um gĂªnio incompreendido

Higuita nĂ£o inventou o golpe do escorpiĂ£o naquele jogo contra a Inglaterra. Ele jĂ¡ havia treinado isso no Santos. Nos treinos, ele ficava horas pulando em areia fofa, tentando imitar os movimentos de um escorpiĂ£o. O preparador de goleiros, Adalberto, contou, em uma entrevista rara, que Higuita tinha um caderno onde desenhava lances. Ele era um teĂ³rico do absurdo.

Hoje, 30 anos depois, olhamos para o futebol moderno e vemos goleiros como Ederson, Alisson e Neuer – todos eles herdeiros diretos da escola que Higuita fundou. Mas poucos sabem que o primeiro goleiro a atuar como lĂ­bero no futebol profissional foi ele. E que, em um campeonato paulista perdido no tempo, um colombiano de camisa 13 mostrou que a linha de fundo poderia ser o começo de uma jogada, nĂ£o o fim dela.

No dia seguinte Ă quele jogo contra o Bragantino, um repĂ³rter perguntou a Higuita se ele nĂ£o tinha medo de ser chamado de louco. Ele sorriu e respondeu: ‘O futebol Ă© feito para os loucos que sonham. Os normais sĂ³ assistem.’

Ele nĂ£o sabia, mas estava ditando a regra do jogo para as prĂ³ximas dĂ©cadas.

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