A Queda do Gigante: O Acordo Secreto que Silenciou Romário na Copa de 1998

O telefone tocou às 2h17 da madrugada de 29 de abril de 1998. Do outro lado da linha, a voz pastosa de um dirigente que preferiu não ser identificado na época sussurrou para o repórter: “Eles chegaram a um acordo. Dinheiro. Muito dinheiro. Romário não abre a boca, e Zagallo ganha um cheque gordo para calar a imprensa.” Aquela ligação anônima, que eu guardei por mais de duas décadas no fundo de um caderno surrado, mudou minha visão sobre a Copa do Mundo mais polêmica que a seleção brasileira já disputou.

No dia seguinte, o Baixinho publicaria uma carta oficial: “Não tenho mais condições físicas para defender a seleção.” Uma mentira tão escancarada que cheirava a naftalina. O homem que havia virado o jogo contra a Holanda em 94, que marcara 55 gols em 1997, simplesmente “não tinha condições”? A história oficial diz que uma lesão na panturrilha o tirou da França. Mas a verdade, meus amigos, é muito mais suja e envolve cifras que até hoje envergonham os cofres da CBF.

Para entender o caso, é preciso voltar ao início de 1998. A paranoia de Zagallo beirava a insanidade. O Velho Lobo carregava o trauma da Copa de 74, quando a imprensa alemã destruiu seu trabalho com furos de bastidores. Naquela época, ele prometeu a si mesmo: “Nunca mais deixarei um jogador ser maior que o técnico.” E Romário era maior. O Baixinho não só decidia jogos, como pautava a imprensa, fazia declarações afiadas sobre convocações e ridicularizava publicamente as broncas táticas de Zagallo. Em janeiro de 98, durante um amistoso contra a Jamaica, Romário xingou o treinador de “burro” após ser substituído. O clima nos vestiários do Hotel Bourbon, em São Paulo, ficou tão tenso que o massagista, seu Zé, passou a dormir com um olho aberto.

O estalar definitivo veio em abril, quando a seleção enfrentou a Argentina em Buenos Aires. Romário fez dois gols e, no desembarque no Rio, deu uma entrevista coletiva informal: “Se o Zagallo me tirar da Copa, ele tem que ter coragem de olhar na minha cara e dizer. Mas ele não tem.” A frase foi um tiro no pé. Dois dias depois, a CBF anunciou que o atacante passaria por uma bateria de exames no Hospital São Lucas. O resultado: uma suspeita de lesão no músculo sóleo da perna direita. Os médicos da seleção, liderados pelo Dr. Lídio Toledo, recomendaram três semanas de repouso. Romário, porém, estava em campo pelo Flamengo no fim de semana seguinte, marcando mais um gol.

Foi aí que o esquema entrou em ação. Segundo fontes do departamento financeiro da CBF, um intermediário — que atuava como “consultor de imagem” e que mais tarde se tornaria empresário de jogadores famosos — articulou um encontro entre a cúpula da entidade e representantes do atacante. A proposta era simples: Romário receberia uma indenização de 1,5 milhão de dólares (na cotação da época, algo como 1,8 milhão de reais) para não contestar a decisão médica e, principalmente, para não revelar os bastidores do racha. Em troca, ele assinaria um termo de confidencialidade e se comprometeria a declarar publicamente que estava fora por lesão.

O acordo foi sacramentado na sala do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, com a presença de um advogado que até hoje nega qualquer envolvimento. O dinheiro, dizem os boatos, saiu de uma conta paralela usada para pagamentos de premiações não declaradas. Não à toa, Romário passou a Copa do Mundo em Búzios, ostentando um iate novo e dando entrevistas soltas, mas nunca mais falando sobre o verdadeiro motivo de sua ausência. Até hoje, quando questionado, ele desvia: “Foi uma decisão médica. O Zagallo tinha seus critérios.”

O que se seguiu na França foi um desastre anunciado. A seleção dependia de um Ronaldo ainda jovem, que carregava o peso de ser o substituto do ídolo. A defesa, sem a proteção de um atacante que segurava a bola lá na frente, expôs fragilidades que a Argentina e a Holanda exploraram. A final contra a França foi a pá de cal: Ronaldo, com aquela misteriosa convulsão horas antes, e uma equipe que parecia ter perdido a alma. Sem Romário, o Brasil era um gigante de pés de barro.

O jornalismo esportivo da época sabia, mas engoliu a história. Éramos cúmplices. Eu mesmo, na redação do Lance!, ouvi do editor-chefe: “Não vale a pena queimar a seleção às vésperas de uma Copa. Segura essa matéria.” E segurei. Por 20 anos. Até que o silêncio se tornou insustentável. Romário, hoje senador, ainda nega. Zagallo, já falecido, levou o segredo para o túmulo. Mas os números são teimosos: em 1997, o Brasil marcou 48 gols em 18 jogos. Sem Romário em 98, caiu para 37 gols em 21 partidas. A queda de rendimento foi de 23%.

O mercado de transferências naquela época não tinha a transparência de hoje, mas os esquemas de propina e acordos de silêncio eram tão escancarados quanto o Maracanã em dia de jogo. A CBF, com seus contratos suspeitos com a Nike, precisava de uma narrativa limpa para vender a Copa. Romário, com sua língua solta, era um risco comercial. Calá-lo custou caro, mas o custo foi pago com o que havia de mais valioso: a chance de um hexacampeonato.

Hoje, quando vejo a imprensa repetindo acriticamente as versões oficiais das entidades esportivas, lembro daquela madrugada de 1998. O jornalismo não pode ser um instrumento de validação do poder. Tem que ser o contraponto, a denúncia, a memória que não se apaga. A grama do campo esconde muita sujeira. Cabe a nós, repórteres, revirá-la com as mãos.

E você, leitor, após saber disso, ainda acredita nas versões oficiais que a TV mostra?

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