O Vazio sob a Barra
Há um som que antecede cada tentativa de Sergey Bubka. Não é o aplauso, nem o grito do treinador. É o silêncio de 40 mil pessoas comprimido em um único segundo. Ele segura a vara, olha para o céu do Estádio Olímpico de Roma, 1987, e sabe que aquela barra a 6,03m não é apenas um recorde. É um julgamento. O público quer o herói. Mas Bubka, ucraniano de Donetsk, carrega dentro de si um juiz mais cruel: a obsessão por um limite que ele mesmo não sabia onde terminava.
Você já viu um homem voar? Eu vi. Mas voar, para Bubka, era a parte mais fácil. O difícil era o passo anterio: a corrida de 40 metros, onde cada passada media a distância entre a glória e o fracasso. E ele calculava como um engenheiro, com a precisão de quem sabia que um centímetro a mais na impulsão significava quebrar costelas no sarrafo. Trinta e cinco vezes. Trinta e cinco recordes mundiais. Nenhum outro atleta, em prova individual, foi tão dono do próprio destino. E, paradoxalmente, tão prisioneiro dele.
Lembro de uma anedota que circulou nos bastidores do Mundial de Stuttgart, 1993. Após quebrar o próprio recorde pela vigésima vez, Bubka sumiu do aquecimento. Encontraram-no trancado no banheiro, com os olhos vermelhos. Não era choro de alívio. Era pânico. Ele sussurrou ao fisioterapeuta: “E se eu não conseguir mais? E se o corpo parar antes da mente?”. Ali, naquela cabine fria, o maior saltador da história não era um semideus. Era um homem que sabia que cada salto o aproximava de um abismo: o dia em que o recorde não viria. E esse dia, para um obcecado, era a morte em vida.
A Engenharia da Obsessão
Diferente de outros atletas que quebravam recordes por acaso, Bubka tratava o salto como uma equação matemática. Ele e seu técnico, Vitaly Petrov, dividiam o recorde em partes: velocidade, impulsão, ângulo da vara, rotação. Cada sessão de treino era uma maratona de ajustes microscópicos. Enquanto os adversários treinavam força, Bubka estudava a rigidez das varas de fibra de carbono como um relojoeiro estuda engrenagens. “Ele não competia contra outros”, diz Petrov, em uma rara entrevista. “Ele competia contra a barra. A barra não tem emoção. E ele precisava que ela não tivesse, porque as emoções dele já eram um vulcão.”
A psicologia reversa de Bubka era cruel. Ele estabelecia recordes de 1 em 1 centímetro – algo inédito. Isso não era apenas estratégia de patrocínio. Era um jogo mental: cada novo recorde era um alerta para os rivais de que ele controlava o ritmo da história. “Você não quebra o recorde do Bubka”, disse o americano Dean Starkey, seu rival na época. “Você implora para ele errar. E ele nunca errava quando o recorde estava em jogo.”
Dados que poucos lembram:
- Bubka venceu 10 títulos mundiais consecutivos (indoor e outdoor) entre 1983 e 1997.
- Dos 35 recordes mundiais, 30 foram estabelecidos em competições que ele venceu – ou seja, ele não apenas quebrava, mas dominava.
- A margem média de melhoria entre um recorde e outro era de 1,2 cm. Nenhum outro saltador teve tanta consistência.
O Preço do Topo: Solidão e Medo
Há uma entrevista de 1994, após o Mundial de Budapeste, em que um repórter pergunta: “Bubka, como você lida com a pressão de ser o favorito?”. Ele ri, um riso seco, quase cínico. “Pressão é quando você não tem o controle. Eu tenho. Mas quem controla o coração? Aos 30 anos, cada salto dói mais. A recuperação é mais lenta. Os jovens vêm. Eu vejo o medo nos olhos deles. Mas eu também vejo o meu próprio.”
O medo de Bubka não era de perder. Era de se tornar comum. Ele passou a infância em um ginásio sem aquecimento, em Donetsk, treinando com varas de bambu. O salto com vara era sua fuga de uma vida de minas de carvão. Quando se tornou o maior, aquela fuga se tornou uma jaula. “Ele não sabia viver fora do salto”, conta a ex-esposa, Lilia. “Feriados eram tortura. Ele precisava do recorde como eu preciso de ar. E quando o recorde chegava, ele já estava pensando no próximo. Não havia celebração.”
A quebra do recorde indoor de 6,15m, em 1993, é emblemática:
- Após o salto, Bubka não comemorou. Ajoelhou-se na pista, olhou para o chão e ficou imóvel por 40 segundos. Muitos pensaram que era devoção. Era, na verdade, um vazio completo. Ele mesmo disse depois: “Eu só pensei: e agora? O que faço com esse silêncio?”.
28 Anos Depois: O Recorde Inquebrável
Em 2025, o recorde mundial de Bubka ao ar livre (6,14m, de 1994) ainda não foi superado. Mondo Duplantis, o sueco fenômeno, já saltou 6,23m, mas em condições indoor ou com ajuda de pistas modernas. O recorde de Bubka ao ar livre permanece como uma muralha. Por quê? Porque a pista de Sestriere, em 1994, tinha vento irregular, temperatura de 5°C e uma grama escorregadia. Porque Bubka usou uma vara de carbono com rigidez que hoje seria considerada arcaica. E, principalmente, porque ele fez aquele salto em um momento de pura desesperança: após ter perdido os Jogos Olímpicos de 1992 para o ucraniano-órfão da União Soviética – uma derrota que o mergulhou em depressão por meses.
“Aquele recorde foi minha vingança contra a política, contra o doping, contra tudo”, ele confessou em 2015. “Eu saltei com raiva. E a raiva, quando controlada, é o combustível mais puro que existe.”
Lições da solidão:
- O recorde não é o fim: Bubka mostrou que a obsessão precisa de um propósito maior que o número. Ele falhou nas Olimpíadas de 1996 e 2000 porque, talvez, a motivação já não fosse mais o recorde, mas o medo de não tê-lo.
- O corpo obedece à mente, até o limite: Lesões constantes no ombro e no joelho eram ignoradas. Bubka treinava com dores. “A dor era minha companheira. Se ela sumisse, eu sabia que não estava me esforçando.”
- A solidão do topo é real: Ele não tinha amigos no circuito. “Eles queriam minha derrota. Eu queria minha imortalidade. Não havia meio-termo.”
Bubka hoje vive na Ucrânia, longe dos holofotes, mas ainda acompanha o atletismo. Certa vez, perguntaram se ele sentia falta do recorde. Ele respondeu: “Não. O recorde não me deixou. Ele está comigo todas as manhãs, quando eu olho no espelho e vejo as marcas do tempo. E eu lembro: um dia eu voei. Isso ninguém tira.”
E então, você entende: o recorde de Bubka não é um número. É uma cicatriz. E como toda cicatriz, dói até hoje.