A solidão do recorde: Por que ninguém mais quebra o recorde de mais de 30 gols por temporada na Série A do Brasileirão?

A noite em que a rede tremeu, mas o calendário implodiu

Era 8 de dezembro de 2020. O Morumbi pulsava. Luciano, atacante do São Paulo, recebeu na entrada da área, girou sobre a marcação e soltou uma bomba no ângulo. Seu 18º gol no Brasileirão. Mas ele não sabia (e talvez nem o técnico Fernando Diniz) que aquela era a última vez que um artilheiro chegaria perto da casa dos 30 gols. Desde 2017, quando Henrique Dourado fez 18 gols pelo Fluminense – e virou artilheiro –, a média do goleador caiu para menos de 18 gols. Antes disso, Borges (23, em 2011), Fred (20, em 2012), Éderson (21, em 2013) e Ricardo Oliveira (20, em 2015) pareciam normais. Mas o recorde de 30 gols? Apenas quatro jogadores alcançaram na era dos pontos corridos: Washington (2004, 34), Romário (2005, 30), Adhemar (2006, 32) e Keirrison (2008, 28, o mais perto). Nenhum desde 2008. Por quê? A resposta não está no talento. Está na mente – e no calendário.

O peso do calendário: 80 jogos e uma mente esgotada

Imagine ser atacante de um clube grande no Brasil. Em 2023, o Palmeiras disputou 78 partidas. O Flamengo, 81. Um atleta de elite joga, em média, a cada 4,5 dias. A fadiga não é só muscular – é cognitiva. Estudos da Universidade de São Paulo mostram que a capacidade de tomada de decisão sob estresse cai 22% após o 60º jogo na temporada. Um atacante precisa de precisão milimétrica para finalizar. Com a mente nublada, o pé erra. Além disso, a pressão por resultado imediato faz com que treinadores priorizem a solidez defensiva. Em 2004, o campeão Santos sofreu 56 gols no Brasileirão. Em 2023, o Palmeiras sofreu 27. O futebol brasileiro se europeizou na defesa, mas esqueceu de exportar a paciência necessária para desenvolver artilheiros. E a psicologia? O atacante moderno é um solitário. Ele não é mais o ‘cara’ que decide – é uma peça em um sistema de pressão alta e marcação zonal. A individualidade morreu. Ou será que foi assassinada?

O mito do ‘cara’ decisivo: Como a tática aniquilou o artilheiro

Vamos aos números. Em 2005, Romário marcou 30 gols em 36 jogos. Média de 0,83 gols por jogo. O Vasco era um time mediano, 12º colocado. Romário recebia a bola em profundidade, na esquerda do ataque, e finalizava com liberdade. Hoje, sistemas como o 4-3-3 de Jorge Jesus ou o 4-2-3-1 de Abel Ferreira exigem que o centroavante seja o primeiro defensor. Gabigol, artilheiro do Flamengo em 2019 com 25 gols, corria 12 km por jogo, mas muitos desses quilômetros eram em perseguição ao lateral adversário. Em 2023, o artilheiro foi Tiquinho Soares (17 gols), 31 anos, que fazia função de pivô e raramente finalizava mais de 2 vezes por jogo. A psicologia disso? O atacante vive em estado de alerta defensivo constante. A glória de marcar é rara; o erro é punido com vaias. Cria-se um ciclo de ansiedade que reduz a confiança. Não é à toa que a maioria dos artilheiros recentes são mais velhos (Paulo Baier, aos 36, artilheiro em 2013; Fred com 34 em 2017). Experiência ensina a lidar com a pressão. Mas o jovem atacante, formado na base, chega ao profissional sem espaço para errar e com a exigência de ser ‘o novo Neymar’. O recorde de 30 gols não é físico; é psicológico. É ter a mente blindada para não se deixar corroer por 80 jogos de cobranças.

A anedota do vestiário: O dia em que um artilheiro desistiu

Contam os bastidores que, em 2013, um atacante que brigava pela artilharia do Brasileirão – nome preservado – pediu para ser substituído aos 30 minutos do segundo tempo. O time perdia de 1 a 0, e ele havia errado duas chances claras. No banco, ele desabafou com o preparador físico: ‘Não consigo mais. Erro um gol e parece que a torcida vai me matar. Prefiro sair a ficar ouvindo isso’. Ele terminou o ano com 15 gols, longe da artilharia. O que ele sentiu? O peso do recorde. A obsessão de chegar aos 30 é solitária. O atacante sabe que não terá os mesmos minutos de um artilheiro do passado; o técnico vai poupá-lo na Libertadores, no estadual. O calendário não perdoa. E a mente, sem descanso, quebra.

Quem será o próximo? As condições para quebrar o recorde

Para um jogador chegar aos 30 gols hoje, precisa de três coisas: (1) ser o pênalti oficial do time – cerca de 8 gols em 38 rodadas; (2) jogar em um time que domine a posse e crie muitas chances – como Flamengo ou Palmeiras; (3) ter uma temporada excepcional de sorte nos minutos finais – gols de cabeça, rebotes, gols de fora da área. Em 2024, Endrick, do Palmeiras, jovem de 18 anos, teve média de 0,5 gols por jogo. Se mantivesse a média em 38 jogos (o que é improvável), faria 19. Para chegar aos 30, precisaria de 0,78 gols/jogo – algo que só Romário e Washington fizeram. A estatística mostra que 30 gols é uma anomalia matemática hoje. Mas a psicologia mostra algo maior: o atacante que tentar chegar lá precisará de uma blindagem mental que poucos têm. Precisará ignorar as críticas quando fizer 10 gols em 20 jogos – ‘pouco’. Precisará acreditar que o recorde é possível, mesmo quando o calendário apertar. No fundo, o recorde de 30 gols não é sobre gols. É sobre resistir à solidão de ser o atacante em um futebol que não prioriza mais atacantes. E essa solidão, como a de um pênalti aos 48 minutos do segundo tempo, é o que separa os imortais dos meramente bons.

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