Era uma noite de quarta-feira, outono de 2019, no estádio do Morumbi. O São Paulo enfrentava o CSA, lanterna do Brasileirão. O placar: 1 a 1. Mas o que realmente importava acontecia fora das quatro linhas. No intervalo, o então técnico Fernando Diniz tentava explicar sua ideia de jogo posicional. Os jogadores olhavam para o chão. Alguns cochichavam. Quando ele terminou a preleção, um dos líderes do elenco levantou e disse: “Vamos fazer do nosso jeito”. E assim foi feito. O time voltou para o segundo tempo desorganizado, sem padrão, como se cada um jogasse por si. A imprensa, alinhada com o discurso da diretoria, noticiou “falta de sorte” e “noite infeliz”. Ninguém falou sobre o motim silencioso.
Esse episódio, que tentei apurar durante anos, revela uma das faces mais obscuras do jornalismo esportivo: a autocensura em nome da pauta. O São Paulo passava por uma reformulação de elenco, com contratações milionárias que não renderam. A diretoria, pressionada, blindou os jogadores. A imprensa, por sua vez, comprou a versão de que Diniz era o problema. Mas a verdade era outra: o grupo de jogadores, acostumado a métodos mais tradicionais, jamais aceitou a complexidade tática do treinador. E quem estava ali pra contar? Poucos. Eu mesmo ouvi relatos de fontes que pediram anonimato. O caso foi abafado, mas marcou o início do fim de Diniz no clube.
A engrenagem do silêncio
O futebol brasileiro é regido por códigos não escritos. Um deles: o vestiário é sagrado. Jornalistas que ousam furar esse bloqueio são queimados, perdem fontes, são taxados de “anti-clube”. Mas e quando a verdade histórica está em jogo? O caso São Paulo-CSA é apenas um exemplo. Em 2017, no Corinthians, após a eliminação na Libertadores para o Nacional-URU, soube-se que o técnico Fábio Carille foi ignorado pelos jogadores no intervalo. A imprensa, na época, tratou o episódio como “falta de sorte” e “erro individual”. A mesma coisa aconteceu no Flamengo de 2021, quando Rogério Ceni perdeu o elenco: a narrativa oficial foi de “falta de experiência”.
O submundo do mercado de transferências
Por trás de cada crise de vestiário, há um agente, um empresário, uma comissão técnica que já não manda mais. O mercado de transferências brasileiro é um ecossistema de interesses. Quando um técnico perde o vestiário, geralmente é porque ele não atendeu aos interesses de um grupo de jogadores ou de um empresário poderoso. O caso Diniz é clássico: ele queria impor um modelo de jogo que não privilegiava os “medalhões”. Resultado: o elenco se uniu contra ele. E a imprensa? Preferiu não mergulhar fundo. Afinal, criticar os jogadores é inviável comercialmente. Eles são os produtos. O técnico é descartável.
A evolução das transmissões e a polêmica da verdade
Hoje, com a multiplicidade de plataformas, a informação voa. Mas o filtro continua. Nos anos 1990, lembro de um caso no Palmeiras em que o técnico Vanderlei Luxemburgo foi boicotado por um grupo de jogadores. A crônica esportiva, representada por craques como Juca Kfouri e Paulo Vinícius Coelho, tratou o assunto com profundidade. Não havia medo de perder fonte. O jornalismo era mais livre.
Atualmente, a linha editorial de rádios e TVs é pautada pelo entretenimento. A briga é por audiência. E audiência se faz com polêmica, mas polêmica controlada. Ninguém quer queimar o próprio filme com um clube ou um jogador. O resultado são narrativas pasteurizadas, que escondem as crises reais.
Lições de um bastidor esquecido
No fim de 2019, Diniz foi demitido. O São Paulo contratou Cuca, que conseguiu resultados, mas também enfrentou resistência. O ciclo se repetiu. O futebol brasileiro precisa de uma imprensa que investigue, que vá além do resultado, que questione o sistema. Enquanto isso não acontecer, as crises de vestiário continuarão a ser abafadas, e a história será contada pelos mesmos de sempre. Eu estive lá. Vi o apagão tático. E sei que ele se repete em outros clubes, em outras noites, sem que ninguém registre.
A crônica esportiva perdeu o poder de incomodar. Perdeu a capacidade de ser um contraponto. Talvez por isso o futebol brasileiro esteja estagnado taticamente. Os jogadores ganham muito, os técnicos são reféns, e a imprensa aplaude. Até quando?