Era uma sexta-feira de agosto de 2022. Eu estava sentado na sala de imprensa do estádio do Morumbi, tomando um café horrível de máquina, quando meu celular vibrou. Era um contato que eu não via há anos: um ex-preparador físico de um grande clube paulista. A mensagem era curta: “Você lembra do caso do volante X? A história que saiu no jornal Y foi plantada pelo empresário dele. O cara queria forçar a saída.” Eu lembrava. Quase todos os colegas de redação lembravam. Mas ninguém nunca escreveu a verdade. Por quê? Porque o jornalismo esportivo brasileiro, em sua essência, não é sobre esporte. É sobre poder. Sobre quem controla a narrativa. Sobre o assassinato silencioso de jogadores.
A Fábrica de Heróis e Vilões
Nos anos 1990, o jornalismo esportivo era quase literário. Grandes cronistas como Nelson Rodrigues e João Saldanha pintavam quadros épicos com palavras. Mas, com a profissionalização do mercado e a explosão do dinheiro no futebol, algo mudou. As redações se encheram de jovens jornalistas com pressão por cliques, audiência e furos. E, nesse caldo, surgiram os operadores de narrativa. Empresários, agentes e até dirigentes perceberam que podiam usar a imprensa como um canivete suíço tático.
Lembro de uma conversa num bar em São Paulo, em 2018, com um repórter veterano que cobria a seleção brasileira. Ele me disse: “Meu filho, existem dois tipos de jogador: o que a mídia ama e o que a mídia mata. O amor e o ódio não têm nada a ver com desempenho. Têm a ver com quem paga o almoço do jornalista.” Na época, achei exagero. Hoje, sei que era subestimação.
O Caso do Volante que Virou Lixo
Voltemos ao volante X. Em 2021, ele era um dos pilares de um time que brigava pelo título. De repente, começaram a vazar notícias: noite de balada, atraso em treinos, discussão com o técnico. O jogador virou pária. A torcida vaiava. A diretoria, pressionada, o afastou. Ele foi vendido por um valor irrisório a um clube do exterior. O que ninguém sabia é que o empresário dele, insatisfeito com a multa rescisória, havia orquestrado a campanha de difamação. Pagou um repórter setorista para escrever notas anônimas. Mas o pior é que, quando o jogador saiu, o mesmo repórter escreveu uma matéria “isentona” sobre a carreira do atleta, como se nunca tivesse participado do linchamento. Isso não é jornalismo. É gerenciamento de crise reverso.
O Mecanismo da Morte Midiática
Como funciona essa engrenagem? Simples: 1. O empresário ou agente identifica um alvo (jogador que quer vender, treinador que quer derrubar). 2. Liga para um jornalista setorista (às vezes com um envelope, às vezes com acesso exclusivo). 3. O jornalista publica uma notícia com fonte anônima. 4. Outros veículos replicam, pois ninguém quer ficar sem o furo. 5. A torcida reage. O clube se vê obrigado a agir. O profissional é destruído. E ninguém paga por isso.
Estou falando de casos concretos. Em 2019, um atacante de um clube carioca foi acusado de agredir a mulher. A notícia correu mundo. Ele perdeu patrocínios, foi afastado. Descobriu-se depois que a acusação era falsa, movida pela ex-companheira a mando de um rival. Mas a retratação ocupou um parágrafo no canto do site. O estrago estava feito. O jornalismo esportivo brasileiro não tem código de ética. Tem código de negócios.
O Submundo das Transferências
Se você acha que o mercado de transferências é movido a scout e análise de desempenho, está enganado. Ele é movido a informações privilegiadas. E quem as detém? Empresários que pagam jornalistas para ter seus telefones na lista de contatos. Conheci um repórter que, toda semana, recebia um e-mail de um agente europeu com a lista de jogadores que estavam à venda. Em troca, o repórter publicava notas lisonjeiras sobre os atletas. O agente inflava o valor de mercado. O repórter ganhava o furo. O torcedor, que lia aquilo, achava que era jornalismo.
Esse ciclo vicioso é mais perverso do que parece. Quando um jogador tem seu valor inflado artificialmente e não corresponde em campo, a mídia o executa. Era um ‘craque’ na janela; vira ‘fracasso’ em campo. A volatilidade das opiniões nas redes sociais é reflexo desse jogo de bastidores. Nós, jornalistas, criamos monstros e depois os matamos.
O Caso da Promessa Queimada
Lembro de um meia-atacante revelado num clube do Sul. Aos 18 anos, foi comparado a grandes nomes. Capas de revista. Matérias ufanistas. Seu empresário, um dos mais poderosos do país, tinha acesso irrestrito à redação. Quando o jogador foi vendido para a Europa por um valor astronômico, a expectativa era monumental. Mas ele não se adaptou. Voltou ao Brasil por empréstimo. Aí, a mesma mídia que o endeusou começou a crucificá-lo. Matérias sobre noitadas, indisciplina, peso acima do ideal. Ele nunca mais foi o mesmo. Aos 24 anos, estava num clube de série B. A carreira foi destruída não por falta de talento, mas por excesso de hype e posterior abandono. O jornalismo esportivo não sabe lidar com nuances. Ele opera no preto e no branco, na santidade e na danação.
A Evolução das Transmissões e a Fofoca Tática
Com a chegada dos streamings e a multiplicação de canais de análise, a situação piorou. Agora, qualquer ex-jogador com Instagram pode virar comentarista. Eles trazem, supostamente, os ‘bastidores’. Mas, na verdade, trazem uma versão editada dos fatos, muitas vezes para proteger amigos ou queimar inimigos. Ouvimos frases como ‘fulano não se dedicou nos treinos’ sem provas. E isso vira verdade. A linha entre informação privilegiada e fofoca tática nunca foi tão tênue.
Em 2023, durante uma transmissão ao vivo, um comentarista revelou que um técnico havia perdido o vestiário. A informação veio de um auxiliar que queria derrubar o treinador para assumir o cargo. A notícia se espalhou. O técnico foi demitido duas rodadas depois. O auxiliar virou interino. Caso raro de transparência? Não. Foi apenas um vazamento conveniente para o novo treinador. O comentarista, amigo do auxiliar, fez o serviço. Isso não é jornalismo. É lobby com microfone.
Quem Paga o Pato?
No fim das contas, quem sofre é o torcedor, que é manipulado como massa de manobra. E o jogador, que tem sua imagem destruída por interesses alheios. Raros são os jornalistas que denunciam o sistema. A maioria está dentro dele. Sei disso porque estou dentro. Já recebi convites para almoços com empresários, já me ofereceram informações exclusivas em troca de silêncio sobre outros assuntos. A diferença entre um jornalista esportivo e um assessor de imprensa é a linha tênue do salário.
O jornalismo esportivo brasileiro precisa de uma revolução ética. Não de mais tecnologia, não de mais dados. De compromisso com a verdade, mesmo que ela desagrade quem paga a conta. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir, em silêncio, ao assassinato silencioso de jogadores. E, pior, a bater palmas para os algozes.