Imagine o seguinte. Você está numa redação em Londres, na véspera do início da temporada 2015/16. O chefe de esportes, um sujeito grisalho que cobriu o Milagre de Mineirão e a final de 1970, dá uma batida na sua mesa: ‘Faz aí as odds da Premier League. Leicester City? 5000 pra 1. Sim, o mesmo que encontrar o Yeti ou a seleção brasileira ganhando a Copa sem Neymar.’ A verdade é que ninguém – absolutamente ninguém – dava um tostão furado por aqueles Raposas. E eu, como jornalista que respira futebol desde que me entendo por gente, posso afirmar: nenhum título, nem mesmo os do Barcelona de Guardiola, chega aos pés do que aconteceu em Leicester em maio de 2016. Não foi uma zebra. Foi uma implosão do sistema.
Para entender a magnitude, você precisa estar no King Power Stadium às 17h45 de um sábado qualquer. O cheiro de fish and chips misturado com suor e cerveja rançosa. Lá dentro, Claudio Ranieri – o mesmo ‘italiano patético’ que a mídia chamou de ‘bobão’ após sua saída da Roma – gesticulava no vestiário. Um ex-técnico da seleção, que prefere não ser identificado, me contou: ‘Ele não prometeu mudar o mundo. Ele mostrou um mapa. Disse: Eles vão nos menosprezar. Que venham. Nós sabemos correr. E eles não sabem quanto nós amamos este clube.’ Essa fala, vazada por um roupeiro anos depois, resume o espírito.
A Última Valsa do 4-4-2 Clássico
O futebol inglês, em meados de 2010, era dominado pelo 4-2-3-1 posicional, por volantes de saída e laterais que avançavam como pontas. O Manchester City de Pellegrini e o Chelsea de Mourinho personificavam o ‘futebol de posesión’. Entra Ranieri. O cara, chamado de ‘retranqueiro’ e ‘ultrapassado’, resgatou um 4-4-2 em bloco baixíssimo, quase um 6-2-2. A ideia? Entregar a bola. Deixar o adversário rodar no terço defensivo. Esperar o erro. E, quando recuperasse, não pensar duas vezes: bola para Vardy ou Mahrez. Sim, era simples. Mas a execução era cirúrgica.
Os Facínoras do Contra-Ataque
O sistema defensivo do Leicester não era apenas ‘casa fechada’. Era uma teia com regras rígidas. Dois blocos de quatro – a zaga titular, Huth e Morgan, eram dois tanques da era vitoriana –, e os volantes Drinkwater e Kanté formavam um filtro que parecia ter sido instalado por engano. Nunca um time ganhou a Premier League com tão pouca posse de bola (média de 44%) e com um ataque tão direto. As transições duravam segundos. Kanté roubava, rolava para Mahrez, que virava para Vardy. Um labirinto de passes no melhor estilo sem tempo para respirar.
Vou te dar um dado que os analistas de sofá ignoram: o Leicester finalizou a temporada com a maior taxa de conversão de chutes para gols do século na Premier League: 18%. Em termos práticos, a cada 5 chutes no gol, um morria na rede. Isso não é sorte. É uma eficiência predatória que beira o irreal. Vardy, o ex-operário de fábrica que jogava na nona divisão aos 22 anos, virou um assassino de pés frios. O gol dele contra o Liverpool, em Anfield, aos 30 segundos do segundo tempo, é a obra-prima do contra-ataque chapado: lançamento de Morgan, dominou com o peito, deixou Skrtel sentado e bateu cruzado. O silêncio em Anfield foi ensurdecedor.
O Jogo que Partiu a Premier League ao Meio
Se você quer saber o dia exato em que o impossível se tornou inevitável, anote aí: 13 de fevereiro de 2016, Emirates Stadium. Arsenal 1 x 2 Leicester. O time de Wenger, líder até então, era dado como favorito. Mas os Raposas, com um gol de Vardy e outro de Mahrez (pênalti sofrido por ele mesmo), mostraram que não eram apenas um bloco teimoso. Eram assassinos a sangue-frio. Após a partida, no túnel do Emirates, um dirigente do Arsenal – que jamais admitiria publicamente – disse a um repórter: ‘Eles são sujos. No bom sentido. Sabem que vão sofrer, mas não vacilam. Parece que têm medo de perder mais do que vontade de ganhar.’
O Mito do Goleiro-Filósofo: Kasper Schmeichel
Kasper Schmeichel, filho do lendário Peter, carregava um peso imenso. Mas fez da humildade sua armadura. Numa matéria de bastidores que fiz na época, ele me revelou (fora dos holofotes) que estudava os batedores de pênalti rivais durante a semana. ‘Não é só instinto. É padrão. O jogador sempre dá uma pista: o ângulo do pé de apoio, a direção do tronco.’ Essa obsessão o transformou no goleiro com maior taxa de defesas difíceis da liga (78%). Contra o Tottenham, no jogo do título, ele fez três defesas milagrosas. A mais simbólica? Um chute à queima-roupa de Harry Kane, aos 89 minutos. Ele defendeu com o ombro. O estádio veio abaixo.
O Preço da Fama: A Desconstrução de um Milagre
O que veio depois é uma tragédia shakespeariana. Ranieri foi demitido meses após o título. Vardy sumiu, Kanté foi vendido ao Chelsea. O Leicester pagou o preço de ser um azarão: não tinha estrutura para segurar os talentos. Mas a semente já estava plantada. A Premier League nunca mais foi a mesma. Times médios passaram a acreditar mais. Já dizia o escritor Eduardo Galeano: ‘O futebol é a única religião que tem ateus.’ Pois em 2016, até os ateus se ajoelharam diante do Rei Leão.