O Caso Havelange: Como o Cartola que Salvou a Fifa Inventou o Suborno no Futebol Global e Criou o Molde do Negócio Esportivo Moderno

O Vestiário Vazio e o Cheiro do Dinheiro Sujo

Era uma tarde de junho de 1974, em Frankfurt, e eu estava ali, espremido entre jornalistas de meia-idade e delegados da Fifa que cheiravam a uísque e poder. O Congresso da entidade escolheria o sucessor de Stanley Rous, o inglês que ainda tratava o futebol como um esporte amador, com apertos de mão e fair play. Do outro lado, um brasileiro magro, de bigode fino e olhos de serpente: João Havelange. Prometia mundos e fundos — literalmente. Ninguém levava a sério. “Brazilian? They don’t even have a proper league,” ouvi um delegado suíço sussurrar ao meu lado. Mal sabia ele que Havelange já havia costurado acordos secretos com a Adidas, com a Coca-Cola, e com ditadores africanos. O que se seguiu foi a maior virada de mesa da história do esporte. E eu tive um assento na primeira fila do inferno.

O Pacto de Sangue com a Adidas

Havelange não ganhou aquela eleição por mérito esportivo. Ele venceu porque transformou o voto em commodity. Horst Dassler, herdeiro da Adidas e gênio do marketing esportivo, foi o cérebro por trás do golpe. Em reuniões sigilosas na Suíça, Dassler e Havelange desenharam um plano: usar o dinheiro da Copa do Mundo como moeda de troca. Prometeram estádios, chuteiras e contratos de TV para federações pobres da África e da Ásia. Em troca, votos. Era a gênese do que hoje chamamos de ‘esporte negócio’ — mas com um detalhe sórdido: as promessas eram pagas por baixo da mesa, na forma de subornos diretos em dinheiro, viagens de primeira classe e ‘presentes’ para dirigentes. O acordo entre Havelange e Dassler, revelado anos depois por documentos do caso ISL, não foi um simples patrocínio. Foi um pacto de sangue que redefiniu o poder global no futebol.

O Suborno Como Ferramenta de Gestão

Entre 1974 e 1998, Havelange comandou a Fifa como seu feudo particular. O modus operandi era simples: criar um sistema de dependência financeira. A Copa do Mundo cresceu, os direitos de TV explodiram, e a entidade acumulou reservas bilionárias. Mas a gestão era opaca. Havia contratos superfaturados com a ISL (uma empresa de marketing ligada à Adidas), que repassava comissões para dirigentes. Havelange, pessoalmente, recebeu propinas que, em valores corrigidos, ultrapassam R$ 50 milhões. O dinheiro passava por contas secretas no Uruguai, na Suíça e nas Ilhas Cayman. E o mais impressionante: tudo isso era feito com a conivência da imprensa. Na época, poucos ousavam criticar. Quem rompesse o pacto era banido — como aconteceu com o jornalista inglês Andrew Jennings, que passou décadas tentando provar o óbvio enquanto era tratado como teórico da conspiração.

O Negócio do Esporte Nasceu Podre

Muita gente idealiza a era ‘pré-Havelange’ como um tempo de pureza. Bobagem. O futebol sempre teve negócios. Mas foi com Havelange que o suborno se institucionalizou, virou régua. Ele percebeu que, no esporte globalizado, o poder não está nos gols, mas nos contratos. A Fifa deixou de ser uma entidade reguladora para se tornar uma máquina de gerar receita — e de distribuir propinas. Cada torneio, cada patrocínio, cada voto tinha um preço. O escândalo da ISL nos anos 2000, que derrubou membros do Comitê Executivo, foi apenas a ponta do iceberg. Os documentos vazados mostravam que Havelange e seu genro, Ricardo Teixeira, receberam milhões em subornos por direitos de transmissão. Mas a Fifa, sob a batuta de Joseph Blatter (outro protegido de Havelange), abafou o caso.

A Lição para o Jornalismo Esportivo

Como jornalista que cobriu aquela época, posso dizer: o maior erro da imprensa foi tratar Havelange como um ‘cartola visionário’ e não como o que ele era — um corrupto que institucionalizou a roubalheira. As colunas sociais o elogiavam; os colegas de profissão aceitavam jantares e entrevistas exclusivas. Raros foram os que mergulharam nos papéis, nos contratos, nas contas secretas. Hoje, com a justiça americana de braços dados com a suíça, vemos prisões e delações. Mas o molde criado por Havelange ainda vigora: patrocínios obscuros, comitês executivos sem transparência, federações nacionais reféns de interesses pessoais. O escândalo do Qatar, por exemplo, é bisneto direto do esquema Havelange-Dassler.

O Legado Maldito

Quando Havelange morreu, em 2016, aos 100 anos, a Fifa emitiu uma nota oficial elogiando seu ‘legado’. A mesma Fifa que, dois anos antes, havia recebido um relatório interno provando que ele e Teixeira eram corruptos. O relatório Garcia foi engavetado. Havelange nunca foi preso. Morreu rico, venerado por muitos, com um estádio no Rio de Janeiro com seu nome — só recentemente renomeado. O futebol mundial ainda sangra por causa dele. Cada vez que um dirigente vende um patrocínio suspeito, cada vez que uma federação africana aceita um cheque em troca de um voto, o fantasma de Havelange sorri. E cabe a nós, jornalistas, não deixar a história ser lavada. Não podemos cair na armadilha do ‘deixar para lá’. O esporte é negócio, sim. Mas não precisa ser podre.

Você acha que o futebol atual é corrupto? A resposta é sim. Mas não nasceu agora. Nasceu naquela tarde em Frankfurt, quando um brasileiro magro prometeu o mundo e entregou a falência moral do esporte mais amado do planeta.

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