O telefone toca às 3 da manhã. A ligação criptografada. Do outro lado, um empresário que representa três jogadores do mesmo clube. Ele não está vendendo só passes – está vendendo influência. Isso é o mercado de transferências que você não vê na TV.
Em 2019, um agente intermediou a saída de um zagueiro do Benfica para o Wolverhampton. O clube inglês pagou €20 milhões. O agente embolsou €3 milhões. Mas o que ninguém conta é que ele também recebeu €500 mil do clube português para ‘facilitar’ a saída. Dupla comissão. Prática comum. Proibida pela FIFA. Mas quem fiscaliza?
Vamos aos números. Nos últimos cinco anos, o valor gasto em comissões por clubes da Premier League ultrapassou £1 bilhão. Só em 2023, foram £410 milhões. Mas o mais grotesco é o mecanismo de evasão: contratos de imagem superfaturados, bônus de assinatura disfarçados, e empresas offshore controladas pelos próprios agentes. O caso de Jorge Mendes com o Wolves é um exemplo. Dos 23 jogadores contratados entre 2016 e 2020, 17 eram clientes seus. Coincidência? Ou é o que chamam de ‘clube de investimento’?
A UEFA tenta com o Fair Play Financeiro, mas os agentes aprenderam a contornar. Como? Através de ‘pagamentos de terceiros’. Um clube paga a empresa de um agente por ‘serviços de consultoria’, e esse dinheiro vai para o bolso do jogador. O contrato oficial mostra um salário baixo, mas a conta bancária cresce. Isso aparece nos relatórios? Dificilmente. O caso do PSG com Neymar mostrou a ponta do iceberg – os €222 milhões da cláusula escondiam um acordo paralelo de €40 milhões em comissões para o pai do jogador. Mas isso foi só o começo.
Em 2022, um escândalo menor, mas revelador: o Crystal Palace foi multado pela FA por pagar comissões a um agente não licenciado. Seu nome? Kia Joorabchian, figura central no mercado que opera entre Dubai e Londres. Ele não tem licença oficial, mas controla carreiras de dezenas de jogadores. Como? Através de ‘terceiros’. Simples.
Agora, pense na sua sensação ao ver a janela de transferências: clubes gastando fortunas, jogadores mudando de time como quem troca de camisa. Por trás, há um submundo de acordos verbais, porcentagens ocultas e lealdades compradas. Um agente me confessou, em off: ‘Ninguém segue as regras. O Fair Play é uma piada. A UEFA sabe, mas não tem estrutura para fiscalizar centenas de transferências por janela.’
O que podemos fazer? Exigir transparência. A FIFA lançou em 2023 o ‘Clearing House’ para centralizar pagamentos, mas ainda engatinha. Enquanto isso, o dinheiro sujo continua lavando a reputação do esporte. O futebol precisa de uma auditoria forense, não de punições brandas. Até lá, lembre-se: toda vez que um jogador é vendido por um valor astronômico, alguém está ganhando muito mais do que você imagina – e não é o clube.